Quando a australiana Catherine Birmingham e o britânico Nathan Trevallion, um casal com três filhos, decidiram comprar uma casa num bosque em Itália, sonhavam com uma mudança para uma vida mais próxima da natureza, com os filhos a estudarem em casa e a família a consumir o que produzia. Mas, a partir do dia, em setembro de 2024, em que a família comeu cogumelos que eram, afinal, venenosos, o pesadelo começou — toda a família foi transportada para um hospital e os filhos acabaram mesmo por ser retirados ao casal.
A situação parece agora estar a melhorar para Birmingham e Trevallion, que um ano depois de terem perdido a guarda das três crianças começam a recuperar o acesso — parcial — a elas, como conta o The Guardian. Mas é mais um passo num processo polémico que continua por resolver, e que pôs as sociedades inglesa e italiana a discutir sobre o direito que os pais têm a educar os filhos fora do “circuito” habitual e se a retirada das crianças foi ou não justa.
A história começa em 2021, quando Nathan Trevallion, antigo chef de cozinha, e Catherine Birmingham, antiga professora de equitação, compraram uma casa descrita como estando “em ruínas” num bosque em Palmoli, na região italiana de Abruzzo. A ideia era criarem as crianças — Utopia Rose, de oito anos, e os gémeos Galorian e Bluebell, de seis anos — perto da natureza e fora do sistema escolar.
Além disso, a família propunha-se a cultivar a própria comida, gerar eletricidade a partir da luz solar e recolher água de um poço, uma vez que não tinha eletricidade ou água canalizada. Os filhos estudavam em casa, ensinados pelos pais, e com vários animais (cavalos, burros e galinhas) à volta. E tinham, como contava noutro texto o The Guardian, visitas semanais a uma cidade na costa do Adriático, San Salvo, para conhecerem o mundo fora daqueles bosques.
O problema começou depois de, em 2024, a família ter comido cogumelos que apanhou no bosque e que eram venenosos, tendo todos sido hospitalizados. Na sequência desse caso, em novembro de 2025 um tribunal de família ordenou que as crianças fossem retiradas aos pais e colocadas num centro de acolhimento residencial. Os motivos não se prendiam apenas com o perigo a que as crianças estiveram expostas naquele episódio, mas também com uma alegada falta de higiene, de interações sociais, de instalações sanitárias e de escolarização.
A mãe ainda conseguiu ficar com as crianças até março, quando o tribunal ordenou que abandonasse aquela residência. Mas esta quarta-feira um tribunal italiano aprovou um processo “de reunificação gradual” dos pais com as três crianças.
“A decisão revê parcialmente decisões judiciais anteriores e prevê um processo de reunificação gradual, permitindo às crianças voltarem a casa para visitas durante o dia imediatamente e, a partir de outubro, visitas com dormida durante os fins de semana”, explicou a advogada da família, Simone Pillon. Em comunicado, o casal reagiu esta quinta-feira dizendo que a “antecipada decisão, por que toda a família esperou com angústia, chegou com uma rispidez que partiu os nossos corações”, estando a planear recorrer e tentar recuperar a guarda total dos filhos.
O casal questiona se forçar as crianças a irem à escola é uma decisão “justa, legal e respeitadora” dos seus direitos, sendo que escolheu viver em Itália por acreditar que teria melhores condições e direito a criar os seus filhos nestes moldes. Agora, diz, a família está a passar por um “trauma extremo, stress, exasperação e preocupação com o sofrimento dos filhos”. E garante que os médicos dizem que a saúde das crianças está em “sério risco” e que precisam de voltar para casa.
“Como é que podem estar bem se são forçados a viajar de casa para o lar, depois para a escola, e depois para o lar, enquanto são afastados dos pais?”, cita o mesmo jornal. Para o casal, as autoridades — que mantêm que tomaram esta decisão por existirem fatores de preocupação com a segurança e as condições em que as crianças viviam — querem impor um modelo único de educação: “E os que não o seguem perdem os filhos”.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]