Há uma figura hoje comum, que se apresenta a si mesma como o homem sem ilusões: ateu, materialista, racionalista, por vezes (muitas vezes) também comunista. Fala em nome da ciência, despreza a metafísica como resíduo de tempos supersticiosos e julga ter-se libertado de toda a crença que não se deixe pesar ou medir. É uma pose sedutora, sobretudo porque se apresenta como ausência de pose. Mas basta observar com um pouco de atenção o que esta figura tem de fazer para poder falar, e não apenas para poder ter razão, para se perceber que ela pratica exactamente aquilo que diz ter abolido. É uma posição que nega o que a produz.
Comecemos pelo essencial. Dizer «só existe matéria» não é uma observação, mas antes uma tese sobre a totalidade do que há. Nenhuma experiência a confirma, porque a afirmação não é sobre um facto do mundo, mas antes sobre a categoria de todos os factos possíveis. É uma tentativa de dar a uma tese sobre factos a certeza de uma verdade formal. Ora, meus caros, isto é nada mais, nada menos, do que metafísica na sua forma mais pura, do género que nenhum instrumento de laboratório poderá jamais verificar ou desmentir. O materialista confunde aqui duas coisas que são bem diferentes: o naturalismo metodológico, que é um princípio de trabalho científico modesto (explica fenómenos por causas físicas mensuráveis), e o materialismo metafísico, que é uma tese filosófica totalizante (não existe nada além do físico). O sucesso instrumental do primeiro não valida em nada o segundo. É um salto categorial, e quem o dá raramente se apercebe que o fez.
Mas o problema aprofunda-se quando se olha para o próprio acto de afirmar. «Eu sou materialista» é uma proposição, e as proposições têm propriedades que a matéria, no sentido físico do termo, não possui. Uma proposição é sobre algo. Pode ser verdadeira ou falsa, pode estar justificada ou ser um mero palpite, mas nenhuma destas propriedades é física da forma como a massa ou a carga eléctrica o são. Um neurónio, por exemplo, não é verdadeiro nem falso, apenas dispara ou não dispara. Ora, para o materialista poder dizer «sou materialista» e esperar que isso seja tomado como um enunciado com valor de verdade, e não como ruído neuronal indistinguível de qualquer outro, tem de pressupor precisamente aquilo que a sua tese devia dissolver: que há crenças dirigidas a conteúdos, sujeitas a normas de verdade e justificação, e não apenas estados físicos causados por outros estados físicos. É uma contradição performativa. O conteúdo da afirmação é desmentido pela forma como ela tem de ser feita para contar como afirmação séria.
Há apenas uma saída coerente para este impasse, e é uma saída cara. Um eliminativista radical, como um Alex Rosenberg, aceita que «crença», «verdade» e «significado» são ficções da psicologia popular, e que, em rigor, não há pensamentos verdadeiros a serem ditos, mas apenas padrões neuronais correlacionados com outros padrões neuronais. Esta é uma posição consistente. Mas a sua consistência tem um preço a pagar. E o preço é que a própria tese eliminativista deixa de poder ser afirmada como verdadeira, porque a verdade é precisamente aquilo que foi eliminado. Rosenberg chega a admiti-lo por escrito: o seu livro não pode, em rigor, ser «sobre» coisa alguma. É coerente ao ponto de deixar de ser argumento. É apenas ruído a favor de outro ruído.
Quem não quer pagar este preço, e a esmagadora maioria dos ditos materialistas não quer, fica então a viver de um crédito que a sua própria filosofia lhe nega. E o padrão repete-se, quase ponto por ponto, quando este mesmo homem se apresenta também como ateu e como comunista.
O ateísmo, tomado isoladamente, é uma posição contida: nega a existência de um deus ou deuses, e pode fazê-lo com argumentos sobre o ónus da prova ou a ausência de evidência, sem grande custo metafísico adicional. O erro está em achar que negar deus obriga a aceitar o materialismo, como se fossem a mesma jogada. Não são. Havia, e há, ateus idealistas, ateus platónicos quanto aos números e às formas lógicas e ateus dualistas de tipo naturalista. O salto de «não há boas razões para deus» para «logo só existe matéria» é um salto metafísico muito maior do que o primeiro, cometido geralmente sem se perceber que foi dado.
E depois há o comunismo, que é talvez o caso mais flagrante de todos, precisamente porque se apresenta como a forma politicamente organizada do próprio materialismo. Marx e Engels chamaram-lhe materialismo histórico e materialismo dialéctico: aqui a política tornou-se a ciência da matéria em movimento. E, no entanto, nenhum dos seus conceitos centrais sobrevive a um escrutínio materialista rigoroso. «Exploração» pressupõe uma distribuição justa do valor produzido, e «justo» não é propriedade que se meça com um instrumento. «Alienação» pressupõe uma natureza humana da qual o capitalismo desvia o trabalhador, e «próprio» versus «desviado» já é uma teleologia, metafísica aristotélica com outro nome, precisamente o género de coisa que um materialismo estrito devia recusar. A própria ideia de que a história atravessa estádios necessários até ao comunismo, como se a matéria tivesse direcção moral, introduz um telos que nenhuma partícula possui. E o imperativo revolucionário, «os trabalhadores devem unir-se», tropeça de frente na velha guilhotina de David Hume: do ser não se tira o dever, e nenhuma descrição causal do mundo gera, por si só, uma obrigação de o transformar.
O que há de comum às três posições, materialismo, ateísmo militante e comunismo, quando professadas em bloco por quem se julga isento de metafísica, é o mesmo gesto: usar categorias irredutivelmente não físicas, tais como a verdade, a justiça, o dever, ou o significado, para negar que existam categorias não físicas. Isto é algo mais interessante e mais comum do que uma simples hipocrisia: é não ter dado conta de que, para poder falar, teve de pedir emprestado exactamente aquilo que a sua doutrina lhe recusa possuir.
O que há de irónico é que estes materialistas se apresentam como os racionais, os que dispensam metafísica e se ficam pelos factos verificáveis, contra a religião, acusada de viver de crenças indemonstráveis. Mas o materialismo que professam não é ciência, é a mesma espécie de tese indemonstrável nos seus próprios termos que eles imputam à religião. A diferença, e não é pequena, é que a religião pelo menos sabe que está a fazer metafísica.