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"Quando eu digo 'Chico', vocês dizem 'da Tina'": como é que o fenómeno do verão faz a festa?

Junta o vira do Minho ao hip hop e ao forró, é uma estrela no TikTok e uma personagem envolta em mistério. No primeiro dia do Festival F, em Faro, fomos perceber porque move (cada vez mais) multidões.

Andreia Costa
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Ainda não são 16h, não há uma corrida desenfreada desde os pórticos da entrada, mas dezenas de pessoas já estão preparadas há muitos minutos — como se de uma prova olímpica dos 100 metros se tratasse — para avançarem até ao gradeamento que separa o público do palco. Avançamos no tempo e são 00h18, o assalto final dá-se assim que os HMB se despedem. Faltam 42 minutos para Chico da Tina se apresentar no primeiro dia do Festival F, em Faro. O evento é descrito como o último grande festival do verão e a em tempos autodenomidada “trapstar” é, sem ser preciso recorrer a equações matemáticas, a grande estrela musical da temporada.

Esteve em todo o lado, das grandes feiras espalhadas pelo país aos arraiais dos santos populares, e junta multidões cada vez maiores. Prova disso é que, à medida que o tempo de espera vai diminuindo, a quantidade de pessoas vai esgotando a lotação da praça junto ao palco Lusíadas Sé, o segundo maior do festival.

Mesmo à frente estão três amigas com chapéus de cowboy rosa bebé. O adereço começou por ser uma das imagens de marca do artista e, quando Alexandra soube que Chico da Tina faria parte desta edição (é a segunda vez que atua no festival, depois de 2022), rapidamente chegou à conclusão que um bilhete seria o presente de aniversário ideal para a amiga, Catarina Cunha. “Conhecemo-lo desde 2019, foi um colega da faculdade que nos mostrou. Na altura era diferente, irreverente, e era uma coisa de nicho”, explica Catarina.

Depois apareceu o TikTok, onde o cantor tem mais de 170 mil seguidores e acumula milhões de visualizações em cada vídeo, e o fenómeno tornou Chico “mais calmo”, descreve Catarina. “Gostava que ele cantasse os primeiros temas, porque era muito diferente, mas ele é sempre muito divertido em palco, acho que é isso que chama as pessoas.”

https://www.youtube.com/watch?v=3PJMCW1dDr4&list=RD3PJMCW1dDr4&start_radio=1

A 30 minutos da 1 da manhã, a equipa técnica enche o palco de boias. Balizas, golfinhos, cisnes e bolas, além de um gigantesco logo Chico da Tina insuflado que preenche o resto do espaço. Asseguram que é sempre assim, uma espécie de festa na piscina onde há sempre coisas a acontecer — incluindo rolos de papel higiénico a voarem para o público.

A oito minutos da hora marcada já mal se circula no Largo da Sé, mas Rodrigo Barão e Pedro Faísca ainda conseguiram lugar a apenas três ou quatro metros da barreira. Ambos com 19 anos, estudam em Faro, enquanto Manuel Vicente veio de Lisboa para passar os últimos dias de férias com os amigos. Dizem que descobriram os temas de Chico da Tina há cerca de dois anos e que é o facto de sonoridades tradicionais, que não ouviriam à partida, soarem tão bem que os cativa — isso e as letras. “‘Há mulheres ruivas, morenas, latinas. Mulheres casadas, viúvas, solteiras. Já vi de tudo, só nunca vi feias. Nunca vi feias.’ Como não gostar?”, diz Pedro.

Se, no início da carreira, Chico da Tina estava mais próximo do hip hop, foi na fusão do género com a música popular, a que entretanto se juntaram muitas outras coisas, que encontrou todo o tipo de seguidores fiéis. “O pimba puxa qualquer pessoa e ele reinventa-o e adapta-o à nova geração”, explica Rodrigo.

A amiga Isabel Jardim, que estuda em Lisboa, prepara-se para ver Chico da Tina pela terceira vez e não apenas porque gosta das canções. “Para mim, a melhor parte é o concerto. Ele sabe interagir e brincar com as pessoas.”

A média de idades do público deve rondar os 20 anos e praticamente todos vão mostrar daqui a nada que os passinhos do vira não ficaram perdidos nas gerações anteriores. Há muitos bigodes em caras com menos de 35 anos, uma regressada tendência que o próprio Chico da Tina perpetua, tal como Joel Lopes, de 29. “Não comecei a usar bigode por causa dele, mas acho piada que esta moda tanto faça sentido no dia a dia, na nossa vida normal, como numa personagem como a dele.”

