“Isso foi ótimo. Funcionou. Boom.” Entre uma garrafa de champanhe, copos de Guinness e meia dúzia de ostras, Nigel Farage referia-se assim ao “investimento relativamente modesto” de “Ian Lockwood”: 32,5 mil libras (perto de 38 mil euros) para financiar três sondagens encomendadas pelo Reform que davam conta do seu crescimento eleitoral face ao Labour durante a primeira metade de 2026. Nesse mesmo período, o Reino Unido foi a eleições autárquicas, o partido da direita radical conquistou uma vitória nas urnas e precipitou a demissão do líder trabalhista e primeiro-ministro, Keir Starmer. “Bang for buck“, sintetizava o líder do Reform, utilizando a expressão idiomática inglesa que expressa um ótimo investimento.
À luz da lei eleitoral britânica, este investimento terá sido, contudo, ilegal. Isto porque “Ian Lockwood” era um suposto empresário norte-americano, e no Reino Unido não são permitidas doações estrangeiras a partidos e campanhas políticas. A alegada fraude foi revelada esta quinta-feira à noite, numa reportagem realizada pela Verbatim Investigations. Durante quase um ano, Louis Wilson, jornalista deste meio independente, negociou com o Reform fazendo-se passar por “William Lockwood”, o filho anglo-americano de um abastado empresário dos Estados Unidos, e captando com uma câmara escondida as conversas que teve com os membros do Reform. A investigação foi partilhada com o Channel 4, que confirmou as alegações e, esta quinta-feira, transmitiu a longa reportagem.
https://www.youtube.com/watch?v=RugPik-G1Jw
Os dois interlocutores de “William” foram James Orr e Dan Jukes, altos funcionários do Reform. Esta sexta-feira, o partido anunciou a suspensão dos dois, enquanto procede a uma investigação interna. Contudo, em comunicado, negou qualquer ilegalidade de financiamento e insistiu ter sido “alvo de embuste levado a cabo por ativistas das alterações climáticas com financiamento estrangeiro”. Em causa está o enquadramento em que o Verbatim surgiu. O “projeto de investigação sem fins lucrativos” foi fundado por Louis Wilson e Lawrence Carter, dois jornalistas que antes trabalharam no Centre for Climate Reporting, outro meio independente que se dedica a investigar a ação de atores políticos e económicos no combate às alterações climáticas. O centro diz ser “100% financiado por bolsas e doações”.
A investigação relativa à doação de capital estrangeiro junta-se à sucessão de escândalos sobre financiamentos ilícitos do Reform, que têm inundado o partido durante o verão e que levaram Farage a apresentar a demissão do seu lugar no Parlamento — e a conquistá-lo de novo numa eleição especial em que o seu único adversário era o comediante conhecido como Conde “Binface”. Mas a mais recente investigação acabou por dominar o primeiro dia do Congresso do Reform, apesar dos esforços de Farage e dos restantes membros do partido no sentido contrário.
Qual o papel de James Orr, o professor de Cambridge que propôs um financiamento “à moda de John Le Carré”?
“William Lockwood” cruzou-se com James Orr em setembro de 2025, durante a Conferência do Conservadorismo Nacional, em Washington D.C. “Ele aproximou-se de mim num bar”, recordou Orr num vídeo publicado nas suas redes sociais esta sexta-feira, ainda antes de a suspensão ser anunciada. Professor associado de filosofia da religião na Universidade de Cambridge e amigo do vice-presidente norte-americano JD Vance, Orr trabalhava como responsável de políticas do Reform. “Lockwood” explicou a Orr que estava à procura de investir o dinheiro do pai para causas da direita no Reino Unido e os dois encetaram conversa.
https://twitter.com/jtworr/status/2095598578164986145
Meses mais tarde, à mesa do clube privado Mark’s, em Londres, Orr faz a primeira proposta, captada pelas câmaras escondidas: financiar uma sondagem que foi encomendada pelo partido, de forma não oficial, à JL Partners. O esquema, assegura, é “completamente legítimo”. “Não é uma contribuição indireta de campanha”, justifica. Num encontro posterior, em março, no clube Claridge’s, faz uma proposta. Esta já não é tão inocente, admite Orr, que propõe que o dinheiro seja deixado “num envelope castanho com uma marca de giz branco na caixa do correio” como num livro de John Le Carré. Apesar de ilícito, o esquema é seguro porque a Comissão Eleitoral é “completamente inútil, estúpida e ineficaz”, declara.
