Ao longo dos dez artigos anteriores, acompanhámos o testemunho de José desde os primeiros sinais de alienação parental ainda durante o casamento, passando pela degradação da relação conjugal, até à separação e ao início do afastamento das filhas. Analisámos depois as dificuldades vividas após a saída de casa, o percurso até à regulação das responsabilidades parentais, os sucessivos incumprimentos das decisões judiciais e as dificuldades nas transições das crianças entre os pais.
Nos artigos mais recentes, centrámo-nos na importância da intervenção em contexto e no papel dos profissionais, incluindo as dificuldades de comunicação com o Tribunal e a forma como, em situações de elevada conflitualidade parental, os próprios técnicos podem acabar por ser envolvidos no conflito. Acompanhámos também a tentativa de transferir as transições das crianças para o espaço da escola, procurando encontrar um contexto mais neutro e protegido da conflitualidade existente entre os pais.
Neste décimo primeiro artigo, avançamos para uma dimensão particularmente delicada deste percurso, aquilo que pode acontecer quando uma criança sente que estar bem com um dos pais pode significar magoar o outro.
A partir do testemunho de José e das situações que me foi possível observar diretamente, durante a intervenção, procuraremos compreender como o comportamento das crianças podia variar de forma significativa consoante o contexto: a resistência manifestada em determinados momentos das transições, a tranquilidade que surgia pouco depois de estarem com o pai e as alterações observadas durante os telefonemas e videochamadas com a mãe.
No centro deste artigo está, assim, o conflito de lealdade e, em particular, a perceção do José de que a filha mais velha, Rita, teria, progressivamente, assumido a responsabilidade de proteger o estado emocional da mãe. Uma criança dividida, não necessariamente entre amar um pai ou amar a mãe, mas entre aquilo que sente e aquilo que acredita poder demonstrar, sem magoar nenhum deles.
É precisamente esta tensão, entre o afeto pelo pai e o receio de magoar a mãe, que atravessa o testemunho que agora continuamos a acompanhar.
Em situações de elevada conflitualidade parental, um dos comportamentos que mais preocupam os pais, profissionais e tribunais é a recusa ou resistência de uma criança em estar com um dos pais. Quando uma criança chora, protesta, se agarra a um dos pais ou afirma não querer acompanhar o outro, a imagem é poderosa e pode parecer suficientemente clara para dispensar outras explicações. Mas será que este momento, observado isoladamente, nos permite compreender verdadeiramente o que a criança sente?
A experiência de acompanhamento desta família mostrou precisamente a importância de não retirar conclusões a partir da observação de um único comportamento ou momento. Ao longo da intervenção, foi possível observar que a intensidade da resistência das crianças relativamente ao pai variava significativamente em função do contexto: do momento em que a transição acontecia e daquilo que ocorria imediatamente antes e depois. Assim, mais do que perguntar apenas se uma criança rejeita um dos pais, tornou-se necessário perguntar: quando rejeita?, em que circunstâncias?, perante quem?, e o que acontece quando essas circunstâncias se alteram?
Quando a rejeição variava consoante o momento da transição
Enquanto profissional que acompanhou esta família, foi-me possível observar que o comportamento das crianças nas transições não se mantinha constante ao longo do tempo. Existiam períodos como as quintas-feiras, que eram particularmente difíceis, com manifestações mais intensas de resistência e sofrimento, enquanto as transições realizadas às sextas-feiras decorriam de forma significativamente mais tranquila. Esta diferença revelou-se relevante porque, estando perante o argumento de uma rejeição estável e generalizada do pai alienado, seria então importante compreender por que razão a mesma criança apresentava comportamentos tão distintos em momentos diferentes. As manifestações de resistência não surgiam sempre com a mesma intensidade, nem permaneciam necessariamente depois de concluída a transição. Variavam de acordo com as circunstâncias em que a passagem entre os pais ocorria e com o contexto relacional e emocional que a envolvia. Esta variabilidade obrigava, por isso, a olhar para além daquilo que acontecia no instante da entrega.
