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Mulheres adultas

Entregues às coisas bonitas da vida — a música, o riso, as árvores, a água —, envelhecemos, aprendendo sempre

Djaimilia Pereira de Almeida
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Mulheres adultas, nada mais belo. Gosto de tudo nelas, observo-as como se não fosse uma delas: as unhas a precisarem de um retoque, a pele, maçãs do rosto levemente inflamadas, quando indica um copo de vinho a mais, tomado de noite, na solidão do vento nos plátanos avistados da varanda, as bolsas e bolsinhas nas quais guardam uma miríade de segredos, e que transportam todos os dias — isqueiros, medicamentos, a onça de tabaco e as mortalhas, rebuçados para a garganta, a pinça, a maquilhagem, lencinhos, moedas, fotografias tipo-passe, álcool gel, sacos de compras dobrados em triângulos — elas e as suas dores, a sua percepção do tempo passando, as mães com quem não falam, os poucos amigos, as suas rotinas, a casa enquanto refúgio.

Não perderam a graça. Mas às vezes esqueceram-se dela ou fizeram-nas esquecer-se.

As mulheres que sonham ser tratadas como princesas e, outras, as que não esperam nada. Mulheres que assustam os homens. Mulheres que assustam outras mulheres e as que não assustam ninguém. As que nunca pediram nada. As que se acham sozinhas a meio da vida e erguem altos muros à sua volta.

Senhoras de si, algumas criam os filhos sem ajuda, ou com pouca ajuda, dos pais. Outras não tiveram filhos, dedicaram-se à carreira. Há as que nunca foram amadas. As que nunca amaram. As que se apaixonaram pelas pessoas erradas. A maioria vive bem sem os homens, que se vão afastando. Profundamente exigentes, cultas, experientes, vão a meio da vida sem dar satisfações. Não respondem nem à família, nem a um marido, nem a filhos. Passadas para trás no emprego, assediadas ou preteridas, ou mulheres de sucesso, sem pedirem desculpa. Perscruto-as, e encontro em muitas uma plenitude que não encontro tanto nas mulheres casadas.

Lembro-me daquela que me contou, depois de comprar sozinha a sua casa, que nem a conseguia gozar, com o medo de a poder perder. Outras, andam por lojas antigas, em busca de vidros e jóias. Costumam gostar de oferecer, algumas têm sobrinhos, ou alguma criança por perto, que lhes dá alegria. Um ou dois, três ou quatro amigos.

Damos connosco a reconhecer que nos entendemos porque, em comum, temos o facto de não termos filhos e mais tempo nas mãos para as coisas belas e a simples contemplação. A minha percepção do mundo, com um casamento a caminho das três décadas, é profundamente diferente da sua. Mas as pessoas sem crianças aproximam-me umas das outras e têm os seus próprios modos de achar a alegria, à medida que o tempo passa. Comentamos que temos idade para ser mães da maioria dos jogadores de futebol. E rimo-nos à conta disso.

Quando eu tinha vinte e dois anos, disseram-me, roídas de inveja, e com algum desprezo, pessoas de trinta e muitos, que já ninguém tinha essa idade. Onde andarão agora, fechadas em apartamentos de duzentos metros quadrados, essas almas tristes? Eu e as minhas amigas, talvez por termos visto a nossa inteligência intimidada cedo na vida por adultos cruéis, aprendemos também cedo que a crueldade não tem de andar a par da inteligência.

E que a inteligência não conta para nada. Entregues às coisas bonitas da vida — a música, o riso, as árvores, a água —, envelhecemos, aprendendo sempre.