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A Morada da Alma

Talvez a verdadeira tragédia da nossa geração não venha a ser uma guerra, uma pandemia ou uma crise económica, mas a lenta atrofia do espírito.

Guilherme Teles
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Certo dia vi uma alma a sair de um corpo.

Não da forma como os filmes nos habituaram. Não houve vultos brancos nem uma música de suspense a surgir de fundo. Apenas um silêncio estranho. Os olhos perderam qualquer destino, as mãos deixaram de responder ao mundo e alguém começou, muito devagar, a deixar de ser quem era.

Dias depois vi um morto.

Daqueles cuja morte ninguém discute. Sem pulso. Sem movimentos respiratórios. Fiquei parado durante alguns segundos, quase infantilmente à espera que abrisse os olhos e me encarasse a alma. Não aconteceu. O corpo arrefeceu. Ficou rígido. Mais tarde deixou de o estar. A morte cumpriu, metódica, tudo aquilo que os livros prometem.

Sob a luz branca e estéril, o processo que se segue é implacável. O cheiro entranha-se nas paredes e, rapidamente, corre-se o risco de aquele corpo deixar de ser uma história para não passar de “mais um” condenado à frieza das macas de aço. Ali, a dignidade de quem outrora respirou corre sempre o risco de se perder na rotina, no cansaço e na inevitável mecanização de quem trabalha diariamente na intimidade da morte. É uma mecanicidade crua. Rasga-se a pele e inspecionam-se as vísceras à procura de um motivo para o fim. Contudo, mesmo depois de muito procurar, mesmo depois de se desdobrar  o coração e lhe dissecar as câmaras, continua a ser impossível encontrar a morada da alma.

Foi ao sair dali que comecei realmente a olhar para as pessoas. Até então nunca tinha reparado na quantidade de gente que atravessa um dia inteiro sem verdadeiramente o viver. Como se existisse uma forma de morrer que não exigisse cerimónias fúnebres. E, assim, descobri que talvez existam muito mais mortos do que aqueles que passam pelas salas de autópsia.

Não estavam numa morgue. Cruzavam-se comigo no passeio enquanto iam trabalhar. Sentavam-se nos cafés. Esperavam o autocarro. Respiravam. Mas pouco me pareciam diferentes. Um sem reação. O outro inundado de apatia. Um incapaz de abrir os olhos ao mundo. O outro incapaz de sustentar o meu olhar.

Um deixou o seu mundo; o outro, tão concentrado no próprio, parece já ter abandonado aquele feito de carne.

Descobri então outra morte. Uma sem certidão. Sem funeral. Sem luto. A morte da curiosidade. Da capacidade de se espantar. Da vontade de aprender. Da atenção ao outro. Da contemplação. Da cultura. Da pergunta. É quando o corpo continua a funcionar, mas a pessoa deixa de habitar verdadeiramente a própria vida.

Talvez seja por isso que as feridas mais profundas quase nunca sangram. Instalam-se em silêncio, roubando primeiro a curiosidade, depois a esperança e, por fim, a capacidade de imaginar que amanhã possa ser diferente.

Quando alguém deseja terminar a própria vida, raramente procura a morte pela morte. Procura apenas que termine uma dor que já lhe roubou a possibilidade de acreditar que viver ainda é possível. E é precisamente aí que a saúde mental deixa de ser apenas uma questão clínica para se tornar uma questão profundamente humana. Porque há batalhas que não se travam para prolongar a vida, mas para impedir que a alma desista do corpo antes do tempo.

O silêncio não fecha feridas. Apenas lhes aprende o caminho de casa.

Talvez estejamos a assistir a uma forma coletiva dessa morte silenciosa. Temos o mundo inteiro a vibrar no bolso das calças, mas perdemos a paciência para sustentar uma conversa que dure mais que um parágrafo. A informação transborda por todos os lados enquanto a nossa capacidade de reflexão seca. Trocámos a inquietação da dúvida pelo conforto de um ecrã que nos diz o que pensar em quinze segundos.

O facilitismo oferece conforto, mas cobra-o em consciência.

Costuma dizer-se que a morte é o contrário da vida. Não me parece.

Porque morrer é inevitável. Podemos acabar por deixar de viver muito antes da morte sem sequer dar por isso. Talvez a verdadeira tragédia da nossa geração não venha a ser uma guerra, uma pandemia ou uma crise económica. Talvez venha a ser termos aprendido a conviver com uma lenta atrofia do espírito. A substituição da curiosidade pelo consumo, da contemplação pela velocidade e do pensamento pela distração. Nesse dia continuaremos a respirar. Continuaremos a trabalhar. Continuaremos a caminhar pelas ruas.

Mas será apenas o corpo a chegar ao destino.

E talvez o mais assustador seja nunca mais ter a certeza de quando uma alma decide partir.