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Primeiros namoros. Falar com os filhos ou esperar que eles contem?

Os primeiros namoros dos filhos trazem novas dúvidas para os pais: quanto devem perguntar, aconselhar, proteger ou deixar acontecer? E proibir, alguma vez é solução?

Sofia Teixeira
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Inês Correia
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Há um momento em que os pais percebem que alguma coisa nova se passa na vida dos filhos, embora ninguém lhes tenha comunicado isso oficialmente. As idas ao espelho antes de sair de casa demoram o dobro do tempo, os sorrisos a olhar para o telemóvel tornam-se mais frequentes e há um nome novo que começa a aparecer frequentemente nas conversas. É assim, muitas vezes, que os pais dão por aquela novidade que marca uma pequena revolução na vida dos filhos: o primeiro namoro. É também aí que começam as dúvidas: perguntar ou esperar que contem? Dar opiniões ou limitar-se a ouvir? Falar de sexo, consentimento, limites e desgostos amorosos ou esperar que sejam eles a puxar esses assuntos?

A maioria dos estudos sobre relações românticas na adolescência aponta para os 13 aa 15 anos como a faixa etária mais comum para os primeiros namoros. Alguns estudos mostram também que os adolescentes não escondem necessariamente o namoro, mas escolhem cuidadosamente o que contam: tendem a falar sobre quem é o namorado ou namorada e sobre a relação, mas pouco sobre intimidade e sexualidade.

No entanto, aquilo que cada um partilha ou não com os pais varia conforme a relação que existe e foi sendo construída até aí. “Um adolescente que construiu um vínculo seguro face aos seus cuidadores tende a sentir-se mais confortável a partilhar informação sobre a sua vida amorosa, precisamente porque já experienciou ao longo da vida que a proximidade com os pais não é ameaçadora, nem controladora”, diz a psicóloga clínica e psicoterapeuta Sílvia Coutinho. Pelo contrário, acrescenta, se os pais até aí “reagiram com ansiedade excessiva ou intrusão face a outras partilhas (como notas escolares, dificuldades ou amizades)”, o adolescente poderá ter aprendido a não procurar essa proximidade, por antecipar uma resposta pouco empática.

Apesar destas diferenças, quando os pais percebem que existe uma relação amorosa, “o silêncio total poderá ser lido pelo adolescente como desinteresse, mas, por outro lado, o confronto direto e excessivo poderá ser interpretado como intrusão” pelo que o ideal é uma abordagem que se situe a meio caminho este estes dois extremos.

Quando há zangas ou ruturas que fazem o adolescente sofrer, frases como “isso passa” podem fazê-lo sentir-se sozinho e incompreendido. O ideal, nestas ocasiões, passa por “validarem as emoções do seu filho”, disponibilizando-se para ouvir e conversar e, ao mesmo tempo, “estar atento e ajudar a manter rotinas básicas como sono, alimentação e escola” diz a psicóloga Sílvia Coutinho. Não é preciso apressar o jovem a “ultrapassar” o desgosto ou a concluir o luto amoroso antes de estar preparado.

Apesar de a primeira relação sexual habitualmente só acontecer anos depois do início dos primeiros namoros, a psicóloga defende que as conversas sobre sexualidade devem ser “curtas e frequentes”, ao longo de toda a infância e adolescência, sendo ajustadas à idade. Na altura em que começam a namorar, faz sentido questionar o jovem sobre o que já sabe e as dúvidas que tem, mas podem e devem ser abordados temas como o consentimento, a violência no namoro e as relações abusivas, a contraceção e as infeções sexualmente transmissíveis, dando, sempre que possível, recursos concretos para que o adolescente saiba onde procurar informação fiável. “A ciência indica que crianças e jovens que têm acesso a educação sexual iniciam a vida sexual mais tarde e de forma mais responsável e consciente”, diz a especialista.

Com os primeiros namoros vêm também os primeiros desgostos amorosos, que podem ser muito intensos  e esta é outra preocupação dos pais. “Embora o corpo do adolescente já tenha crescido muito, o córtex pré-frontal ainda se encontra em processo de maturação. Isto significa que, nesta etapa do neurodesenvolvimento, as emoções são vividas com uma intensidade genuinamente maior, e a capacidade de as regular ainda está em construção.”

Quando há zangas ou ruturas que fazem o adolescente sofrer, frases como “isso passa” podem fazê-lo sentir-se sozinho e incompreendido. A postura ideal nestas ocasiões passa, por um lado, por “validarem as emoções do seu filho”, disponibilizando-se para ouvir e conversar e, ao mesmo tempo, “estar atento e ajudar a ir mantendo as rotinas básicas, como o sono, a alimentação e as idas à escola.” Não é preciso apressar o jovem a “ultrapassar” o desgosto ou a concluir o luto amoroso antes de estar preparado.

Para equilibrar a segurança dos filhos com a sua autonomia, Sílvia Coutinho deixa algumas sugestões:

  • Gerir a própria ansiedade: se a primeira reação for de pânico ou excesso de perguntas, o adolescente aprende rapidamente que partilhar poderá ter um determinado custo emocional e pode começar a filtrar aquilo que conta;
  • De forma leve e não insistente, deixar clara a disponibilidade para conversar sobre o tema, dizendo, por exemplo: “Não precisas de contar nada se não quiseres, mas quero que saibas que estou aqui se quiseres falar”;
  • Evitar a vigilância e o controlo da intimidade e privacidade dos filhos — por exemplo, ler as suas mensagens às escondidas ou segui-los nas redes sociais através de perfis falsos. Isso poderá comprometer a confiança e ser destrutivo para a relação;
  • Definir os limites com base na segurança do jovem e não no seu controlo: saber com quem estão, onde estão e negociar o horário de regresso é diferente de exigir saber tudo sobre a vida do adolescente;
  • Negociar as regras em vez de as impor: quando o adolescente participa na construção das normas, tende a cumpri-las melhor e há menos conflito;
  • Conversar e estar atento a sinais de alerta de relações tóxicas e violência no namoro, como o isolamento progressivo em relação a amigos e família, o controlo sobre roupa, redes sociais, atividades ou tempo ou ciúmes apresentados e aceites como prova de amor;
  • Em caso de desgosto amoroso, não minimizar o sofrimento, estar disponível para ouvir, ajudar a manter as rotinas e estar atento a possíveis sinais de alarme, como isolamento prolongado, perda de interesse generalizada ou alterações significativas no sono, apetite ou rendimento escolar.