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(A) :: Salvador, esta é a tua casa

Salvador, esta é a tua casa

A vida tem muitas nuances, mas é difícil imaginar uma circunstância em que seja errado dizer a alguém: independentemente do que tens ou do que és, esta é a tua casa.

P. João Basto
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Quem me lê sabe que sou sócio de um clube fundado a 1 de julho de 1906, que joga – menos vezes do que eu gostaria – de verde e branco e que nasceu graças ao apoio financeiro e logístico do primeiro Visconde de Alvalade. Renovada a declaração de intenções, – não vá alguém acusar-me de favorecimento – avancemos para o texto desta semana.

No último jogo do Benfica na Luz, Rafa Silva entrou em campo acompanhado por Salvador, um menino de seis anos. Salvador vive com uma doença genética rara, epidermólise bolhosa distrófica recessiva, que torna a sua pele extremamente frágil: um simples toque pode provocar bolhas e feridas de cicatrização difícil. Naquele momento, Salvador foi aplaudido de pé pelos jogadores e pelos adeptos. Nos anéis do estádio, faixas com o seu nome diziam: “Bem-vindo, Salvador. Esta é a tua casa.”

Lá no fundo, todos sabemos que a vida existe para isso, e o futebol, como a coisa mais importante das menos importantes da existência, também. Nessa liturgia secular que é a bola, a nossa equipa carrega as nossas fraquezas. Atrevo-me a dizer que só permitimos que cada jogo seja uma competição se sentirmos que os que jogam vencem por aqueles que, de um ou outro modo, não se parecem com os vencedores. Só admitimos que entrem em campo se carregarem mortos, doentes e indefesos. É por essa mesma razão que ninguém aceita que se brinque dentro de campo. É por essa razão que aceitamos que sejam milionários. É por essa razão que pagamos o que for preciso para que representem aqueles que não conseguem sequer levantar-se.

De certa forma, o que nos atrai no futebol é podermos, por uns instantes, ser espectadores da instabilidade e da contingência da vida. Durante uns minutos, a vida não tem consequências. O único efeito dessa distância pode ser compreendermos melhor a nossa própria debilidade. Não por acaso, cada conjunto de adeptos, mesmo vencendo um campeonato, sente-se sempre, ainda que cada qual à sua maneira, uma multidão de esfomeados. A vitória nunca chega para resolver o que levámos connosco até ao estádio. Apenas nos dá, por breves momentos, a sensação de que alguma coisa foi reparada.

Para que é que este texto serve? Possivelmente para nada, mas, talvez, o que quero realmente dizer seja isto.

Furar a bolha mediática também deve ser exercitar outra forma de atenção, para colocar no centro do debate o absurdo. O futebol é, nesse sentido, uma educação sentimental de tudo o que é contrário à razão. Pode ser a capacidade quase absurda do Maldini para antecipar um desarme. Pode ser, num plano incomparavelmente mais sério, a ausência de qualquer explicação aceitável para o sofrimento de uma criança.

O Mundo, no entanto, parece estar cheio de explicações e evidências, de curas rápidas e instantâneas. Mas nem tudo tem explicação e nem sempre uma explicação torna alguma coisa mais suportável. É verdade, a vida tem muitas nuances, mas é difícil imaginar uma circunstância em que seja errado dizer a alguém: independentemente do que tens ou do que és, esta é a tua casa. Dizê-lo é prescindir do imediato. Estar em casa é um processo que raramente resolve os problemas. Confronta-nos tanto com presenças e reconhecimentos, como com fantasmas e solidão.

Naquele dia, na Luz, foi isso que o futebol fez pelo Salvador. Não lhe prometeu uma cura nem fingiu que o sofrimento tinha uma explicação. Disse-lhe apenas aquilo que, por vezes, é a única coisa honesta que podemos dizer uns aos outros: Salvador, esta é a tua casa.