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Gloria Steinem: actos escandalosos e rebeliões diárias

Morreu esta quarta-feira, em Nova Iorque, aos 92 anos. Uma vida engajada, a impulsionar a igualdade entre os sexos e assinar uma obra ensaística de enormíssimo valor.

Ana Bárbara Pedrosa
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Interventiva na vida social americana, Gloria Steinem (1934-2026) definia-se como “empreendedora da mudança social”. Ao longo de mais de 50 anos, foi rosto de movimentos em prol da igualdade entre os sexos, ao mesmo tempo que descritora dos mecanismos que criavam essa desigualdade. Isto parecerá improvável tendo em conta as suas raízes: após uma infância itinerante e o divórcio dos pais, ficou a cuidar da mãe, que tinha transtornos psiquiátricos, e até ao sexto ano não teve muita educação formal. Ainda assim, fez-se uma grande leitora e uma grande ensaísta.

Steinem não chegou cedo ao activismo. Em 1969, então jornalista de 35 anos, participou num encontro sobre interrupções voluntárias da gravidez feitas ilegalmente. Foi a partir daí que houve um processo de politização e que a autora começou a ser socialmente mais activa, transformando-se num símbolo político, e para mais um símbolo impulsionador: conhecia os meios de comunicação, era eloquente e carismática; escreveu ensaios e liderou protestos, participou na criação de centros de atendimento a vítimas de violação e abrigos para mulheres agredidas. Em 1971, foi co-fundadora da revista Ms., que se distinguia no panorama das revistas femininas habituais de então, já que abordava temas como a violência doméstica ou a igualdade salarial. Steinem costumava dizer que, quando a revista começou a ser publicada, nem sequer havia um termo para assédio sexual.

Além disso, Steinem escreveu muito. Publicou artigos na Cosmopolitan, na Vogue, na Esquire, na Family Circle, na Life. Foi editora da New York e da Glamour. E, claro, escreveu livros.

A sua experiência como jornalista não será de somenos no olhar que existe na sua obra. Não se vê, nos livros que publicou, o tom de uma académica que parte de uma teoria onde tenta encaixar a realidade. Em vez disso, os textos nascem de pessoas, de conversas, de viagens, de pontos que a autora concatena. Isto nota-se logo em Outrageous Acts and Everyday Rebellions, livro originalmente publicado em 1983. A obra junta ensaios e textos jornalísticos escritos ao longo dos anos anteriores e tornou-se o mais conhecido da primeira fase da autora, tendo sido actualizado ao longo das edições posteriores e tendo vendido mais de meio milhão de exemplares, no total de todas as edições. Lá dentro, podem encontrar-se gestos que são pequenos nadas, mas que têm um sabor de pequena rebelião quotidiana: não apenas há desafios a instituições ou actos escandalosos, mas também, que é o mais interessante, a descrição de momentos quase discretos da recusa de uma expectativa ou de desrespeito a uma regra. Nisto, a autora vai a tudo, desde assédio a desigualdade salarial ou a violência doméstica. Claro que, em 2026, tudo isto podia parecer datado, e em certa medida até o é, mas a pertinência do livro aquando da publicação também nos diz muito sobre o mundo e a época.

Em 1986, publicou Marilyn: Norma Jean, um retrato de Marilyn Monroe. O ensaio é interessante porque se debruça sobre a ideia de que a mulher e a personagem foram confundidas de tal forma que se tornam indestrinçáveis. A artista norte-americana havia-se tornado num exemplo cabal de uma mulher transformada numa imagem. Norma Jean Baker havia desaparecido, dando lugar à personagem Marilyn. Ao longo das páginas do livro, Steinem tentou recuperar o substrato a que a imagem se sobrepunha: a inteligência, a história. Com isto remetido para um canto, Marilyn Monroe parecia apenas um produto cultural e um objecto de desejo. Ao debruçar-se desta forma sobre o fenómeno, Steinem também traz à luz a complexidade por trás da ideia de uma figura pública.

A certa altura do seu percurso, a autora norte-americana parece ter querido ver o outro lado – em vez de se focar nas estruturas sociais enquanto fenómenos transversais, quis escrutinar o impacto dessas estruturas nas pessoas. Daí nasceu Revolution from Within, publicado em 1992. Aqui, a autora explorou a relação entre poder social e vida interior, pegando em formas de auto-avaliação que lhe pareceram socialmente condicionadas, medindo o seu impacto em elementos íntimos como a auto-estima ou a necessidade de aprovação. Neste sentido, o livro incide também sobre a psique, sendo mais psicológico do que jornalístico ou sociológico, e sendo por isso mais pessoal. Em vez de meramente descrever as hierarquias sociais, simbólicas e políticas, a autora olha para a forma como os membros da sociedade as interiorizam. Nisto, aparece uma das características fundamentais do seu trabalho: a autora não separa a bisturi o político do pessoal. A ideia que os movimentos feministas tornaram famosa – de que o pessoal é político – implica a ideia de que a política atravessa a intimidade, e não só que contendas domésticas possam ser objecto de legislação.

Em Moving Beyond Words, publicado em 1994, a autora apresenta ao público uma forma ensaística difícil de classificar. Composto por seis partes, o livro podia ser o preâmbulo para seis livros diferentes. Focando-se em assuntos como o empoderamento económico, a autora examina o estado dos movimentos feministas no início da década de 1990 e cogita possibilidades de futuro.

Em Doing sixty and seventy, de 2006, debruçou-se sobre a condição feminina e o envelhecimento. É uma obra que parece partir das experiências individuais para criar tema ou conhecimento público e político e que mostra uma combinação entre reflexão pessoal e intervenção política. Ao longo do texto, a autora vai mostrando a forma como o envelhecimento é visto de forma diferente entre homens e mulheres.

Em 2015, Gloria Steinem publicou a sua autobiografia, My Life on the Road. Ora, tendo carácter autobiográfico, não é uma biografia tradicional, uma vez que os relatos não obedecem a uma ordem cronológica e a vida não é apresentada como uma sequência de acontecimentos ao estilo de causa e efeito, produzindo uma persona coerente. Em vez disso, o livro, que parte da infância itinerante da autora, faz-se à volta da ideia de viagem, e a estrada é não apenas o lugar onde as pessoas se encontram, mas também onde se testam as teorias – aqui, entram a sua vida enquanto jornalista e activista. A própria viagem é, assim, uma forma de estar no mundo – pôr a teoria de lado e ver a vida através da prática. A ideia é particularmente honesta, e em muito se assemelha ao exercício literário: abandonando as estatísticas, ouvem-se histórias, e a alteração de pensamentos prévios, ou até de certezas, pode chegar de sítios inesperados. A viagem torna-se numa possibilidade de se perceber certos enganos. Ao mesmo tempo, o livro autobiográfico desloca o cerne da narrativa do eu para as pessoas que esse mesmo eu encontrou.

A principal marca de Gloria Steinem será mesmo o entrelaçamento entre a reflexão e a experiência, e entre o político e o aparentemente privado. Mesmo quando se focava sobre desigualdade ou envelhecimento, a autora tentou perceber os mecanismos sociais que reestabelecem os lugares das pessoas no mundo.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.