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(A) :: O ano da peste e a cavalgada das palavras

O ano da peste e a cavalgada das palavras

Quando o medo não encontra explicação, procura um rosto. E escolhe quase sempre aquele que aprendera a desprezar. Culpar judeus é um hábito tão antigo quanto a ignorância que o alimenta.

Paulo Ramos
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No ano de 1348, em Girona, no bairro judeu, a morte negra quase reduziu uma comunidade inteira a cinza, silêncio e memória. Os judeus lavavam as mãos antes de comer, entoavam as suas preces e continuavam a estudar, como sempre haviam feito. Por enquanto, a peste poupava-os. Talvez não por milagre, talvez não por eleição, mas pela obstinação dos pequenos gestos: a água sobre a pele, o pão repartido, a letra repetida, a bênção de boca em boca como uma brasa protegida do vento.

Lá fora, porém, nos bairros próximos do rio, despontavam manchas azuladas na pele, e os olhos ardiam sob o vaivém da febre. A peste dançava a sua dança errática e faminta: entrava e saía das casas, sem cuidar de quem ali dormia, de quem tinha amado, trabalhado, esperado. Os cadáveres eram queimados em campo aberto; as moedas, lançadas aos ribeiros; os animais, encerrados nos currais. Nas igrejas, o incenso elevava barreiras inúteis, perfumes frágeis contra um ar que parecia ter enlouquecido.

Quando o medo não encontra explicação, procura um rosto. E escolhe quase sempre aquele que aprendera a desprezar. Culpar judeus é um hábito tão antigo quanto a ignorância que o alimenta. Ao cabo de meses longos e tensos, a multidão, conduzida por monges de olhar turvo e pela suspeita de que os hebreus envenenavam os poços, precipitar-se-ia contra eles com machados, enxadas e pedras. Não precisava de provas: bastava-lhe uma história suficientemente cruel para fazer esquecer a própria impotência.

O mestre ferreiro rabi Meir Hamishpat, alto, zarolho e já cansado de escutar as mesmas calúnias, costumava observar que, se aqueles homens lavassem as mãos como os judeus, diminuiriam muito o mal. Mas não queriam ouvi-lo. O desprezo era maior do que o discernimento, e o medo, quando se torna multidão, prefere destruir uma voz a escutar a sua verdade.

Nessa tarde, Meir Hamishpat iria com dois dos seus discípulos mais queridos à torre em ruínas onde se reuniam para ler e recitar os salmos. O pretexto para saírem da cidade consistia em mudar as ferraduras dos novos cavalos do conde Ruy Miracle. Os bois começavam a ser retirados dos campos, enquanto a relha de ferro dos arados abria terras junto dos limites da floresta. Em seu lugar empregavam-se cavalos, e isso trazia mais trabalho ao rabi-ferreiro, mas também uma modesta liberdade: a liberdade de circular, de transportar ferramentas, livros e palavras entre um lugar ameaçado e uma torre esquecida.

Amava aquela terra de gente mal-humorada e ingrata. Amava-a sem ilusões, que é talvez a única maneira durável de amar. Estimava as ameixeiras e os pinheiros largos, as giestas, os crepúsculos, os pintassilgos, as estrelas próximas. Estimava sobretudo a torre de vigia que pertencia ao conde e à qual podia aceder graças a uma autorização gravada com o selo deste. Não era uma liberdade completa. Mas há tempos em que uma pequena autorização, um caminho ainda transitável, uma porta que não se fecha inteiramente, pode bastar para preservar uma vida interior.

Levavam círios, pão e vinho para as bênçãos de sexta-feira. Perto da torre nascia uma fonte. Chegava-se ao alto por uma escada estreita, de pedra gasta pelos passos de quem subira antes deles e talvez por aqueles que, muito depois, ainda procurariam um abrigo semelhante. No cimo, duas pequenas janelas abriam-se para a costa. Quatro nichos guardavam livros de orações iluminados com flores e frutos pela mão paciente do jovem Ariel Guenizá, companheiro de caminho do ferreiro.

Era necessário conservar livros de reserva, porque o bispo mandava frequentemente apreender e queimar os que se encontravam a uso. Assim, a torre era uma biblioteca secreta: a biblioteca escondida dos judeus. Mas uma biblioteca nunca é apenas o lugar onde se escondem livros. É o lugar onde se esconde a possibilidade de o mundo voltar a ser pronunciado quando o mundo parece empenhado em esquecer os seus próprios nomes.

A palavra é uma das poucas coisas que o poder não consegue exterminar de uma vez. Pode queimar o pergaminho, calar o leitor, dispersar a família, derrubar os muros e impor aos sobreviventes uma língua de medo. Mesmo assim, alguma coisa persiste: uma sílaba decorada, um versículo murmurado, uma cadência que o corpo aprendeu antes de compreender. A palavra sobrevive de modo clandestino. Esconde-se na respiração, dobra-se na memória, passa de uma boca a outra como água escassa. E, quando enfim encontra de novo quem a escute, ergue-se não como um vestígio, mas como uma presença.

