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Iminente dá quatro noites em alojamento local para sem-abrigo que vivem na escola “no período em que o recinto estará aberto”

Festival de Vhils vai oferecer quartos aos seis residentes da escola de Marvila durante os dias do evento. "Entendemos que fazia sentido disponibilizar esta alternativa", diz organização.

Joana Moreira
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O Festival Iminente vai disponibilizar quatro noites num Alojamento Local às pessoas em situação de sem-abrigo que habitam a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, Lisboa, onde o evento de música vai decorrer entre 17 e 20 de setembro.

A informação foi confirmada ao Observador pela organização do festival, idealizado pelo artista Alexandre Farto (Vhils), após a diretora do evento, Juliana Almeida, ter garantido esta quarta-feira, ao jornal Público, durante uma conferência de imprensa, que “providenciou um espaço” perto da antiga escola para as seis pessoas que ali vivem.

Esse “espaço”, apurou o Observador, passa por um quarto num alojamento local durante os quatro dias em que decorre o festival de música. A organização confirma que “foi disponibilizada aos moradores uma solução de alojamento temporário, em Alojamento Local, para os quatro dias do festival, especificamente para os períodos em que o recinto estará aberto ao público”.

A organização frisa que a oferta temporária “não corresponde a uma exigência de saída da Escola, nem altera a situação das zonas onde vivem, mas a uma alternativa temporária durante o funcionamento do evento que lhes proporcione maior privacidade e descanso”.

A antiga Escola Industrial Afonso Domingues está encerrada desde 2010, ano em que foi desativada devido às projeções para a Terceira Travessia do Tejo (TTT) e para a linha ferroviária de alta velocidade (TGV) entre Chelas e o Barreiro. Em 2022, após o abandono desses projetos, o Estado central cedeu o imóvel gratuitamente à Câmara Municipal de Lisboa (CML) por um período mínimo de 25 anos.

O objetivo inicial passava por reabilitar o espaço para habitação através da Bolsa Nacional de Alojamento Urgente e Temporário, estando prevista a criação de um centro de acolhimento para sem-abrigo. No entanto, os planos nunca avançaram. Já sob gestão municipal, o terreno foi cedido até 2027 ao Festival Iminente, cujo contrato prevê a realização de edições futuras no local.

A ocupação do imóvel por pessoas em situação de sem-abrigo foi revelada numa reportagem do Observador em abril, que mostrava como cerca de duas dezenas de residentes habitavam o edifício, alguns há vários anos. Perante a proximidade dos trabalhos de montagem do festival, a CML colocou placas a anunciar o “encerramento e controlo de acessos” ao terreno. Na altura, a organização do festival e a autarquia rejeitaram os termos “despejo” e “expulsão”, mas era essa a perceção de quem ali vivia em relatos a este jornal.

Três meses depois, a autarquia terá notificado os ocupantes para abandonarem o recinto. Após a notícia do Observador, o município liderado por Carlos Moedas (PSD/CDS-PP/IL) recuou, afirmando que “foi apresentada uma proposta concreta de integração numa resposta de alojamento apoiado na comunidade, que disponibiliza unidades habitacionais e assegura acompanhamento técnico regular por equipas especializadas”.

Na altura, o Observador questionou a CML sobre o que configurava em concreto essa resposta — se se tratava de centros de acolhimento ou habitação definitiva — e sobre quantos moradores tinham aceite ou recusado a medida. A autarquia optou por não responder em detalhe, referindo-se apenas a “unidades habitacionais individuais” e sublinhando que “as soluções são discutidas individualmente, respeitando sempre a vontade e a capacidade de adesão dos seus destinatários”. Mas, em poucas horas, o Iminente divulgava nas suas redes sociais que alguns moradores tinham visitado as habitações propostas pela CML a cinco minutos da escola, e que os restantes o fariam na semana seguinte. A organização assegurava que não se tratava de um albergue, mas de “unidades habitacionais individuais e dignas, num primeiro passo para integrarem o programa Housing First”.

A solução de Alojamento Local agora conhecida não corresponde a esse plano de integração permanente e acompanhado noticiado em julho. “Essa proposta foi apresentada diretamente às pessoas, que tiveram oportunidade de a conhecer e avaliar”, limita-se a explicar Juliana Almeida. O que é certo é que, na altura, o Observador contava seis residentes na escola. Permanecendo hoje exatamente seis pessoas no local, intui-se que nenhuma terá aceitado a proposta da autarquia.

Iminente garante que sem-abrigo estão “convidados” e “terão acesso ao recinto”

Juliana Almeida reforça que a realização do evento “continua a não depender da desocupação do edifício” e que a organização nunca pediu a saída dos residentes. “O que existe agora é uma possibilidade adicional, conversada com os próprios moradores ao longo dos últimos meses: a disponibilização, caso queiram utilizá-la, de alojamento temporário durante os quatro dias do festival”, justifica.

“À medida que nos aproximamos do evento e o plano operacional ficou definido em maior detalhe, entendemos que fazia sentido disponibilizar esta alternativa. Mesmo com a separação física entre as zonas habitadas e o recinto aberto ao público, reconhecemos que um festival desta dimensão implica mais movimento, ruído e intensidade no espaço”, acrescenta a diretora.

Juliana Almeida garante ainda a integração dos moradores: “Os moradores continuam, naturalmente, convidados para o festival e terão acesso ao recinto. Reiteramos, por isso, que o Iminente não pediu a desocupação da Escola e que esta solução temporária não altera o compromisso que assumimos desde o início de não usar o festival como motivo de pressão para que alguém abandone o espaço.”

Questionada sobre o acesso ao imóvel após o término do evento e se o perímetro continuará vedado com as placas metálicas colocadas nos últimos meses, a diretora sublinha que o festival “não é proprietário do imóvel e não decide juridicamente sobre a permanência no edifício”, mas garante que “naquilo que depende da organização”, “a realização do festival não exige a sua saída e esta alternativa temporária não altera a posição que assumimos desde o início”: “os moradores mantêm as suas casas e o vínculo à Escola ao longo de todo este processo”.

O Observador apurou que, entre as pessoas que aceitaram pernoitar no Alojamento Local durante os quatro dias de festival, a intenção é levar apenas o essencial, mantendo os pertences habituais no interior da antiga escola. O futuro da ocupação após a desmontagem do recinto permanece incerto.

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