A rentrée pós-verão é um momento muito especial nas Universidades por ser o início do ano académico e estarmos a acolher uma nova geração de alunos, com todo o seu talento, esperança e potencial. Nos últimos dias dei as boas vindas a 1200 novos alunos de licenciatura e mestrado na Católica Lisbon School of Business and Economics, dos quais 60% são internacionais, oriundos de mais de 50 países. Este talento global veio juntar-se a uma Escola de excelência, cotada entre as 1% melhores Escolas de Negócios a nível mundial. Uma Escola que sempre acreditou que os negócios e a economia são ferramentas de progresso e que os líderes empresariais devem ser éticos na sua atuação e responsáveis na gestão dos recursos e capacidades que têm o privilégio de gerir.
Mas, quando penso no mundo em que estes graduados vão desenvolver as suas carreiras daqui a 2-3 anos, uma preocupação grande me assola. E não estou a falar do impacto da Inteligência Artificial, pois acredito que esta será uma poderosa ferramentar para potenciar a criação de valor dos profissionais inteligentes e competentes, com espírito crítico, inteligência emocional e a adaptabilidade a um mundo em acelerada mudança.
Estou a falar sim da vaga de corrupção, populismo, falsidade, autoritarismo, agressividade e ganância que parece estar a assolar o mundo e a colocar em causa a liberdade, os direitos humanos, a democracia e a colaboração multilateral na qual mais de 30 anos de prosperidade foram construídos. Este foi o período da globalização que vai desde a queda do muro de Berlim até 2020, período durante o qual, a paz, o progresso e colaboração pareciam poder vencer os ódios e as guerras. Ao invés, estamos nos últimos anos a assistir à transformação da ordem mundial para uma lógica imperialista típica do século XIX e a um processo de retrocesso da civilização humana, em que ideais de justiça, respeito pelos outros e crença na Ciência se estão a perder em vários países importantes. E isto está a acontecer porque as pessoas boas estão a permitir a ascenção das pessoas más (e cada vez mais a votar nelas).
Na nossa sociedade somos rodeados de situações que nos causam repúdio – ações de corrupção, visões mais radicais da sociedade que levam a consequências nefastas, prossecução de interesses específicos que prejudicam pessoas e o bem comum. Mas é raro sermos confrontados com o verdadeiro Mal. Falo do Mal como a antítese da Humanidade, o contrário da dignidade e bem estar humanos . O Mal desumaniza as pessoas, é incapaz de empatia, provoca sofrimentos ou morte sem necessidade ou por puro prazer. Quem pratica o Mal desrespeita os valores mais essenciais das sociedades, desrespeita as leis e desrespeita a dignidade humana, com o intuito de se engrandecer (em fortuna, estatuto ou poder) ou de perseguir objetivos ideológicos contrários aos direitos humanos.
Assasinos em série que matam pessoas pelo prazer de matar são uma personificação do Mal. Atividades, organizações ou indústrias que criam práticas de escravidão humana, de exploração dos outros para proveito próprio são casos do Mal em escala. Um exemplo claro são as indústrias criminosas de fraudes informáticas que escravizam pessoas para que essas enganem e roubem outras pessoas. Sabemos também reconhecer regimes que institucionalizaram o Mal. O regime da Coreia do Norte, a Rússia sob Estaline, a China sob Mao, e a Alemanha Nazi, foram exemplos extremos da ascenção e normalização do Mal.
Manifestações do verdadeiro Mal têm sido, felizmente, pouco comuns na nossa sociedade, especialmente no mundo ocidental onde tem imperado a democracia e o estado de direito que garante a proteção das pessoas mesmo face ao mais poderosos. E o Mal quando surgia era combatido e isolado. Mas o que fazer quando vemos o Mal a surgir na nossa sociedade e a ser normalizado? Neste momento vejo o Mal a ganhar força na sociedade americana e a contagiar com o seu mau exemplo regimes e políticos populistas em todo o Mundo.
O Mal começa com o desrespeito pela verdade. Quando a maioria das comunicações de um regime ou de um político são mentiras, e as mentiras são tão grosseiras e óbvias que só enganam aqueles que se querem deixar enganar, então o regime ou político perde toda a confiança e entra num jogo de ilusões. Neste momento a maioria das comunicações da administração Trump são mentiras disparatadas.
O Mal reforça-se quando se permite o desrespeito pelas leis e regras da sociedade. A sociedade e o jogo da política tem regras e tradições que existem para encontrar os equilíbrios necessários à convivência social. Quando só interessa o fim que se pretende alcançar e as regras são apenas instrumentos para serem manipulados, então tudo passa a ser possível e cínico. Perde-se o respeito pela vida e pela dignidade das pessoas. Neste momento muitas das instituições americanas, como a Procuradoria e as agências federais, foram controladas pelo regime como forma de reforçar o seu poder e se vingarem de todos aqueles que se opõem.
Uma estratégia do Mal é categorizar o outro como inimigo ou inferior para o desumanizar e amedrontar os restantes. A agressiva política de emigração Americana, corporizada pela atuação do ICE, é uma forma de classificar como inferiores todos aqueles que não são nascidos nos Estados Unidos e os extraditar, mesmo aqueles que estão há décadas a trabalhar de forma legal nos EUA e a cumprir as etapas do processo de legalização. A destruição ilegal da USAID, o braço da ajuda ao desenvolvimento dos EUA, foi uma decisão maléfica pois sem necessidade nem legalidade destruiu-se uma insitituição de décadas, despediu-se dezenas de milhares de pessoas, anulou-se contratos em vigor e colocou-se em risco a vida, saúde e educação de milhões de pessoas em todo o mundo.
A certa altura, a loucura passa a ser tão grande que se acredita nas mentiras como se fossem verdade. Entra-se no mundo do anti-ciência, em que se nega o conhecimento e a realidade empírica à nossa volta, acreditando que se molda a ciência e a realidade à nossa vontade.
O maior problema é que ao fim de algum tempo as pessoas decentes e boas se afastam para não pactuar com o Mal, ou são elas próprias afastadas por não demonstrarem uma lealdade cega aos poderosos. Quando as instituições são controladas, o poder sai reforçado e sabemos que o poder absoluto corrompe absolutamente. E as restantes forças poderosas da sociedade, como os líderes das grandes empresas, apesar de perceberem o que se passa, juntam-se ao poder por parecer ser a única estratégia segura. Este, infelizmente, é o caminho que os EUA estão a seguir mas que ainda pode ser invertido. Este é o caminho que pode também ocorrer nas nossas democracias se não formos atentos e apoiarmos políticos maus sem ética nem caráter.
A história repete-se quando quem viveu a história já cá não está para contar e alertar. Combater o Mal exige sacrifícios, coragem e inteligência. Exige assumir perdas, desistir da segurança, arriscar vidas e carreiras. Seremos na nossa sociedade capazes de nos organizarmos para impedir que o Mal se normalize e ascenda ao poder? Que sacrifícios estamos dispostos a incorrer para evitar um mal maior?