Onde foram gastas as 32,5 mil libras pedidas pelo Reform a “Lockwood”?
A primeira proposta de Orr, feita no Mark’s, levou a um pagamento de 18 mil libras à JL Partners, empresa de sondagens utilizada por múltiplos reputados títulos da imprensa britânica. Dias mais tarde, saía na capa do Telegraph uma sondagem que dava conta que uma ida a eleições daria uma vitória esmagadora do Reform sobre o Labour — o estudo foi amplamente partilhado pelos líderes do partido, sem qualquer referência, no jornal ou nas partilhas, que o estudo havia sido encomendado pelo próprio Reform.
O esquema repetiu-se mais duas vezes. Uma sondagem publicada no The Telegraph em abril em que se lia que “dois terços dos eleitores querem Starmer fora” foi posteriormente paga pela empresa estabelecida por “Lockwood” nos EUA à JL Partners no valor de 4,5 mil libras. Já uma sondagem que apareceu na capa do The Times no final de maio e que dava conta de que “o número de trabalhadores sindicalizados que apoiam o Reform é o mesmo que o Labour” custou a “Lockwood” 10 mil libras. O outro pedido de financiamento, feito por Orr a “William” no Claridge’s em março, nunca avançou.

No início de março, Louis Wilson reúne-se com James Johnson, o especialista de pesquisas responsável pela sondagem que fez capa no The Telegraph. A “Lockwood”, Johnson garantiu que os jornais não tinham qualquer conhecimento de quem tinha realmente encomendado e pago pelas sondagens — questionados posteriormente, o Telegraph e o Times confirmaram esta informação. Johnson indicou ainda ao jornalista disfarçado quem era o seu contacto dentro do Reform: Dan Jukes.
Qual o papel de Dan Jukes, o “cão de ataque mais fiel” a Farage?
“William Lockwood” e Dan Jukes encontram-se pela primeira vez em abril de 2026, no hotel Browns, em Londres. Jukes era um dos mais antigos assessores e conselheiros de Farage, caracterizado pelo Politico como “o seu cão de ataque mais fiel”. Juntara-se à equipa do político da direita radical ainda durante os tempos do partido UKIP e fizera com ele a transição para o Reform. Nesse primeiro encontro, Jukes incentiva “Lockwood” a contribuir para o partido e para os seus “pequenos projetos clandestinos [que] são tão valiosos”. Só mais tarde é que Jukes coloca em cima da mesa um pedido mais arrojado.
Reconhecendo que “Ian Lockwood” não pode fazer uma doação direta para o Reform, propõe que esta seja feita através do próprio “William” e procede a enumerar outros financiadores estrangeiros do partido que fazem transferências através dos filhos, que, por morarem no Reino Unido, o podem fazer. “Sabes, se o Nigel chegar ao número 10, estás a beber um copo com aquele que vai ser o seu chefe de gabinete”, declara, de cigarro na mão à porta do clube Westminster Arms, caracterizando uma doação direta de meio milhão de libras como um investimento — essa quarta doação nunca chegou a ser feita.
Porque é que o formato de financiamento discutido nos vídeos é ilegal?
A Comissão Eleitoral britânica define uma série de regras para doações a partidos políticos, como explica o Channel 4. Qualquer financiamento de despesas que ajudem os partidos a desenvolver os seus objetivos, incluindo o financiamento de estudos e inquéritos é considerado doação. O financiamento por pessoas ou empresas estrangeiras não é permitido — mesmo que de forma indireta — e a origem do dinheiro tem de ser sempre transparente. Todas as doações legais num valor acima de 11.180 libras têm de ser declaradas perante a Comissão num período de um ano. Todas as doações ilegais têm de ser declaradas e devolvidas ao doador no espaço de 30 dias.