A Lua recortava-se com nitidez no céu quando passaram junto das fogueiras que queimavam os corpos das vítimas da morte negra. Foram insultados e atingidos por ramos atirados pela multidão. A história dos poços envenenados era uma patranha, pois judeus e cristãos abasteciam-se em poços diferentes. A Peste Negra chegou à Catalunha na Primavera de 1348, e falsas acusações de envenenamento de poços contribuíram para alimentar violências antijudaicas em diversas comunidades da Coroa de Aragão.

O interior da torre era frio e húmido. Antes de subirem, lavaram-se na nascente. A água não os purificava de uma culpa, porque não havia culpa em serem quem eram. Libertava-os, antes, do pó do caminho e da aderência do medo. A ablução é uma das mais antigas formas de pensamento: ao tocar a água, o corpo recorda que não é uma pedra condenada a conservar para sempre a mesma sujidade.

O rabi, que era também ferreiro, ensinou-lhes então que as palavras daqueles que ensinam saem do coração dos mestres como uma cavalgada de cavalos e procuram o coração dos discípulos. Se estes não as deixam entrar, seja qual for a razão, o Criador compadece-se delas e devolve-as ao peito de quem as pronunciou.

Não se tratava de uma metáfora inocente. Um cavalo não é apenas força ou velocidade: é um corpo que transporta outro corpo através da distância. Também as palavras nos levam para fora da cela estreita do presente, atravessam a doença, o luto, a calúnia e o tempo. Uma palavra dita por um morto pode ainda chegar, séculos depois, a alguém que dela necessitava sem o saber. Uma oração composta num quarto escuro pode tornar-se abrigo para uma voz futura. Um salmo entoado diante de uma torre arruinada pode alcançar, por vias que ninguém mede, a própria margem da transcendência.

A transcendência talvez não comece onde o mundo acaba. Começa no instante em que o mundo, sem deixar de ser mundo — húmido, doente, violento, corporal — se torna capaz de significar mais do que a sua evidência. As palavras não nos retiram da morte, mas recusam que a morte tenha a última gramática. Não curam sempre o corpo, mas impedem que a dor fique inteiramente sem voz. Não desfazem a injustiça, mas tornam impossível que ela pareça natural.

Um após outro, os discípulos repetiram «ámen», palavra que também os cristãos empregavam. Talvez naquele breve som houvesse uma verdade mais funda do que as fronteiras que os separavam. «Ámen» não é uma explicação; é um consentimento. Não afirma que o sofrimento é justo, nem que a peste possui sentido. Diz apenas que a palavra pode ser recebida, que algo em nós ainda se inclina para ela, que o coração não fechou por completo.

Terminada a leitura e os comentários, voltaram a esconder os livros por trás de pedras maciças e difíceis de mover. A caminho da cidade, guiados pela Lua, viram as brasas das piras. As raposas aproximavam-se por curiosidade, mas eram suficientemente prudentes para não morderem os membros chamuscados das vítimas. Ouviam-se choros, imprecações, vozes de crianças pequenas, disputas por bens, ordens, relinchos e uivos. Em redor deles, a cidade parecia ter perdido a linguagem e conservava apenas os seus ruídos.

Dois meses depois daquela visita à torre, o mestre ferreiro morreu sem ter revelado qualquer sinal de peste. O conde assistiu consternado ao velório, perguntando-se quem trataria agora dos cascos dos seus cavalos. A família chorou o rabi Meir Hamishpat, inquieta com o futuro sustento mais do que com a epidemia. O médico declarou que fora um ataque cardíaco: inesperado e triste, como todos os ataques que interrompem uma vida sem aviso.

Ariel Guenizá, o jovem calígrafo, secou os olhos com um lenço azul e afirmou que o mestre morrera porque os discípulos não tinham deixado entrar no coração as suas palavras. Talvez andassem distraídos, demasiado ocupados com o mundo exterior e com a doença. Deus, compadecido dessas palavras, devolvera-as com tamanho ímpeto ao peito do velho que a cavalgada dos vocábulos o fulminara.

Um dos discípulos objectou que as palavras não eram cavalos. Ariel respondeu que, ainda assim, conduziam os homens de um lugar para outro, segundo a destreza, a paciência e a vulnerabilidade de quem as montava.

E talvez tivesse razão. Há palavras que nos precipitam para o medo, como cavalos desgovernados numa estrada nocturna. Há palavras que erguem a perseguição, inventam inimigos e transformam vizinhos em corpos disponíveis para a violência. Mas há também palavras que transportam pão, água, prece, memória e reconciliação. Palavras que não dominam: acompanham. Palavras que não prometem salvar-nos do mundo, mas no-lo devolvem com uma atenção mais humana.

Uma atmosfera de luto impregnou durante dias o bairro judeu. Lá fora, a peste negra avançou um pouco mais para norte. Mas, atrás das pedras pesadas da torre, os livros permaneceram. E dentro deles, à espera de uma mão, de uma voz, de um ouvido, continuavam a respirar as palavras do rabi: não mortas, não vencidas, apenas recolhidas na obscuridade, como sementes que conhecem a paciência da terra.