O arranque parecia lançar a surpresa da noite em Nova Iorque. No Arthur Ashe Stadium, em plena sessão noturna, Jaime Faria entrou em court contra Carlos Alcaraz — campeão em título e número três do mundo — com a atitude de quem não ia apenas participar. Com o serviço afinado, Faria segurou os seus jogos sem dificuldade e aproveitou a única oportunidade que teve para ganhar um jogo no serviço de Alcaraz — o suficiente para fechar o primeiro set por 6-4. Flushing Meadows ficou em silêncio por um momento. Depois, viu a lei do mais forte fazer efeito no court.
Era a segunda ronda do US Open — o último Grand Slam da temporada. Quem vencesse seguia para a terceira ronda, onde, sabe-se agora, vai defrontar o chinês Wu Yibing. Para Faria, que chegava a este encontro como 72.º do ranking ATP e como o único representante português ainda em prova no quadro de singulares, a tarefa era monumental — e durante 45 minutos, pareceu estar ao seu alcance.
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A reação de Alcaraz chegou com a frieza de quem já passou por situações piores. A partir do segundo set, o espanhol, que está a regressar ao circuito após lesão no pulso — ausente desde meados de abril — elevou o nível de uma forma que não deixou margem para discussão. Venceu o segundo parcial por 6-0, o terceiro por 6-3 e o quarto por 6-2. O resultado final — 4-6, 6-0, 6-3 e 6-2 em duas horas e 40 minutos — contou a história de dois jogos diferentes dentro do mesmo encontro. Alcaraz converteu sete dos 12 break points que criou. Faria, depois de um primeiro set de enorme qualidade, viu o nível das suas pancadas diminuir com o avançar do encontro.
Faria chegou a este jogo depois de ter feito história dois dias antes: bateu o norte-americano Jenson Brooksby na primeira ronda num encontro de cinco sets (6-3, 7-6, 4-6, 1-6 e 6-2), tornando-se o terceiro português a vencer em singulares nos quatro torneios do Grand Slam numa só temporada, depois de João Sousa e Nuno Borges. A vitória sobre o Brooksby repetia o espírito do que tinha feito duas semanas antes em Cincinnati, onde, vindo da qualificação, eliminou Ben Shelton — número seis do mundo e campeão de Montreal — por 6-4 e 6-4, conseguindo a primeira vitória da carreira sobre um top 10, antes de chegar aos oitavos de final, onde foi travado por Lorenzo Musetti. Em Roland Garros, este ano, tinha chegado à terceira ronda — o seu melhor resultado na carreira num major. Em Nova Iorque, saiu da segunda com a certeza de que vai subir à sua melhor classificação de sempre, ocupando virtualmente o 68.º lugar do ranking ATP.
No túnel de jogadores do Arthur Ashe, depois do encontro, Faria foi o primeiro a fazer a análise mais honesta da noite e, em declarações ao Raquetc, leu a partida: “Tinha de jogar com uma boa percentagem de primeiros serviços e isso hoje não aconteceu, não esteve nas melhores condições e as coisas tornaram-se muito mais complicadas. Apesar disso, entrei com um muito bom primeiro set, com muita coragem e personalidade, o que não era nada fácil num campo destes, em night session e contra este jogador. Ganhei-lhe um set e estou contente por conseguir ter 45 minutos de muito boa qualidade“. Sobre o que se seguiu, foi igualmente direto: “No início do segundo set tenho uma oportunidade, mas escapa-me e a verdade é que estes jogadores agarram o pouco que têm para agarrar. Têm muita qualidade e sobem logo o nível, mas eu tenho de começar a habituar-me a isso porque é a este nível que quero chegar e quero disputar mais encontros contra estes jogadores. É uma aprendizagem muito boa”.
Do outro lado da rede, Alcaraz não escondeu o que sentiu durante o primeiro set. “Não vou mentir, queria que terminasse rapidamente, mas depois apercebi-me de que jogar quatro sets era algo muito bom para mim, porque me permitiria pôr tudo à prova fisicamente: perceber como é que o meu corpo respondia, como me sentia e como me vou sentir amanhã, depois de um encontro de quatro sets“, afirmou. O espanhol garantiu ainda não ter “razão para bater na bola a medo” e disse sentir-se “muito bem” — sinais animadores para quem está a regressar de uma lesão prolongada. Com esta vitória, Alcaraz soma a sua 16.ª vitória consecutiva em torneios do Grand Slam e a nona seguida no US Open.
A derrota de Faria deixa o quadro de singulares do US Open sem representantes portugueses. Mas Nova Iorque ainda não acabou para o tenista de Lisboa: ao lado do australiano Adam Walton, aguarda uma vaga no quadro de pares — onde também estão Francisco Cabral e Nuno Borges. Uma pequena consolação para uma noite que, nas suas próprias palavras, vai ficar como aprendizagem. E que poderá servir de combustível para o que aí vem.