A mulher está grávida. É assim que ele costuma dizer, embora tenha começado a desconfiar de que a frase seja talvez demasiado simples para descrever o que realmente está a acontecer. Afinal, é verdade que ela está grávida, mas os dois estão já a aprender a ser pais! Ela, claro, de forma mais evidente, porque transporta dentro de si uma criança que cresce a uma velocidade suficientemente impressionante para transformar cada nova ecografia numa espécie de atualização de software. Ele, coitado, participa como pode. Há, inevitavelmente, uma certa divisão de papéis: ela ocupa-se de fazer crescer o bebé; ele procura garantir que, à volta desse crescimento, tudo o resto continua a funcionar. No fundo, ela cuida do bebé e ele cuida dos dois. Ou, pelo menos, tenta.
A gravidez é um processo de formação contínua, caraterizada por uma combinação particularmente eficaz entre ignorância, boa vontade e medo de fazer asneira. Aprenderam, desde logo, palavras novas: colostro, períneo, diástase, percentil, rolhão mucoso… Esta última deixou-o particularmente inquieto durante alguns minutos, até perceber que não era necessário fazer nada com a informação. Também descobriu que quase tudo é potencialmente perigoso: enchidos, legumes por lavar, marisco, ovos mal cozidos, calor a mais, de menos, dormir de costas, dormir de barriga para cima, caminhar demasiado, não caminhar o suficiente, subir escadas, descer… Enfim, a ciência parece bastante segura de si, desde que não se consultem duas fontes diferentes.
Vai fazendo o melhor que pode, que é como quem diz, pergunta se ela precisa de alguma coisa. Faz-lhe o pequeno-almoço, procura almofadas, carrega sacos. Baixa-se para apanhar objetos que, por razões anatómicas cada vez mais evidentes, começam a pertencer exclusivamente à sua área de responsabilidade. E, sobretudo, habituou-se a uma pergunta nova: “Estás bem?” Pergunta-a várias vezes por dia. Às vezes ela responde que sim, outras que não. Na maior parte das vezes responde: “Estou só cansada.” Ele também começa a perceber que “só cansada” é uma categoria bastante mais ampla do que anteriormente imaginava.
E tudo isto antes ainda de a criança nascer. Faltam alguns meses e ele já começa a perceber que ter um filho em Portugal exige uma capacidade de planeamento francamente desproporcionada para uma coisa que a humanidade faz desde sempre. Primeiro, é preciso perceber em que maternidade haverá obstetras de serviço quando a criança decidir nascer, porque a natalidade é muito importante, mas os médicos também. Depois virá a creche. Existe, é certo, o programa Creche Feliz, cujo nome é suficientemente tranquilizador até se descobrir que a felicidade depende daquele pequeno detalhe administrativo que é existir uma vaga. Enfim, tudo somado não é assim tão claro se o país quer realmente que as pessoas tenham filhos.
Chega, entretanto, o verão. Tinham comprado bilhetes para um festival muitos meses antes, numa época distante em que as decisões eram tomadas sem necessidade de considerar casas de banho próximas, lugares sentados, horários de refeições ou a distância entre o estacionamento e qualquer outro ponto da superfície terrestre. Decidem ir só um bocadinho. O obstetra não se cansa de sublinhar que gravidez não é doença e que é importante manter a vida normal. Também estão a aprender a lidar com isso.
Ao aproximarem-se do recinto encontram aquilo que seria de esperar num festival: milhares de pessoas, grades, seguranças, pulseiras, mochilas e aquela sensação coletiva de que ninguém sabe exatamente para onde deve ir, mas todos avançam com convicção. É então hora de porem em prática uma das primeiras benesses da gravidez. Há uma fila. Ele olha para a barriga. Depois para aquela gente toda. E novamente para a barriga. Funciona. Avançam por entre dezenas de pessoas com aquela mistura delicada de culpa e satisfação própria de quem beneficia de um privilégio recém-descoberto. Passam facilmente o primeiro ponto de controlo. A gravidez parece finalmente trazer benefícios administrativos. Até que chegam à revista: “Deviam ter enviado um email para a organização.” Olham um para o outro. Nenhum deles sabia que a gravidez, para efeitos de festival, carecia de parecer prévio da organização! Mas tudo bem. Resolvem. Ele fica na fila, ela pode passar à frente e fica do outro lado à espera dele. Na prática, passaram ambos a esperar, apenas em locais diferentes. É a prioridade possível. À vontade, não é à vontadinha.