Quando a resistência desaparecia depois da transição
Um dos aspetos mais significativos que observei ao longo da intervenção foi precisamente aquilo que acontecia depois dos momentos de maior resistência. Uma vez ultrapassada a transição e diminuída a tensão associada àquele momento, as crianças recuperavam, por vezes rapidamente, a espontaneidade, a disponibilidade para brincar e a proximidade afetiva com o pai. A criança alienada, que momentos antes podia chorar, resistir ou manifestar não querer ir, conseguia, pouco depois, envolver-se nas atividades, brincar e relacionar-se afetivamente com o pai alienado. Este contraste dificultava a interpretação da resistência observada durante a transição como expressão, por si só, de uma rejeição estável e generalizada da figura paterna. Como tal, tornava-se necessário compreender não apenas se a criança recusava o contacto, mas quando é que essa recusa surgia, perante quem, em que circunstâncias e durante quanto tempo se mantinha. Sobretudo, era fundamental observar aquilo que acontecia quando o contexto mudava.
Quando o telefonema voltava a alterar o comportamento
A mesma variabilidade comportamental tornava-se particularmente evidente noutro momento, durante os telefonemas com a mãe alienadora. Depois de transições difíceis, com as crianças tranquilizadas e a envolver-se em atividades com o pai, em determinados momentos, com a aproximação da hora do telefonema da mãe, parecia acontecer uma nova alteração no seu comportamento. O José recorda de forma particularmente expressiva um desses episódios: “(…) agora ainda temos outros momentos que eu acho que é muito importante falar. Tínhamos estas transições que eram difíceis, que eram complicadas, que havia a gritaria e que elas tinham que demonstrar isto e depois ficavam bem. Mas depois ainda tínhamos outra interrupção deste estar bem, que eram os telefonemas. E portanto eu também assistia a isso, é estarmos a fazer teatros, elas vestidas de princesas, a fazer representações e a brincar, isso era a hora do telefonema, e ver aquelas crianças arrancar os vestidos, arrancar os ganchos, as coroas, tudo aquilo que estavam, atender a mãe e chorar e dizer: “Mãe, isto é tudo horrível, eu não tenho muitas saudades de tuas, eu não gosto de estar aqui, só estou aqui porque tem que estar” e falar mal de tudo o que tinha acontecido naqueles momentos”.
Quando a criança sente que tem de proteger emocionalmente um dos pais
No testemunho do José surge, repetidamente, uma preocupação relativamente à filha mais velha: a perceção de que Rita teria assumido uma responsabilidade pelo estado emocional da mãe: “sempre o sofrimento da responsabilidade emocional que é ter de cuidar do emocional, da gestão emocional da mãe. A Rita tem de cuidar do estado emocional da mãe, tem de saber prever como é que vai se comportar com o pai, pela mãe, para a mãe estar bem. Portanto, passa como uma cuidadora e é responsabilizada pela maneira como a mãe está ou deixa de estar, ou se está feliz ou se está triste. Sim, sim. Mas é muito assim. É muito assim. E fala inconscientemente. Ela tem consciência do que está a fazer o… De certa maneira tem consciência de que se fizer isto a mãe vai ficar mal. Ela sente essa responsabilidade. Mas se tem consciência do impacto que isso tem nela, é uma coisa que talvez mais tarde terá. Agora já é mais velha, já deve perceber que tem essa responsabilidade e que é posta em cima dela”.
Na sua leitura, a filha procurava antecipar aquilo que a mãe poderia sentir e ajustava o próprio comportamento em função dessa antecipação. Mostrar que estava feliz com o pai poderia, na perceção da criança, significar magoar a mãe. Esta dinâmica remete para uma questão particularmente importante nos conflitos de lealdade: a criança pode começar a sentir que gostar de um dos pais constitui, de alguma forma, uma deslealdade para com o outro. Nessas circunstâncias, deixa de estar inteiramente livre para dizer “diverti-me”, “estou bem”, “gosto de estar aqui” ou simplesmente continuar a brincar quando fala com o outro pai ou mãe alienador. Passa a gerir não apenas os seus próprios sentimentos, mas também aquilo que imagina serem os sentimentos e as reações dos adultos.
O que foi possível observar diretamente nas videochamadas
Enquanto profissional que acompanhou esta família, foi-me igualmente possível observar diretamente alterações comportamentais durante algumas videochamadas entre as crianças e a mãe. No decorrer das chamadas, verificava-se uma mudança evidente: as crianças manifestavam tristeza, diziam estar infelizes e exprimiam o desejo de regressar. Contudo, terminada a chamada, a alteração podia ser praticamente imediata. Assim que o telefone era desligado, retomavam espontaneamente as brincadeiras, voltavam a vestir os vestidos e a colocar os acessórios que haviam retirado e prosseguiam as atividades com o pai de forma descontraída e alegre.
