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As ideias discutem-se – as pessoas respeitam-se

"Três qualidades são decisivas para o político: paixão, sentido de responsabilidade e sentido de proporção." – Max Weber

Paulo Santos
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Uma democracia não vive apenas de direitos. Vive também de limites. Limites entre a crítica e a ofensa, entre a liberdade e a responsabilidade, entre a política e a justiça. Quando esses limites se esbatem, o debate público perde qualidade e a liberdade torna-se mais frágil.

Entre a pessoa pública e a pessoa privada encontra-se uma dessas fronteiras. Chamamos-lhe honra.

Cada cidadão projeta-se simultaneamente em duas esferas: a pessoa pública – aquela que intervém na comunidade, exprime opiniões, assume responsabilidades, toma decisões ou participa no debate coletivo; e a pessoa privada – na sua intimidade, família, afetos, consciência e história pessoal e profissional. Pertencem à mesma pessoa, mas não são a mesma coisa.

A intervenção na esfera pública é objeto de escrutínio. As palavras e posições podem e devem ser discutidas. O contraditório é uma das condições fundamentais da liberdade e contribui para a capacidade deliberativa, fortalecendo a opinião e, naturalmente, a decisão.

A esfera pessoal, porém, é diferente. A democracia exige precisamente que saibamos distingui-las.

Na interface entre a liberdade de expressão e o respeito pelo outro, a honra é um constructo cultural, ético e legal que impede que a crítica se transforme num ataque à dignidade da pessoa. Protege o indivíduo sem limitar o debate. Permite o confronto sem legitimar a ofensa.

É por isso que a defesa da honra ocupa um lugar singular no discurso público, assentando no princípio de que a dignidade da pessoa não pode ser arbitrariamente atingida.

Quando alguém vê a sua integridade moral posta em causa, a defesa da honra constitui uma resposta legítima. Surge para restaurar a fronteira entre aquilo que uma pessoa defende e aquilo que uma pessoa é.

No entanto, nem toda a discordância é uma ofensa. Nem toda a crítica é um ataque pessoal. Nem todo o desconforto produzido pelo contraditório corresponde a uma lesão da dignidade.

É talvez aqui que reside uma das fragilidades do debate contemporâneo. As convicções são cada vez mais tratadas como extensões da identidade e discute-se frequentemente mais a narrativa dos factos do que os próprios factos. A crítica deixa de ser recebida como confronto de argumentos para passar a ser vista como uma agressão pessoal.

As redes sociais aceleram este fenómeno, amplificando narrativas, simplificando posições e favorecendo reações imediatas que nem sempre distinguem a crítica da ofensa. A defesa da honra deixa então de proteger a dignidade para passar a confundir identidade e opinião, sobrepondo pessoas e argumentos.

Uma democracia deliberativa depende da capacidade de manter esta separação. As ideias devem poder ser confrontadas sem reservas. São manifestações normais da liberdade democrática e não constituem um ataque à honra.

Mas a necessidade de preservar as fronteiras não termina aqui. Existe uma segunda distinção igualmente essencial à vida democrática. O discurso político existe para discutir ideias, decisões e responsabilidades públicas. Não existe para substituir os tribunais nem para produzir julgamentos em praça pública. O princípio da separação de poderes protege-nos precisamente dessa tentação: a de transformar a opinião numa sentença e a convicção numa condenação.

A presunção de inocência é frequentemente entendida como uma garantia jurídica. Mas é também uma exigência ética. Significa reconhecer que o exercício da liberdade exige responsabilidade e que a força de uma democracia se mede também pela contenção daqueles que nela intervêm.

Não compreender estas fronteiras é perder aquilo que Max Weber identificava como uma das qualidades essenciais da ação política: o sentido de proporção. Falta proporção quando cada divergência é entendida como uma agressão, quando a crítica é transformada em ofensa e quando deixamos de distinguir aquilo que alguém defende daquilo que alguém é.

Porque a honra pública nunca foi o direito a não ser criticado. É o direito a que a crítica permaneça no domínio das ideias, sem transitar abusivamente para a dignidade da pessoa que as sustenta.

Quando essa distinção desaparece, deixamos de discutir argumentos para discutir pessoas, de avaliar razões para julgar identidades e de persuadir para exigir adesão. Mais do que a verdade, passa a interessar quem a pronunciou. E o espaço público deixa de procurar compreender ou deliberar. Passa a procurar julgar.

E, nesse momento, a democracia empobrece. Porque a sua força não reside na existência de consensos permanentes, mas na capacidade de submeter as ideias ao teste do confronto livre e racional.

É por isso que a honra tem um lugar tão singular na vida pública. Não para limitar o confronto, mas para o tornar possível. Não para imunizar alguém perante a crítica, mas para recordar que a dignidade da pessoa não se confunde com a sorte das suas ideias.

Porque numa democracia as ideias discutem-se, refutam-se, abandonam-se ou aperfeiçoam-se.

As pessoas, essas, respeitam-se.

Numa sociedade livre, nem a política substitui os tribunais, nem a opinião substitui a justiça.

Confundir estas fronteiras é empobrecer a liberdade. Preservá-las é condição da democracia. Delas dependem a qualidade do debate público, a liberdade de cada um e a vitalidade da vida democrática.