Talvez é um dos meus vocábulos favoritos. Admiro-o pela elegância e austeridade. É uma palavra enganadora. Dona de uma certa aspereza de língua, denuncia no íntimo a sua verdadeira natureza.
Talvez é uma doutrina, um termo que tudo diz, quase sempre sem nada dizer – talvez eu faça isto, talvez faça, talvez não, talvez, quem sabe! Talvez embrulha na fala aquilo que a química dos sentimentos nos murmura.
Talvez é firmeza dita com ternura. Talvez não fecha uma porta, mas também não a abre, não encerra um assunto, mas também não lhe permite abandono.
Talvez não é indiferença, desinteresse, alheamento ou apatia. E ainda que o seja, é-o sem talvez o saber.
Talvez é matriz da ciência pura, a certeza a que ainda se não disse não. Talvez é a evidência que hoje basta, amanhã, talvez não.
Talvez é ciência. Talvez é o que hoje parece dar certo, o que hoje guia, o que ilumina, mas só hoje. Amanhã, talvez, quem sabe! Talvez amanhã haja uma nova verdade, uma outra que nos diga talvez não.
Talvez pode ser tudo e nada, nunca deixando de ser talvez. Talvez pode ser sim, pode ser não, pode ser sim e não, ou ser simplesmente talvez. Talvez é quântico, tão quântico quanto o paradoxo do gato.
Talvez também é paradoxo, como o “talvez nunca” de Aquiles e a tartaruga.
Desconfio das palavras que terminam com um ponto final e das verdades que não admitem talvez.
Abomino a hipocrisia dos políticos, os que usam talvez, não por delicadeza, mas por cobardia. Talvez nunca foi cobarde. Talvez é só coragem dita com doçura.
Detesto o absoluto, as certezas. O absoluto promete chegada. O talvez lembra que chegar pode apenas ser uma nova partida.
O absoluto é régio, majestático, obriga a seguidores, exige vassalagem. O absoluto foi derrotado nas praias do Mindelo e desde então nunca mais assomou à Invicta. O absoluto sugere certeza, previsão, sugere segurança. Mas só no caos, na entropia máxima, assim acontece. Só o caos é estabilidade. Só no caos o ontem é igual ao hoje, ao amanhã, ao depois de amanhã e a um futuro a éons de distância. No caos não há tempo. O caos é absoluto.
O absoluto é mundo despido de talvez. E mundo sem talvez é lugar sem esperança, sem tempo para outra coisa ser. Onde tudo é absoluto, nada muda, não há futuro, não há talvez.
O talvez exige tempo. Hoje há um talvez, ontem outro houve, e amanhã a haver talvez, será um outro talvez, ou talvez não!
O talvez domina na língua e na essência. No mundo não há outra palavra que dita com austeridade se pronuncie num sussurro.
Noutras geografias há vocábulos semelhantes. Palavras que tentam ser conjunto vazio, mas que logo denunciam o desejo de algo vir a ser. Os vizinhos têm no “quizás” um vocábulo semelhante ao nosso, e ainda um “por supuesto” que, não tendo significado igual, seria a minha palavra favorita fosse eu dessas bandas. Cito-a “por supuesto” e cortesia, mas também pela elegância e musicalidade, essas sim, de nível superior.
Os italianos usam o “forse”, algo que desilude na ausência da musicalidade a que esse linguajar nos habituou. “Forse” é insípido e encerra em si um decaimento fácil para um “forse sì” ou um “forse no”.
O francês “peut-être” soa-nos a água-de-colónia. “Peut-être” nunca teve a essência pura com que o nosso talvez se perfuma.
Noutras paragens, arremessos de língua como “ربما”; “może”; “может быть”, são tão indizíveis que logo denunciam a irrelevância de qualquer tentativa de peroração.
Os ingleses têm no adocicado “maybe”, algo tão desconsolado, sem vontade nem propósito que, quando o escuto, quase sempre respondo com o rude, mas genuíno, não quererão talvez …
A língua portuguesa tem também uma infinidade de palavras que talvez o tentem imitar. Imitam sem que nenhuma delas consiga devolver-lhe, como num espelho, o significado na mesma proporção e equilíbrio.
Temos o “quiçá”, um talvez travestido para uma cerimónia a que não foi convidado, um penetra essencialmente. O “acaso” é expressão tolhida pela incerteza, o “porventura” surge como uma palavra que parece regressar de um outro século, e toda uma série de advérbios como: possivelmente; provavelmente; eventualmente, e tantos outros, todos eles de irritante sufixo.
Temos ainda palavras compostas – quem sabe; se calhar; é possível que, e tantas outras que, sem a elegância do talvez, apenas complicam o que talvez já muito antes simplificara.
A vida sempre me foi dominada pela dúvida. Quase sempre me vi indeciso, procrastinador, incapaz de fechar no hoje aquilo que amanhã ainda pudesse ser.
Hoje, os anos dão-me outra visão do percurso. Sem a dúvida, a incerteza e o talvez, percebo que nunca teria “calçado os sapatos do outro”.
A natureza de alguém nunca cabe num rótulo absoluto. Somos o que somos, mas também o que fomos, o que ainda podemos ser e, talvez, aquilo que nunca chegaremos a ser.
Haverá homens bons? Talvez. Homens maus? Talvez também. Nem os bons serão sempre bons – exceção para os canonizados, a quem já não é concedido contradizer o processo – nem os maus percorrerão sempre os caminhos do mal.
Talvez não se deva explicar o talvez em demasia. Talvez, se o fizermos, talvez deixe de ser talvez.