Entram finalmente no recinto. A música está ao rubro. Literalmente. As colunas parecem capazes de reorganizar órgãos internos e os graves sentem-se algures entre o estômago e os joelhos. Durante alguns minutos divertem-se. Depois voltam a olhar um para o outro: “Achas que isto faz mal ao bebé?” É uma pergunta que, poucos meses antes, nenhum deles imaginaria fazer durante um concerto. Nessa altura, o pior que podia acontecer era ficarem roucos e de ressaca no dia seguinte. Ele tira o telemóvel e faz uma pesquisa intensiva. Ou seja, pergunta ao ChatGPT para confirmar aquilo que o médico já lhes tinha dito. A resposta é tranquilizadora. Ele mostra-lha e ficam ambos mais descansados. Dura cerca de trinta segundos. Depois concluem que talvez seja melhor afastarem-se na mesma. A parentalidade, começam a perceber, consiste muitas vezes em procurar informação para depois fazer aquilo que o medo já tinha decidido antes.
Encontram uma zona reservada a pessoas com mobilidade reduzida, incluindo grávidas. Há uma placa: “Espaço de inclusão.” Soa bem. Entram. Há dez cadeiras. A mulher senta-se e ele fica ao lado. Durante algum tempo ainda consegue permanecer ali, até começarem a chegar mais pessoas. Uma cadeira de rodas. Depois outra e mais outra. Mais duas grávidas. Um senhor idoso. Uma mulher de canadianas, que pode ser uma canadiana com dupla nacionalidade. Alguém olha para si. Ele percebe e levanta-se. É desalojado com toda a legitimidade. Parece-lhe justo: afinal, não está grávido, ainda que comece a sentir que participa bastante no processo.
Fica de pé, encostado à grade, e observa. Ao lado de um homem a quem falta uma perna está outro com uma perna partida. É um espaço onde a inclusão adquire um significado bastante amplo. Há também uma casa de banho adaptada. Pouco depois chega uma rapariga dos seus vinte e poucos anos, empurrando outra mulher numa sofisticada cadeira de rodas, cheia de apoios, correias e mecanismos XPTO. Parecem irmãs, ambas arranjadas para o festival, todas maquilhadas, cabelos feitos e roupas escolhidas a rigor. Há qualquer coisa de bonito nisso. Chegam à casa de banho, e começa então toda uma operação logística. A rapariga mais nova trava a cadeira, afasta os apoios e inclina-se. Passa um braço pelas costas da irmã e outro por baixo das pernas e levanta-a ao colo. Não há dramatismo, ninguém a aplaudir o esforço. Só uma rapariga pequena a pegar numa mulher adulta ao colo e a levá-la para dentro de uma casa de banho. A música, porém, parece ficar mais emotiva.
Ele observa a fila para a casa de banho, que começa a crescer. O tempo vai passando: cinco minutos, dez, vinte, e as pessoas esperam. Algumas olham para o relógio, outras para o palco. A música continua. Meia hora depois, a porta abre-se. A rapariga sai primeiro para ir buscar a cadeira. Volta a entrar. Pouco depois reaparece com a irmã novamente sentada. Sorri: “Desculpem a demora.” É um sorriso largo, quase alegre. Ninguém parece incomodado. Alguém responde que não faz mal. Elas afastam-se e ele continua a observá-las pelo canto do olho.