O Festival F — cuja 11.ª edição decorre de 3 a 5 de setembro — acontece na zona histórica da cidade de Faro, o que traz condicionantes e vantagens. Por um lado, o espaço não estica; por outro, além da beleza arquitetónica, os monumentos servem de apoio. Lena Paiva está aqui com a amiga Laura Magalhães. Estão sentadas na escadaria da Sé a descansar, “mas quando começar nem a menina pode ficar sentada”, avisam. Têm ambas 58 anos e ficaram para trás, salvo seja, para ver o Chico. É que os maridos já regressaram ao apartamento, derrotados pelos 40 graus que se manifestaram durante todo o dia (e os 25 que se registam já depois da meia noite).

00h59: as luzes apagam-se e os assobios de incentivo começam desde o fundo da praça. À hora marcada ouve-se um aviso nas colunas, que vai ditando informações importantes sobre o espetáculo, tais como: “Durante o moche, não hesites em prestar auxílio ao amigo que se encontrar caído ou em situação de extremo aperto”.

Começa a música e, aos primeiros acordes, o público sabe que é Sou Grande no Amor. Vários homens entram em palco lançando de imediato rolos de papel higiénico, que se desenrolam criando longas fitas — serão eles os responsáveis pelo caos propositado que vai acontecer durante todo o alinhamento, misturados com bandeiras, uma sanita, uma botija, um cesto de compras, um escadote e uma data de outros apetrechos completamente aleatórios.

Chapéu de palha com laço rosa atrás, manga cava branca com um coração estampado que exibe a cara do próprio, calças azuis com Chico da Tina escrito a rosa na zona da braguilha, bigode farfalhudo e mosca XXL. Tudo nele é caricatural e, estranhamente, tudo nele parece genuíno

“Yah, Chico da Tina, jovem empresário minhoto
Se há mulher na festa, fico logo, bem disposto (ya, ya)
Amo as santinhas, mas dessas vi poucas
O meu forte é mesmo muito mais das outras”

Agora, sim, aí está ele. Chapéu de palha com laço rosa atrás, manga cava branca com um coração estampado que exibe a cara do próprio, calças azuis com Chico da Tina escrito a rosa na zona da braguilha, bigode farfalhudo e mosca XXL. Tudo nele é caricatural e, estranhamente, tudo nele parece genuíno.

Francisco Campos Costa Lima nasceu a 28 de março de 1996 em Viana do Castelo e dos dados biográficos pouco mais se conhece. Aprendeu a tocar concertina e daí surgiu o nome artístico deste Chico. Em 2019 editou o primeiro EP de forma independente, Trapalhadas, seguido logo depois pelo álbum Minho Trapstar. A partir daí, hip hop, pop, forró, pimba, regionalismos e trocadilhos jocosos, tudo começou a ganhar espaço no repertório dele. Não dá entrevistas, dá concertos — e esse resguardo também lhe concede uma certa magia.

https://www.youtube.com/watch?v=sciO6ntzLEo&pp=ygUNY2hpY28gZGEgdGluYQ%3D%3D

Apresentação Interativa, Deitei Tarde Acordei Late e Pressinhas embalam o público numa festa cujas letras e os passos de dança estão bem decorados por todos. “Quando eu digo ‘Chico’, vocês dizem ‘da Tina’”, pede, e toda a gente obedece. “Quando eu contar até três, vocês vão dizer o vosso nome bem alto. [Tu és a] Catarina? Inês? Paulo”? As pessoas levantam as mãos e gritam como se o contacto tivesse sido direto e intimista.

Vícios, um dos temas mais recentes, faz parte do álbum editado este ano, Sou Grande no Amor — que sucede a uma compilação de homenagem a Tony de Matos, E Agora Como é Que é (2021) —, e é um dos momentos altos do concerto.

“O meu fraco eu confesso
Nunca foi nenhum tabu
Acho que ficou claro linda yeah
Que o meu vício és tu
Tu tu tu tu tu tu tu tu”

O coro faz-se de milhares de vozes. Muitas delas descobriram-no no TikTok, num daqueles exemplos de fenómenos que se espalham mais depressa do que arde um fósforo. Foi exatamente nessa rede social, intercalados com fenómenos de K-Pop como Katseye, que Francisca, de 12 anos, e Constança, de 11, começaram a ver os vídeos de Chico da Tina. Partilharam com a mãe, Raquel Silva, e quando souberam que ele atuaria na cidade onde moram, não houve forma de escapar. “Acho bonito que ligue gerações. Para mim, ele é mesmo aquele cantor típico português, mas depois vemos aqui imensos jovens que, de repente, também gostam disto”, explica Raquel.