O elemento clinicamente mais relevante não era apenas aquilo que diziam durante a chamada. Era a discrepância entre aquilo que verbalizavam e o comportamento diretamente observado imediatamente antes e depois. Em poucos segundos, passavam de manifestações de aparente sofrimento para uma interação espontânea, lúdica e afetivamente positiva com o pai.
Entre aquilo que a criança sente e aquilo que sente poder demonstrar
Ao longo da minha intervenção, foram igualmente observados, na relação entre as filhas e o pai, gestos espontâneos de proximidade: abraços, manifestações de carinho, bilhetes e outras expressões de afeto. Algumas dessas manifestações surgiam depois de situações de maior tensão, parecendo traduzir uma necessidade de reaproximação e reparação da relação. O conjunto destes comportamentos mostrava-se compatível com a existência de um conflito de lealdade de elevada intensidade. As crianças pareciam confrontadas com a difícil tarefa de conciliar o afeto por ambos os pais com a perceção de que a demonstração de bem-estar, proximidade ou prazer na relação com um deles poderia produzir consequências emocionais na relação com o outro.
É importante sublinhar que uma criança em conflito de lealdade não deixa necessariamente de amar um dos pais. O problema pode residir precisamente no contrário: amar os dois e sentir que não lhe é permitido demonstrá-lo livremente.
A rejeição de uma criança não pode ser avaliada num único momento
Esta experiência reforçou-me a ideia de que na intervenção profissional, o comportamento de uma criança deve ser observado em diferentes momentos e contextos. Se a avaliação tivesse terminado no instante em que uma das crianças chorava ou recusava acompanhar o pai, a leitura da situação poderia ter sido muito diferente. Mas o acompanhamento permitiu continuar a observar a sua atitude e concluir noutro sentido. Perguntávamo-nos o que acontecia cinco minutos depois? E meia hora depois? Como se comportava a criança quando já não estava no local da transição? Procurava o pai ou afastava-se dele? Brincava? Aceitava o seu cuidado? Demonstrava afeto? Mantinha a rejeição durante todo o período de convivência? O comportamento modificava-se quando recebia um telefonema? E voltava a alterar-se quando a chamada terminava?
Estas perguntas são fundamentais porque uma rejeição persistente, transversal a diferentes contextos e acompanhada por medo ou mal-estar continuado é um problema diferente de uma rejeição que surge predominantemente em determinados momentos e desaparece quando o contexto se modifica. Uma avaliação baseada exclusivamente num momento isolado dificilmente permite compreender toda a complexidade de uma dinâmica familiar desta natureza. É necessário observar a criança antes, durante e depois das situações em que a rejeição se manifesta.
Ouvir, mas também observar a criança em contexto
É igualmente necessário distinguir aquilo que a criança diz daquilo que faz, perceber se existe coerência entre a verbalização e o comportamento adotado. Isto não significa desvalorizar aquilo que uma criança diz. Pelo contrário. Significa escutá-la de forma mais completa. A palavra da criança é fundamental, mas deve ser compreendida juntamente com o seu comportamento, a sua história relacional, o contexto em que se expressa e as mudanças que ocorrem ao longo do tempo.
Quando o contexto muda, o comportamento também pode mudar
Neste caso, um dos elementos mais relevantes foi precisamente a variabilidade do comportamento dos filhos. As crianças não apresentavam sempre o mesmo comportamento perante o pai. A intensidade da resistência modificava-se consoante as transições, diminuía depois de determinados momentos de tensão e podia reaparecer perante situações específicas, nomeadamente durante os contactos com a mãe.
Esta oscilação não permite, isoladamente, determinar por que razão uma criança rejeita um pai ou mãe alienado, mas constitui informação clínica que deve ser integrada numa avaliação mais ampla.
Perante uma criança que diz “não quero ir”, é necessário procurar compreender por que razão não quer ir, quando começou a não querer, em que momentos essa recusa se intensifica, quando desaparece, perante quem se manifesta e o que acontece à criança quando o contexto muda.
Em situações de elevada conflitualidade parental, observar apenas o momento mais dramático pode significar perder a informação sobre tudo aquilo que acontece antes e depois dele. E, por vezes, é precisamente nessa mudança, entre o choro e a brincadeira, entre a resistência e o abraço, entre aquilo que a criança diz num contexto e aquilo que espontaneamente faz noutro, que se encontram alguns dos elementos mais importantes para compreender aquilo que ela está emocionalmente a viver.