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A Pausa

Quando dizemos que o que dissemos ou fizemos ou pensámos não tem mérito, corremos o risco de os outros, por confiarem em nós, concordarem connosco.

Miguel Tamen
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Foi observado que a opinião elevada que temos mais comummente sobre nós próprios é a de que connosco tudo é um pouco melhor, ou seja, mais elevado.  Essa opinião pode exprimir-se de várias maneiras, e às vezes com a ajuda remunerada de outras pessoas.  A maior parte das pessoas, no entanto, prefere as formas de propaganda que não requerem ajuda.  Gostamos de falar de nós às outras pessoas, e conseguimos fazê-lo de um modo agradável para quem fala.

Bem entendido, quando fazemos propaganda de nós próprios anunciamos aos outros que as coisas que se passam connosco são de natureza elevada: só assim se pode explicar que tudo o que se passa connosco seja de facto melhor.   Feitos e ditos, e mesmo pensamentos e omissões, são durante as sessões de propaganda apresentados a uma luz favorável pelos especialistas que a eles assistiram de mais perto e os conhecem de pequenos, isto é, por quem os fez ou disse ou pensou.

Um problema com estas formas de expressão franca é o de que a propaganda de nós próprios pode ser recebida com desconfiança por quem a ouve.  Ter assistido de perto aos factos pode ser um problema; e em qualquer caso não comove tanto os nossos pares como comove quem os está a tentar comover.  Com efeito, a propaganda de si próprio dá inegavelmente satisfação a quem a faz; mas é uma satisfação fugaz, que, como uma camisa de algodão doce, acaba por encolher com o tempo.

Por essa razão as formas mais eficazes de manifestar opiniões elevadas sobre si próprio não são a propaganda, mesmo quando cometida a terceiros, mas aquelas em que não se exprimem directamente as coisas que dizemos sobre nós.   Entre estas é admirado sobretudo o processo clássico de manifestar a nossa opinião elevada usando termos que sugerem que ela é rasteira.   Declararemos nesses casos uma opinião desfavorável; mas fazemo-lo apenas porque queremos exprimir uma opinião favorável.

O processo clássico comporta no entanto riscos.   Os nossos pares estão habituados a concluir que queremos dizer aquilo que dizemos; e, por causa desse hábito, ficarão depois das nossas comunicações com uma opinião desfavorável acerca dos nossos feitos e ditos.  Quando dizemos que o que dissemos ou fizemos ou pensámos não tem mérito, corremos o risco de os outros, por confiarem em nós, concordarem connosco, o que é contrário ao que pretendemos.

Existe no entanto um outro meio, mais simples e por isso usado vastamente na comunicação moderna.   Consiste em substituir as conclusões favoráveis sobre nós próprios por uma pausa.  Descrevemos um dito ou feito nosso, tendo o cuidado de não revelar que achamos que ele é elevado; e a seguir fazemos uma pequena pausa.   A pausa encoraja os nossos pares a tirar por si a conclusão certa, isto é, serve para encorajar a opinião elevada que os outros têm acerca das suas capacidades para tirar conclusões.