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(A) :: A caminho das eleições em Israel, ataques de colonos na Cisjordânia disparam. Preocupação de Telavive será "um grande teatro de Netanyahu"?

A caminho das eleições em Israel, ataques de colonos na Cisjordânia disparam. Preocupação de Telavive será "um grande teatro de Netanyahu"?

Com sondagens desfavoráveis, Netanyahu e o partido Likud precisam de apelar ao voto conservador e expandir ocupação da Cisjordânia até à ida às urnas. Oposição critica "cumplicidade" com a violência.

Madalena Moreira
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Os colonos israelitas chegaram à vila de Qusra no início de agosto. Cortaram a água e a eletricidade em pelo menos três casas e bloquearam entradas e saídas da localidade. “Tememos pela nossa segurança. Os colonos movem-se livremente à volta da nossa casa e atacam os residentes das casas mais próximas”, relatou Loui Abu Ridi, um habitante palestiniano de Qusra, à Al Jazeera, ao fim de 21 dias de “cerco”. “Não dormimos, ficamos acordados à noite a ver as câmaras de segurança porque os colonos podem atacar a qualquer momento“, continuou. O ataque que antecipava chegou no passado sábado, dia 29 de agosto: dezenas de colonos entraram numa das casas e atacaram as pessoas que estavam lá dentro.

“Não há nada de novo no que está a acontecer em Qusra”, apontou Yair Dvir, da organização israelita B’Tselem, à Al Jazeera. Os ataques de colonos israelitas estão longe de ser inéditos. Porém, no último ano, a violência contra palestinianos na Cisjordânia tomou proporções históricas. Segundo o gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, registaram-se, em 2025, 1.836 ataques de colonos, mais do dobro dos 852 ataques registados em 2022. O cerco em Qusra gerou uma onda de condenação internacional, cada vez mais atenta aos desenvolvimentos na Cisjordânia.

Porém, o ataque de sábado motivou também uma condenação mais improvável: a do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. “É um grande teatro, estes anúncios de estarem surpreendidos e a fazerem alertas sobre a violência dos colonos”, argumenta Michael Milshtein ao Observador. “Não é sério porque eles estão por trás da maior parte destas coisas”, aponta o analista do Centro Moshe Dayan para Estudos Africanos e do Médio Oriente, da Universidade de Telavive.

A responsabilização do Executivo pela escalada da violência na Cisjordânia tem duas facetas. Por um lado, o Governo é responsável pelas forças de segurança, acusadas por palestinianos e grupos de defesa dos Direitos Humanos, como contribuindo para os ataques, quer diretamente, quer através da defesa dos colonos. Por outro lado, o Executivo de Netanyahu é responsável pela maior extensão dos colonatos na História do Estado de Israel. Segundo um relatório das organizações Peace Now e Kerem Navot, os colonatos ocupam hoje 18% da Cisjordânia e quase um terço destas terras foram ocupadas apenas em 2025.

Neste contexto, a questão da Cisjordânia foi atirada para o centro da campanha eleitoral para as legislativas, que se realizam no dia 27 de outubro, com o tema a ocupar as campanhas dos partidos de extrema-direita, mas também do Likud de Netanyahu, numa luta pelos votos dos setores mais conservadores da sociedade israelita. Contudo, a proximidade das eleições também ajuda a explicar o acelerar da violência dos colonos e da expansão dos colonatos em si mesmas. Nas palavras de ativistas israelitas, colonos (e membros do Governo) querem “mudar os factos no terreno” e consolidar a ocupação israelita da Cisjordânia antes da ida às urnas.

“Não vai haver Estado palestiniano”. Como a retórica da extrema-direita tomou conta de Israel

O colonato E1 ainda não foi construído e é já um dos mais conhecidos das centenas de colonatos israelitas na Cisjordânia — construções ilegais à luz do Direito Internacional, uma vez que representam uma violação dos Acordos de Oslo e da soberania territorial palestiniana. O plano para o E1 prevê a construção num território de doze quilómetros quadrados entre Jerusalém Oriental e o colonato de Maale Adumim o que, na prática, dividiria o maior dos dois territórios da Palestina em dois e é um alvo frequente de críticas da comunidade internacional.

