Herdade da Torre Bela, 1975: José Quelhas, um camponês com senso comum, discute a posse da sua enxada com um esquerdista inchado de ideologia. O delicioso trecho do filme condensa o debate ideológico do tempo do PREC.
Ceuta, 2026: Um vídeo que viralizou é, mutatis mutandis, um meme da atmosfera ideológica do tempo em que vivemos, com o eterno confronto entre o senso comum e os fumos ideológicos.
De um lado, Noelia, mãe de dois filhos menores, na rua e cercada pela realidade. Do outro, em estúdio, a jornalista Gema Peñalosa, enfunada com os estribilhos da moda.
Noelia, indignada, explica que já não deixar os filhos saírem sozinhos. Peñalosa reage com o catecismo: “Já estamos outra vez a associar delinquência e imigração”.
A certa altura a mãe explode e entre vários “cojones”, desafia a atarantada Gema, a trazer os próprios filhos para Ceuta porque de Madrid, “sentadita y pintadita”, é tudo muito fácil.
É, sem dúvida. A distância é um excelente calmante. A insegurança dos outros, vista através de um monitor e de um filtro ideológico, torna-se uma construção social; o medo alheio é “preconceito” e uma invasão de dezenas de milhares de homens reduz-se a uma questão lexical. Não há caos, apenas “mobilidade humana”. Não há perda de controlo, só “desafios de acolhimento”. Não há cidadãos abandonados, mas sim cidadãos a “fazer o jogo da extrema-direita”. O dicionário progressista não resolve as crises que cria, mas deixa-as com óptimo aspecto.
O catecismo da moda, obriga a fingir que uma invasão de jovens adultos muçulmanos é uma mera “entrada súbita” que não altera as condições de segurança, não sobrecarrega serviços e não aumenta a violência. Mas entre a acusação de xenofobia e a negação da realidade, existe uma região, outrora conhecida por bom senso, que não consta no vademécum dos sinalizadores de virtude.
Os factos, esses são crus e embaraçosos. Nos dias 30 e 31 de Julho invadiram Ceuta mais de 72 mil pessoas. Milhares permanecem ali um mês depois, nas praias e nas ruas, pressionando a vida normal, os transportes, os serviços sociais, a tranquilidade e a segurança. Há agressões, violações, roubos, vinganças. A realidade está lá, mas não recebeu autorização para entrar no estúdio sem tradução para a língua de pau do wokismo.
Quando Peñalosa perguntou a Noélia se o medo não era apenas mais uma ligação indevida entre imigração e delinquência, não estava a querer saber, mas a corrigir. Noelia apresenta a realidade, a jornalista molda-a ao catecismo. Uma fala dos filhos que deixou de mandar à escola, a outra, da frase feita que aprendeu a mandar para o ar. O confronto opõe o conhecimento empírico de quem suporta as consequências, à cartilha ideológica de quem está fora e racha lenha. Perante factos incómodos, o dialecto progressista, corrente nos estúdios e nas bolhas, em vez de investigar, corrige de imediato o vocabulário de quem os relata.
É a arrogância intelectual em estado puro. Não sabe mais, mas julga-se moralmente superior à necessidade de saber. Não escuta para perceber, mas para classificar. Se o cidadão descreve um assalto, procura-se nele uma fobia. Se fala de fronteiras, detecta-se-lhe fascismo. Se pede ordem, diagnostica-se racismo. Se menciona os filhos, explica-se-lhe que o medo é só uma percepção. Tudo isto com o ar enfastiado e condescendente que informa o paciente de que a dor que ele sente está errada.
Gramsci chamou intelectuais orgânicos aos agentes que dão linguagem a uma classe e à sua visão do mundo. Hoje esses “intelectuais” são os comentadores, académicos, activistas políticos, e funcionários da indústria da virtude, unidos na bolha da ignorância letrada, pela missão de debitar as palavras tremendas com que o povoléu deve interpretar aquilo que lhe acontece. Não lhes importa o tumulto, mas a forma como se pode falar dele. A fronteira pode deixar entrar milhares de homens, mas a patrulha ideológica vigia ferozmente a terminologia.
É a mesma gente das esquerdas flotilheiras, pronta a fazer-se ao mar para socorrer abstrações, mas indisponível para atravessar a rua em direcção às consequências das suas ideias. Ama a Humanidade em abstracto, e detesta os seres humanos concretos. É gente que embarca rumo a Gaza com cachecóis terroristas, melancias, câmaras e comunicados, mas à mãe de Ceuta propina instantaneamente uma aula de semântica. Gente que procura a épica distante, mas foge à prestação de contas na realidade próxima.
Pedro Sánchez elevou o exercício a doutrina de Estado. Segundo o Narciso espanhol, que supura antissemitismo por todos os poros, a corrida a Ceuta foi estimulada por desinformação, particularmente israelita. Na geografia moral de Sánchez, ele e Marrocos desaparecem da equação. Já os judeus, a milhares de quilómetros, surgem no centro de comando. Se amanhã falhar a recolha do lixo em Madrid, Sanchez virá certamente à televisão denunciar que uma conta associada a Israel sabotou os horários dos camiões. Nenhuma explicação moderna fica composta sem a regurgitação bolorenta dos velhos libelos antissemitas.
A questão de que Sanchez foge como Maomé do toucinho, é que as políticas inspiradas pelas suas fantasias woke produzem efeitos perversos precisamente porque recusam a natureza humana, os incentivos e a aritmética. Se o poder transmite que entrar irregularmente pode compensar, mais pessoas tentarão entrar. Se demora a deportar os invasores, acumula populações num limbo degradante. Se abandona os residentes e depois lhes chama racistas e ignorantes, converte a inquietação em revolta. É uma política errada que prejudica quem chega, quem já lá estava e, por fim, a própria democracia.
A culpa, claro, é dos judeus.
Há ainda o habitual elitismo geográfico a distribuir prejuízos. Os custos da generosidade são enviados para bairros, ilhas e terras onde os seus autores não vivem. A bolha progressista conserva a consciência limpa e o conforto burguês do condomínio numa área chique. A periferia fica com as escolas sob pressão, os serviços saturados, a rua perigosa, a polícia à porta e a raiva a acumular. Quem protesta é informado de que é fascista, racista, xenófobo e de ultra-direita. Nunca a solidariedade foi tão compulsiva nem tão confortavelmente terceirizada.
O bom senso anda longe, porque exige fronteiras efectivas, decisões rápidas, distinção entre refugiado e migrante económico, e protecção de quem recebe. Exige sobretudo admitir que toda a decisão ou inação tem custos e que os custos não desaparecem por serem catalogados como discurso de ódio. Humanidade sem ordem, torna-se depressa em desumanidade e isso não se resolve com especialistas em slogans.
A pergunta que uma Noelia indignada lançou das ruas de Ceuta para a senhora Gema no estúdio de Madrid mantém-se a pairar: entregaria a senhora “pintadita” os seus filhos à realidade que recomenda aos filhos dos outros?
É o teste mais simples e mais devastador das utopias políticas. Quando os seus corifeus recusam para si o risco que distribuem generosamente pela plebe, a hipocrisia fica exposta.
A esquerda passou anos a ensinar que a realidade é uma narrativa construída pelo poder capitalista, heteropatriarcal, neoliberal e todo esse palavreado de espuma.
Em Ceuta, a realidade respondeu sem bibliografia e num tom pouco inclusivo. A esquerda ficou ”sentadita”. A realidade continua de pé.