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Especialista contraria leitura do Governo. Verão "relativamente calmo" — e não a "preparação" — explica grande redução de área ardida

Montenegro e Hugo Soares elogiam preparação do Governo para os fogos. Já o especialista Carlos Trindade fala antes num "verão relativamente calmo" e "sorte para os políticos". Mas tudo pode mudar.

Mariana Furtado
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Uma diminuição da área ardida, de mais de 220 mil hectares para cerca de 56 mil, é o tipo de estatística que qualquer ministro da Administração Interna quer exibir em pleno verão. No entanto, e apesar dos elogios de Luís Montenegro e Hugo Soares à “preparação” e ao desempenho de Luís Neves na preparação para os fogos e no combate, a explicação para os números até agora registados poderá estar mais ligada a um “verão relativamente calmo” em 2026, sobretudo durante agosto, e menos ao “maior dispositivo de combate aos incêndios de sempre”. É o que explica ao Observador Carlos Trindade, perito em fogos rurais da Pyrocene Alliance ONG. E, segundo o especialista, o perigo pode ainda não ter passado: o impacto do fenómeno El Niño pode arrastar o período crítico até novembro, o verdadeiro teste ao “maior dispositivo” pode estar apenas a começar.

Esta quinta-feira, na Rádio Observador, Hugo Soares enalteceu as “capacidades políticas” de Luís Neves, “que tem sido (…) um extraordinário ministro da Administração Interna”, incluindo no elogio à “preparação da época dos incêndios no verão”. Logo a seguir, Luís Montenegro reforçou o tom de elogio à atuação do Governo em matéria de combate aos incêndios florestais, garantindo que “o dispositivo que foi montado está a responder ao desafio de diminuir o impacto dos incêndios florestais, evitando que muitos se propaguem”.

https://observador.pt/especiais/hugo-soares-nao-vejo-razao-para-uma-remodelacao/

Entre várias polémicas, a gestão dos fogos tem sido gerida pelo Executivo como um trunfo do ministro da Administração Interna. Embora o verão tenha arrancado com resultados menos animadores, a chuva de agosto alterou o cenário. Segundo dados do Relatório Provisório de Incêndios Rurais de 1 de janeiro a 15 de agosto de 2026, a área ardida no país é cerca de quatro vezes inferior à registada no mesmo período de 2025 — uma quebra de 74,7%, para um total de 56.586 hectares ardidos, quando em 2025 tinham sido contabilizados já mais de 220 mil hectares. Em comparação, desde 1 de junho deste ano registaram-se 4.154 incêndios que consumiram um total de 56.600 hectares (muito abaixo da média da última década, de 90.800 hectares).

Mas as razões que estão por trás destes números, de acordo com Carlos Trindade, são diferentes das anunciadas pelo Governo. Para o especialista em fogos, tudo tem sido uma questão de “sorte” com o estado do tempo. O especialista nota que, “este ano, o fator da meteorologia não foi, ainda assim, tão extremo”, caracterizando a época como um “verão relativamente calmo”, sobretudo a partir do início de agosto: “Em termos de índices de gravidade de incêndios florestais, não foi um ano extremo, muito longe disso.”

E grande parte deste fenómeno explica-se com três letras: DSR. Ou Daily Severity Rating, o Índice Meteorológico de Severidade Diário que mede o perigo e a gravidade potencial dos fogos, ao quantificar “a quantidade de parâmetros que estão propícios para que ocorram incêndios”. Em termos práticos, o DSR serve para responder diretamente à questão: “Dadas as condições meteorológicas e o estado de humidade dos combustíveis, quão difícil seria potencialmente controlar um incêndio que ocorresse hoje?”, resume Carlos Trindade.

Foi precisamente a moderação destes índices ao longo do verão que evitou um cenário mais gravoso, ou seja, a “sorte” com uma época menos extrema nas condições meteorológicas: “Este ano, os políticos estão com sorte. Mas vai acabar a sorte — embora espere estar redondamente enganado”, refere ainda o especialista.

O dispositivo “maior de sempre” mas que, “num ano difícil, vai falhar sempre”

A 18 de agosto, Luís Montenegro destacava que o país contaria em 2026 com “o maior de sempre”. O primeiro-ministro falava do dispositivo de combate aos incêndios rurais, garantindo que todas as forças estavam preparadas para intervir. Porém, Carlos Trindade rejeita que a dimensão do conjunto de meios operacionais seja a explicação para o balanço de área ardida até ao momento.

“O dispositivo pode servir muito bem para combater 99% dos fogos nascentes, mas o 1% que não se consegue apagar na primeira hora, ou que não se consegue apagar numa fase inicial, gera 98% da área ardida. É um dispositivo de combate que serve dentro das condições meteorológicas normais, não quando as condições meteorológicas [se tornam] mais extremas”, adverte.

Nessas situações, mesmo que estivesse montado um dispositivo com um “bombeiro para cada árvore”, perante um DSR elevado, “nada disso interessa”, porque “vai arder na mesma”. “Quando os índices estão muito altos, o sistema não serve para nada”, reforça.

O dispositivo que temos é bom. Mas é bom para um ano normal. Para um ano em que vai ser extremo, ou que tenhamos condições piores, meteorológicas, nunca vai ser suficiente. Nunca vai haver um dispositivo ideal porque o território é que tem de ser preparado”, explica Carlos Trindade, acrescentando: “Até podemos ter um dispositivo que custa mil milhões de euros. Porque, num ano difícil, ele vai falhar sempre.”

“O verão ainda está para chegar”: a ameaça do El Niño e a “probabilidade” de períodos mais críticos

No meio da “calma” até agora vivida, há um fator que pode ainda fazer tudo mudar — e tem nome: “O El Niño”.

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“O El Niño provavelmente vai-nos levar até ao mês de novembro, portanto, pela frente ainda temos três meses, setembro, outubro e, se calhar, novembro.” Carlos Trindade sublinha ainda que, “se se confirmar que está a aumentar a potência deste fenómeno, como foi noticiado, quer dizer que o verão ainda está para chegar”. Em poucas palavras, “há uma grande probabilidade” de o país ainda vir a lidar com períodos mais críticos para os incêndios este ano.

Ao olhar para as ocorrências recentes, Carlos Trindade lembra que o cenário mais grave ainda não se concretizou: “Nos incêndios deste ano em Trás-os-Montes e na zona de Valpaços, o clima estava quente sim, mas não estava extremo. E o extremo ainda vai chegar, penso que mais para o fim do mês de setembro, outubro… Aí o extremo vai chegar.”

[O diretor do SIS entra na sala de audiências e recusa cumprimentar Frederico Carvalhão Gil, com quem trabalhou durante décadas. A traição do espião abalou profundamente o Estado português e Neiva da Cruz não lhe perdoa. Em tribunal, o espião defronta os antigos colegas do SIS. E, para se defender, ataca o sistema. Nunca vai admitir o crime de espionagem. O que não significa que não seja condenado por ele. Já pode ouvir o sexto e último episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. Pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, o terceiro episódio aqui, o quarto aqui e o quinto aqui.]