O canal analisou os registos oficiais do Reform junto da Comissão e não encontrou nenhum dos pagamentos feitos pela empresa norte-americana estabelecida pela Verbatim Investigations. “É contra a lei e a fuga às regras, a tentativa de fugir às regras, tomar medidas para fugir às regras são ofensas criminais sérias”, concluiu o advogado e antigo diretor executivo da Comissão Eleitoral Bob Posner, ao Channel 4, depois de analisar o caso. Esta sexta-feira, na sequência da publicação da reportagem, o Labour e os Democratas Liberais apresentaram queixa à polícia, que ainda não confirmou a abertura de uma investigação policial ao caso. O British Polling Council e a Market Research Society já anunciaram, porém, a abertura de um inquérito à JL Partners.

Como é que Nigel Farage está implicado no caso?
No encontro no Mark’s, em janeiro deste ano, Orr afirma de forma clara: “O Nigel não sabe e não vai saber. É o tipo de coisa que ele prefere não saber”. Contudo, meses mais tarde, quando “Lockwood” combinou com Jukes um encontro entre o “pai”, “Ian”, e Nigel Farage, a extensão do líder do partido sobre os financiamentos recolhidos pelos dois responsáveis parecia ter-se alterado. “Ele está ciente do apoio, mas não sabe os detalhes dos números, mas sabe que vocês são doadores significativos”, relatou Orr.
No final de julho, Jukes, “William Lockwood”, Farage e “Ian Lockwood” — um ator da Broadway contratado para desempenhar o papel de empresário — sentam-se finalmente à mesa no restaurante Harbour Lights, em Walton-on-the-Naze. A refeição, gravada pelo jornalista, mostra um Farage bem-humorado, apreciador dos EUA e grato pelo apoio financeiro do par norte-americano, mas nunca surpreendido pelos detalhes que “Ian” vai deixando na conversa: as sondagens que financiou, os valores das doações, o facto de o dinheiro ser norte-americano. “É tudo às claras“, afirma o líder populista a certa altura. É também neste almoço que Farage assegura o esquema “funcionou”.
Como é que a investigação de um “miúdo betinho estúpido” foi recebida no Congresso do Reform?
A reportagem da Verbatim, transmitida na quinta-feira à noite pelo Channel 4, aterrou em direto num jantar do Reform com empresários, na véspera do início do congresso do partido. “A impressão com que ficámos no jantar é que o Nigel os ia apoiar de forma incondicional“, relatou um membro sénior do Reform ao Politico. Contrariamente ao esperado, esta sexta-feira começou com a notícia da suspensão de Orr e Jukes. Ainda assim, o partido insistiu na inocência de todos os seus membros e mostrou-se irredutível face ao escrutínio.
https://twitter.com/reformparty_uk/status/2095917755492954278
Esta sexta-feira, questionados pela imprensa, múltiplos membros do Reform, incluindo Farage, fizeram a mesma avaliação da situação: ainda que tenham admitido que o timing da investigação não é ideal, garantiram não estar preocupados e insistiram que a avaliação de especialistas legais consultados pelo partido é que não houve qualquer ilegalidade — afinal, o dinheiro entregue pela empresa norte-americana à JL Partners nunca passou pelo Reform. Mais: acusaram os jornalistas de terem levado a cabo um “hit job” para “difamar” o partido, numa altura em que este vive o seu melhor momento.
“O partido não recebeu nenhum dinheiro duvidoso”, declarou Farage à LBC. “Isto é um caso claro de uma armadilha que eles prepararam durante muito, muito tempo, e conseguiram que alguns dos nossos funcionários dissessem coisas que talvez não devessem ter sido ditas. Como sabem, não estou contente com isso”, admitiu, ainda assim.
Em Birmingham, o Congresso decorreu sem a presença dos dois funcionários suspensos, mas com as prioridades políticas ou a ordem de trabalhos inalteradas — ainda que se tenham registado atrasos, devido a preocupações com a segurança —, com críticas à “continuidade” do Governo do Labour, mesmo que este siga agora pela mão de Andy Burnham, e um sublinhar das promessas a implementar por um governo do Reform. Como resumiu um alto membro do Reform ao Politico: “Claro que não vamos deixar que o nosso Congresso seja descarrilado por um miúdo betinho estúpido e por uma investigação do Channel 4”. Contudo, a preocupação também permeia o partido. “Só temos dois dias” para definir a agenda mediática, alertava um estratega do partido à BBC ainda antes de a investigação ser publicada — e o primeiro desses dias acabou por ser definido por um escândalo.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]