https://www.tiktok.com/@chicodatinaverdadeiro/video/7645736407947955488

Nem só de super fãs se faz uma assistência, mas é bem provável que aqueles que não o acompanhavam até aqui, acrescentem uma ou duas canções de Chico da Tina ao Spotify. Há quem tenha vindo ao primeiro dia do festival ver Bárbara Tinoco, os Paus, D.A.M.A., ÁTOA ou qualquer um dos outros nomes deste cartaz eclético (sempre com nomes portugueses), mas se tenha deixado ficar, movido pela curiosidade. “Na verdade, não conhecemos grande coisa dele, mas tanto ouvimos falar que, já que aqui estávamos, decidimos vir perceber”, explica João Pedro, de 37 anos, que está de férias com a mulher na região.

“Convido-vos a escavarem comigo neste tributo à arqueologia. Sem medos, arqueólogos”, incentiva o cantor durante Arqueólogo e a respetiva coreografia com pás de plástico para brincar na praia.

No meio da euforia do palco anda um acordeão e uma concertina, ainda que esta noite nunca chegue a estar nas mãos de Chico. Aliás, problemas técnicos levam esta última a encurtar a estadia na festa. O som deixa de ser projetado e o cantor, de cara encostada ao instrumento — e não é um trocadilho à Chico —, partilha o microfone para que se oiça a típica De Beber Não Posso Deixar, tema original de Helder Baptista. O ritmo e os sons são os mesmos de antigamente, numa viagem às origens que Chico da Tina nunca descura. Porém, antes que as avós comecem a descrevê-lo como “um menino de oiro”, ele relembra como começou:

“Baby, eu quero a tua pussy, não me dês a tua mão
Eu sou frio como a neve, eu não tenho coração
Baby, tira toda a roupa, baby, fode-me no chão
Se te doem os joelhos, passamos pó colchão”

São versos saídos de Resort, de 2020, numa altura em que as letras eram bem menos subtis. “Acho que, desde que ele explodiu no TikTok, ficou mais bem-comportado. As novas letras estão muito longe do trap”, descreve Catarina Cunha.

Ainda assim, continua a haver espaço para estes temas no alinhamento, assim como uma interpretação de All of Me, de John Legend, cantada de olhos fechados, com toda a emoção mas pronúncia (propositadamente) mal amanhada, em cima de um contentor do lixo amarelo. “Eu tenho dito que mais vale cantar mal de verdade do que bem a mentir”, justifica.

Segue-se Nós Pimba e toda a gente grita. Se parece hip hop, as pessoas fazem os gestos que o género exige, aceleram nas rimas e jogam de acordo com as regras. Não vale a pena procurar explicações porque toda a gente parece estar de acordo.

Ronaldo serve de rampa para apresentar os amigos que Chico tem em palco. Como se de uma anedota se tratasse, há o cozinheiro, o emigrante, “o homem do acordeão que é personal trainer em part time” e o “DJ viciado em apostas online”. São 12 homens, nenhuma mulher, entre a festa de testosterona e a caricatura do homem machão. Como muitos mistérios em torno do cantor, também este fica por confirmar.

Última Dança, um dueto com Lucas Maia que junta ritmos ciganos a todos os outros já mencionados, marca o regresso a palco depois de uma despedida de breves segundos. É tempo de mostrar mais uns passos de dança, saltar do alto de um escadote e agradecer. “Amo-vos do fundo do coração e a ver se almoçamos para a semana”, diz Chico da Tina.

Não é com uma canção do próprio que os espetáculos costumam terminar, mas sim com Portugal Tenho Saudades, de Alfredo Soares, uma típica carta de um emigrante sobre o que ficou para trás. Se a homenagem já demonstra o respeito e a inteligência com que Chico da Tina se relaciona com a música popular, esta noite é ainda mais sentida, já que Alfredo Soares morreu há poucos dias num acidente de viação.

O relógio marca 1h57, os fãs sabem que este tema marca o toque de saída. Quem não sabia, segue a debandada e, além de muitos versos, leva gravado na cabeça “Chico da Tina, mais um sucesso”, uma espécie de anúncio radiofónico presente em quase todas as canções. A julgar pelo amor que as pessoas retribuem a Chico da Tina, será seguro dizer que o futuro lhe reserva “mais um sucesso” em modo repeat.

Afonso, de cinco anos, sai do recinto às cavalitas do pai. O sono, que se mistura com o timbre de bebé que ainda não perdeu, só lhe permite dizer: “Chico da Tina é alegria”. É um bom resumo — da noite e do fenómeno.