Logo vê aquele sorriso desaparecer. Os ombros descem, o rosto relaxa. Durante alguns metros, a rapariga apenas parece cansada. Muito cansada, aliás. Até que alguém se aproxima: “Precisam de ajuda?” E o sorriso regressa imediatamente: “Não, obrigada. Está tudo bem.” Está tudo bem. Ele reconhece a frase. Também a ouve muitas vezes em casa. Não há comparação, mas, para ele, a comparação está lá. A música continua. Do lado de lá das grades, milhares de pessoas saltam, bebem, gritam e dançam. Ali dentro, naquela pequena ilha de inclusão, há pessoas sentadas, pessoas de pé, pessoas em cadeiras de rodas e outras que ajudam alguém a permanecer em todas essas posições. O festival acontece à volta delas, talvez também para elas, mas não exatamente da mesma forma.
Ele olha para a companheira. Continua sentada e parece cansada, alheia ao que se passa à sua volta. A música muda e começa a tocar uma canção conhecida. Em redor, toda a gente começa a dançar. Ele vê um homem aproximar-se da mulher que acompanha, pegar-lhe nas mãos e fazê-la mexer os braços ao ritmo da música. Bem, parece funcionar. Decide, por isso, imitá-lo. Agarra nas mãos da sua grávida e começa a fazê-las balançar. Ela olha para ele: “Que estás a fazer?”; “Estou a dançar contigo.”; “Assim?”; “Sim.”; “Parece que estás a fazer-me fisioterapia!”
Ele larga-lhe as mãos. Talvez tenha exagerado no papel. Ficam os dois a rir, mas ele volta a olhar em redor, para o homem que dança com a mulher sentada. Depois, para a rapariga que empurra a irmã. Para quem segura uma bengala, uma mochila, uma garrafa de água, um braço. Para quem pergunta constantemente: “Estás bem?”; “Queres ir à casa de banho?”; “Precisas de alguma coisa?”; “Queres ficar ou vamos embora?” Começa a reconhecer um padrão.
Cuidar parece ser isto. Estar atento, antecipar, esperar, carregar, perguntar, resolver. Abdicar sem anunciar que se abdicou. E, sobretudo, sorrir quando alguém pergunta se precisamos de ajuda. Ele pensa naquela rapariga jovem que deveria estar a dançar sem preocupações. Pensa naquele breve instante em que ninguém estava a olhar e ela deixou simplesmente de parecer bem. Quem cuida dela? Talvez alguém, ou talvez ninguém.
O Estado, pelo menos, começou também a fazer a pergunta. Há já alguns anos que descobriu os cuidadores informais e, mais recentemente, descobriu até que eles precisam de descansar. Criou-lhes um Estatuto e, este ano, uma Bolsa de Cuidadores, destinada precisamente a permitir que alguém tome conta de quem é cuidado enquanto quem cuida faz uma extravagância qualquer, como descansar umas horas. É um avanço. Para já, experimental e territorialmente limitado, porque até o descanso do cuidador tem um plafond. Entretanto, o INE diz que 7,1% das pessoas entre os 18 e os 74 anos cuidam regularmente de familiares dependentes e que, entre estas, mais de um quarto dedica à tarefa pelo menos 30 horas por semana. O país já aprendeu a reconhecer os cuidadores. Está, porém, ainda a aprender a substituí-los por umas horas de descanso.
Talvez seja essa uma das coisas que ninguém explica sobre os cuidadores: toda a atenção está, por definição, orientada para outra pessoa. A música volta a subir. A mulher põe-lhe a mão no braço: “Estás bem?” Ele olha para ela e sorri: “Sim.” E acha graça. Ainda o bebé nem nasceu e já aprendeu a resposta. Dentro de poucos meses será pai. Na prática, já é um cuidador. Evidentemente, nada que se compare com o que vê à sua volta, mas começa a reconhecer-se em alguns gestos. Provavelmente fará muitas coisas mal. Vai segurar o bebé de maneira desajeitada, vestir bodies ao contrário, aquecer demasiado o leite, esquecer toalhitas, entrar em pânico com febres perfeitamente normais e pesquisar sintomas às três da manhã. Em todo o caso, eles cuidarão do bebé. E, algures pelo caminho, talvez seja ele a cuidar deles. A música continua a tocar. Um dia irá descobrir.