(c) 2023 am|dev

(A) :: A sociedade que odeia crianças

A sociedade que odeia crianças

Uma mulher que abranda a carreira por um filho "abdicou de si própria". Uma que abdica do filho pela carreira "escolheu a liberdade".

Gonçalo Galvão Gomes
text

Vivemos numa sociedade que não se limita a ter menos filhos. Aprendeu também a falar deles como se fossem, antes de tudo, um problema. Não é preciso procurar muito. Está nas conversas, nas séries e filmes, nos artigos dos jornais, nas redes sociais, na forma como a maternidade e a paternidade são apresentadas quase sempre a partir daquilo que obrigam a perder: tempo, dinheiro, liberdade, corpo, sono, carreira, viagens, espontaneidade.

Os filhos aparecem cada vez menos como uma continuação natural da vida e cada vez mais como uma espécie de imposto pessoal sobre tudo aquilo que aprendemos a considerar importante.

Entre pessoas da minha geração, isto tornou-se particularmente evidente. Quando alguém fala em ter filhos, a conversa rapidamente se transforma num exercício de gestão de danos. Quanto vai custar? Vais conseguir continuar a viajar? O que acontece à tua vida social? E, no caso das mulheres, surge quase imediatamente a pergunta que parece hoje sobrepor-se a todas as outras: e a carreira?

A carreira tornou-se uma espécie de ídolo sagrado. Continua a ser apresentada como um meio de realização, mas muitas vezes é tratada como um fim em si mesmo, quase como uma obrigação moral. Uma mulher que abranda profissionalmente para cuidar de um filho é facilmente descrita como alguém que “abdicou de si própria”. Uma mulher que abdica de ter filhos para proteger a carreira é apresentada como alguém que escolheu a liberdade.

Até a linguagem denuncia esta mudança. “Childless” era uma descrição: não ter filhos. “Childfree” é uma declaração de libertação. O sufixo importa. Somos debt-free, smoke-free, cancer-free. Ficamos “free” de coisas que nos limitam, prejudicam ou das quais queremos escapar. A expressão pode parecer inofensiva, mas contém uma ideia bastante clara: a criança deixa de ser uma ausência e passa a ser uma prisão evitada.

Ninguém é obrigado a ter filhos. Há pessoas que não querem, pessoas que não podem e pessoas que talvez façam bem em não ter. Nada disso está em causa. O que merece ser discutido é outra coisa: porque é que a opção de não ter filhos passou a precisar de ser justificada através de uma caricatura tão negativa da parentalidade?

O caso recente de Lindsay Clancy é um exemplo particularmente desconfortável desta tendência. Clancy está a ser julgada por ter estrangulado os seus três filhos pequenos. A defesa sustenta que sofria de uma perturbação mental grave no período pós-parto e que isso deve ser tido em conta na avaliação da sua responsabilidade criminal. É uma questão séria, tanto do ponto de vista médico como jurídico, e seria absurdo fingir que a doença mental não existe ou que não pode ter consequências devastadoras.

Mas uma coisa é tentar compreender uma doença. Outra é assistir à forma como o centro moral da história se desloca. Centenas de mulheres juntaram-se para demonstrar apoio a Clancy, e muitas outras manifestam esse apoio online. A conversa pública concentrou-se nela, no sofrimento dela, na pressão sobre as mães, na solidão da maternidade, na falta de apoio, no peso psicológico de ter filhos.

E os três filhos mortos quase desapareceram da história. Implicitamente, foi como se tivessem merecido. Como se não fossem as verdadeiras vítimas, mas os contribuidores responsáveis pelo evento.

O que mais incomoda não é a tentativa de compreender o que aconteceu, mas a rapidez com que uma tragédia extrema foi absorvida por uma narrativa que já existia muito antes dela: a ideia de que a maternidade destrói mulheres. Os filhos tiram identidade, matam carreiras, isolam, prendem, transformam uma mulher numa versão diminuída daquilo que poderia ter sido.

Dar prioridade à casa e à família é exploração patriarcal; obedecer a um patrão e dedicar a vida a uma empresa é o expoente máximo da emancipação feminina.

O problema é que a experiência real é muito menos simples. Ter um filho dá trabalho, e muito. Rouba horas de sono, obriga a mudar planos, custa dinheiro e reduz brutalmente a ilusão de que o nosso tempo nos pertence. Há dias cansativos, dias frustrantes e momentos em que seria mais fácil não ter de responder por ninguém além de nós próprios.

Tudo isso é verdade. Mas há uma diferença enorme entre dizer que uma coisa exige sacrifício e dizer que esse sacrifício é uma forma de opressão.

Vivemos num tempo curioso, em que aceitamos o esforço como condição de quase tudo aquilo que respeitamos. Uma carreira exige anos. Um negócio exige risco. Um casamento exige paciência. Um corpo saudável exige disciplina. Aprender uma arte, dominar uma profissão, construir alguma coisa de valor, tudo isso custa tempo, energia e renúncia. Só quando chegamos aos filhos é que o sacrifício passa subitamente a ser apresentado como prova de que alguma coisa correu mal.

Talvez porque se tenha tornado mais difícil explicar o valor de coisas que não podem ser medidas de imediato. É fácil calcular o preço de uma creche, medir as horas de sono perdidas ou estimar quanto dinheiro deixou de entrar porque alguém trabalhou menos durante alguns anos. Tudo isso cabe numa folha de Excel.

O que não cabe é a transformação que acontece quando outra pessoa deixa de ser apenas “alguém de quem gostamos” e passa a ser alguém por quem daríamos tudo. Não cabe o primeiro sorriso, a primeira palavra, a confiança absoluta de uma criança, nem aquela sensação estranha de perceber que, pela primeira vez, existe alguém cuja felicidade importa mais do que a nossa conveniência. Essas coisas não aparecem numa análise de custo-benefício, e esse pode bem ser o problema de uma sociedade que aprendeu a pensar quase tudo dessa forma.

Os filhos tornam a vida mais difícil. Evidentemente. Mas a dificuldade nunca foi um bom critério para decidir se alguma coisa vale a pena. Quase tudo o que dá verdadeiro significado à vida exige alguma coisa de nós: tempo, esforço, compromisso, responsabilidade, renúncia. A diferença está no que recebemos em troca.

Ter filhos não é uma forma de escapar à vida. É uma das formas mais profundas de entrar nela. Obriga-nos a sair do centro, a aceitar que nem tudo gira à nossa volta e a construir alguma coisa que continuará muito depois de a nossa carreira, o nosso salário e as nossas ambições profissionais terem deixado de interessar a alguém.

É isto que esta cultura tem dificuldade em admitir: os filhos não nos libertam das responsabilidades. Libertam-nos, muitas vezes, da ideia de que a nossa vida só tem valor enquanto nos pertencer inteiramente.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.