E se o pior momento da nossa vida profissional tivesse sido visto por milhões de pessoas? Aquela nabice épica, aquela gralha que provocou um efeito dominó, aquela atitude que deu direito a despedimento direto? Aparentemente, o documentário da Netflix Raygun: Breaking Badly tenta fazer-nos ter empatia por alguém a quem aconteceu isso mesmo: a australiana Rachael Gunn, conhecida como Raygun, que competiu na inédita modalidade de breakdance nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024, com resultados dignos de meme. Durante uma hora de 12 minutos, somos convencidos de que qualquer um de nós podia ser Rachel, uma miúda normal e desengonçada que nunca pensou que aos 36 anos seria atleta olímpica e que acabou a lidar com o gozo internacional. Pequeno problema: dois anos volvidos, Rachel continua tão orgulhosa do seu desempenho que parece só viver noutro planeta, algures numa galáxia em que a autocrítica não existe e a crítica externa é automaticamente tida como um ataque.
Raygun: Breaking Badly faz parte da sexta temporada série de documentários Untold (em português, “Histórias do Desporto”), da Netflix, realizada pela dupla Chapman Way e Maclain Way (os mesmos de Wild Wild Country, sobre o culto de Rajneesh). Untold parte sempre de histórias de vida de atletas, mas com características incomuns. Há episódios sobre Caitlyn Jenner (que enquanto Bruce Jenner foi ouro no decatlo), sobre o facto do jogador de futebol americano Manti Te’o ter tido uma namorada falsa, sobre a batotice do xadrezista Hans Nieman e até sobre o mítico Mr. T (a estrear em breve). Neste caso, o nome do episódio é um trocadilho a partir da série Breaking Bad, mas fazendo referência à modalidade de breaking e ao facto de Rachel a ter feito, vá, mal.
A reação do público tem sido polarizada. Raygun: Breaking Badly está com 5.3 (numa escala de 0 a 10) no site IMDB. Muitos utilizadores deixam-se encantar pela normalidade de Rachel e da sua família (uns pais do mais fofinho que há e um marido super apoiante – que todos nós encontremos um amor daqueles na vida) e dão 8 ao documentário; mas outros tantos não veem ali uma história de superação, mas sim de falta de noção, e brindam com uma classificação de 1. Um dos utilizadores é particularmente certeiro na sua análise e conclui que o episódio está apenas a uma banda sonora diferente de parecer um mockumentary, estilo Popstar: Never Stop Never Stopping — ou seja, uma comédia, uma paródia.
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Para quem não tem tão presente o fenómeno (na era das redes sociais, tudo é o tema do momento durante umas semanas até cair no absoluto esquecimento), Rachael Gunn venceu em 2023 o Oceania Breaking Championship, qualificando‑se para Paris 2024, onde se tornou a primeira B‑girl australiana a competir nos Jogos Olímpicos. A sua atuação (artística, conceptual e pouco convencional) recebeu zero pontos dos juízes, tornando‑se viral e gerando críticas globais num nível extraordinário. É viral nas redes sociais, recriada como fato de Halloween, gozada em talk shows e programas de sketches (como o sketch de Jimmy Fallon com Rachel Dratch), dá azo a um meme impresso em t-shirts e até tatuado por algumas pessoas com o juízo de um caju. Até Adele fala dela nos concertos. O mundo em uníssono ri-se de uma branquelas desengonçada que rebola no chão sem grande jeito, terminando a saltar como um canguru. Aquele que é, provavelmente, o comentário mais ouvido é “vai na volta e até eu conseguia ir aos Jogos Olímpicos”. O maior certame desportivo da História, celebrizado pela excelência, vê-se reduzido a uma amadora.
Em sua defesa, Gunn não é a primeira pessoa a competir a nível olímpico mesmo com competências claramente abaixo do nível. Muitos recordaram logo Eddie the Eagle, o saltador de esqui britânico que competiu nos Jogos de Inverno de 1988 com a destreza de uma bigorna (e que deu origem a um simpático filme de 2015, com Taron Egerton e Hugh Jackman). No mesmo ano, deu nas vistas a equipa de bobsleigh (uma espécie de trenó) vinda da Jamaica (também adaptada ao cinema no clássico de 1993 Cool Runnings). Recordamo-nos ainda do guinéu-equatoriano Eric Moussambani, que mal conseguiu nadar o comprimento de uma piscina olímpica em Sidney 2000.
O que terá sido diferente com Raygun? Para começar, os exemplos anteriores deram-se antes das redes sociais. Depois, a própria considera que ser mulher teve impacto nas reações. Outros abordam o facto de ter manchado um desporto que já tinha sido alvo de contestação quando foi escolhido para figurar numas olimpíadas pela primeira ver. Mas há outra coisa que evidencia uma disparidade: Rachel continua a achar que fez uma boa prova. Num palco de pontos certos e objectividade, continua a achar-se uma artista incompreendida. O marido e treinador ainda fala, emocionado, do quão hipnotizado ficou pela belíssima prestação. Sim, a prestação que teve zero pontos.

Dois anos volvidos, Raygun ainda não assume que os Jogos Olímpicos não são propriamente um veículo de autoexpressão — são, isso sim, um palco para excelência, invariavelmente resultante de sacrifício. Na prática, a Austrália levou uma bailarina interpretativa a uma competição de ginástica. O documentário mostra a falta de força física e agilidade da atleta (eu tive sempre 3 a Educação Física, reconheço bem uma desengonçada), a tentar (e a falhar) arranjar uma powermove, um gesto tecnicamente difícil que premeie a sua coreografia. Raygun é até criticada pelos seus pares, com outras duas b-girls australianas a mostrarem-se vexadas e até ofendidas com o que aconteceu em Paris. E daí vem a dúvida: então, como raio foi Raygun a escolhida?
O documentário apresenta-se como não só uma resposta aos haters, mas também uma maneira de calar as teorias da conspiração que surgiram e que a colocavam numa posição de clara vantagem. A desmontagem destas teorias é feita de modo rápido e sucinto, respondendo a umas questões, mas deixando outras órfãs. Basicamente: foi sorte. A mulher certa na hora certa, com pouca competição e com o destaque que ser quirky (ou diferenciada) lhe dava. Mas a verdade é que o documentário não fala com ninguém que tenha estado presente nessa qualificação — nem juízes nem rivais, nem sequer público. Não há outra versão dos acontecimentos que não a da visada.
Como tantos outros documentários que passam pela Netflix, também este cai na categoria de limpeza de imagem. É bonito mostrar-nos que falhar também faz parte da vida e que se aprende muito com isso. Mas esta disneyficação em curso tira-nos o discernimento para perceber que nem tudo deve ser celebrado. Às vezes, uma naba é só uma naba.