A Área Metropolitana de Lisboa concentra um terço da população portuguesa e cerca de 30% dos alunos dos Cursos Profissionais do país. Todos os anos, 3 000 a 4 000 jovens da região concluem o 3.º ano dos cursos profissionais, o equivalente ao 12.º ano, e procuram prosseguir estudos. Mas quando chegam ao ensino superior público da capital, descobrem que o sistema não foi desenhado para eles.
A ULisboa, com mais de 7 000 vagas totais no concurso nacional, oferece apenas 16 vagas para titulares de diplomas profissionalizantes.
A Universidade NOVA de Lisboa, com cerca de 3 500 vagas totais, disponibiliza 5 vagas.
O Politécnico de Lisboa, com aproximadamente 2 000 vagas totais, apresenta uma oferta fragmentada, pouco expressiva e insuficiente, somando zero vagas TESP e apenas algumas vagas residuais para diplomados profissionais.
No conjunto, a região mais populosa do país, com mais de 3 milhões de habitantes, oferece 21 vagas profissionalizantes em todo o ensino superior público universitário e politécnico. Vinte e uma vagas para milhares de jovens qualificados. Vinte e uma vagas para uma economia que precisa desesperadamente de técnicos especializados, competências digitais e engenharia aplicada.
Este número não é apenas insuficiente: é simbólico, uma espécie de “fazer de conta”. Representa a persistência de um modelo que continua a privilegiar o aluno idealizado do ensino científico‑humanístico, com exames nacionais, percurso linear e capital cultural familiar, e a excluir silenciosamente quem chega por vias profissionais. Não é um acidente. É uma escolha estrutural.
A NOVA é o exemplo mais evidente desta resistência. A FCT‑NOVA, responsável pela formação de engenheiros em áreas críticas da economia, oferece zero vagas profissionalizantes na esmagadora maioria das suas licenciaturas. Engenharia Aeroespacial, Engenharia Civil, Engenharia Química e Biológica, Matemática, Micro e Nanotecnologias, Geologia, Química Aplicada — todas com zero vagas. Mesmo cursos com forte ligação ao tecido empresarial, como Engenharia Informática ou Engenharia Eletrotécnica, oferecem apenas uma vaga cada. A mensagem implícita é clara: “Este tipo de aluno não é para nós.” Não é incoerência. É seleção social.
A ULisboa segue a mesma lógica. As suas 16 vagas distribuídas por dezenas de cursos não representam abertura; representam manutenção de fronteiras. A universidade continua a agir como se o ensino secundário fosse homogéneo, ignorando que em várias regiões do país mais de metade dos alunos seguem vias profissionais. Lisboa, que deveria ser o laboratório nacional de inovação social e educativa, tornou‑se o bastião da resistência à mudança.
O Politécnico de Lisboa, que deveria ser o espaço natural de integração dos percursos profissionalizantes, não cumpre essa função. A oferta é limitada, irregular e insuficiente. E há um dado ainda mais revelador: não existe em Lisboa qualquer curso TESP. Nenhuma universidade pública, nenhum politécnico da capital oferece esta via curta, prática e profissionalizante que o Estado criou para reforçar a empregabilidade e facilitar a transição para o ensino superior. Os TESP tornaram‑se uma oferta concentrada no interior e no litoral norte — Bragança, Viseu, Leiria, Guarda, Castelo Branco, Coimbra — enquanto Lisboa permanece à margem. É como se a capital tivesse decidido que estes percursos pertencem às “paisagens” do país, não ao seu centro académico.
E há ainda uma desigualdade silenciosa, mas devastadora: o regime dos exames nacionais.
Um aluno do ensino regular pode entrar no ensino superior com negativa no exame nacional, desde que a nota interna seja suficiente para fazer média positiva.
Já um aluno do ensino profissional, se optar por realizar exames nacionais, tem obrigatoriamente de obter classificação igual ou superior a 10 valores. Não há compensação pela nota interna, não há média ponderada, não há reconhecimento do percurso formativo. Há apenas uma barreira rígida.
Isto significa que dois alunos que estudaram três anos, ambos com trabalho contínuo, ambos com avaliação interna positiva, são tratados de forma radicalmente diferente no momento decisivo do acesso ao ensino superior.
O sistema diz ao aluno do ensino regular: “Se falhares no exame, nós equilibramos.”
E diz ao aluno do ensino profissional: “Se falhares no exame, estás fora.”
Este mecanismo é lesivo, discriminatório e estruturalmente injusto. Não avalia mérito. Avalia origem escolar.
O resultado é um sistema que penaliza milhares de jovens, empurra famílias para custos acrescidos, força deslocações para o interior e reforça desigualdades territoriais e sociais. Lisboa tornou‑se, paradoxalmente, a região mais elitista do país no acesso ao ensino superior público. Não porque o diga explicitamente, mas porque o demonstra nos números, nas vagas, nos editais, nos exames e nas decisões institucionais.
Este elitismo não é inevitável. É uma escolha. E enquanto não for confrontado como tal, continuará a reproduzir a ideia de que há percursos “de primeira” e percursos “de segunda”, mesmo quando o mercado de trabalho já percebeu que essa distinção é artificial e prejudicial do ponto de vista humano, social e empresarial.
O que seria correto, proporcional e socialmente justo é simples: 20% das vagas de cada universidade pública deveriam ser reservadas para percursos profissionais; nos politécnicos, pelo menos 50%.
E as universidades de Lisboa deveriam finalmente oferecer cursos TESP, deixando de tratar esta via como uma exceção tolerada apenas fora da capital.
Só assim o ensino superior poderá funcionar como elevador social — e não como um submarino social.