O plano foi anunciado em agosto do ano passado pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que, à data, declarou que “o Estado palestiniano está a ser varrido da mesa, não com slogans, mas com ações”. Um ano depois, a questão dos colonatos tornou-se “o tema mais proeminente da campanha do Sionismo Religioso, o partido de Smotrich”, declara Michael Milshtein. “É talvez a única coisa de que ele pode estar orgulhoso é o facto de ter promovido uma grande expansão dos colonatos na Cisjordânia e de ter sido bem-sucedido na prevenção do estabelecimento do Estado palestiniano”, elabora.

A sentença de morte da solução de dois Estados não é assinada pelo especialista israelita, mas pelo próprio primeiro-ministro que, em setembro do ano passado, afirmou, sem deixar margem para dúvidas, que “não vai haver um Estado palestiniano”. Em plena campanha eleitoral para as legislativas, o tema foi definido por Smotrich como prioritário, algo evidente nos anúncios “quase diários” que tem feito relativos à construção de novos colonatos ou a estradas e outras infraestruturas de apoio a estas construções.

"Parece que há uma espécie de competição entre o Likud e o Sionismo Religioso sobre quem está a promover mais coisas e a contribuir mais para os projetos na Cisjordânia."
Michael Milshtein, analista do Centro Moshe Dayan para Estudos Africanos e do Médio Oriente da Universidade de Telavive

Smotrich não é o único colono israelita no Executivo de Netanyahu, que conta ainda com Itamar Ben Gvir à frente da pasta da Segurança Nacional. A chegada dos dois ultra-radicais ao Governo elevou os colonos de mero grupo de pressão a detentores do poder político e transformou as suas reivindicações extremistas em ideias padrão da direita israelita. Esta mudança é visível na narrativa do Likud, de Netanyahu, a caminho das eleições. No último mês, o Executivo anunciou a abertura do concurso público para a construção do colonato E1, concurso que estará aberto até ao dia 19 de outubro, menos de duas semanas antes das eleições, e ordenou a transferência das competências de segurança na Cisjordânia ocupada do Exército para a polícia israelita — a autoridade responde perante o Ministério de Ben Gvir, que celebrou a ordem como uma medida para fortalecer a “soberania israelita”.

Apesar de integrarem o mesmo Governo, Ben Gvir, Smotrich e Netanyahu integram três partidos que concorrem às legislativas de forma separada — pelo Otzma Yehudit, o Sionismo Religioso e o Likud respetivamente. “Parece que há uma espécie de competição entre o Likud e o Sionismo Religioso sobre quem está a promover mais coisas e a contribuir mais para os projetos na Cisjordânia”, avalia Michael Milshtein.

Ocupação, construção e até anexação com prazo até às eleições

A família de Ahmad Abu Mayala é uma das muitas dezenas que, nos últimos meses, foi alvo de ataques dos colonos. “Fomos a muitos advogados mas todos disseram que não há nada que possam fazer, uma vez que o Governo está do lado dos colonos. Eles disseram: ‘Esperem pelas eleições para ver se há uma mudança de Governo. Talvez eles façam alguma coisa‘”, relatou o homem palestiniano ao The Guardian. Doron Meinert, antigo coronel do Exército israelita que trabalha agora na organização Looking Occupation in the Eye, duvida que as eleições tragam uma mudança significativa: “Mesmo que o atual Governo saia do poder, o novo governo não será um governo de esquerda”, sintetizou em entrevista à New Yorker.

O fim do Governo de Netanyahu é uma hipótese alimentada pelas sondagens, que colocam o Likud em segundo lugar, com 21 deputados, atrás do Yashar, de Gadi Eisenkot, com 22 deputados. Mesmo analisadas as possíveis coligações das duas forças, o bloco do general cujo filho morreu na ofensiva na Faixa de Gaza aparece à frente nas sondagens. Mas a queda de Netanyahu não significa uma viragem à esquerda, como ressalva Doron Meinert. A direita continua a ser predominante e é aí que o Likud procura ganhar votos, apostando em medidas mais extremistas e mais apelativas para os setores ultra-religiosos da sociedade israelita.

Por outro lado, a mera possibilidade de perderem o poder ajuda a explicar o acelerar das ações dos membros do Executivo na Cisjordânia. A ocupação de terras palestinianas, a execução de concursos públicos para a construção de colonatos e a transferência de competências são tudo medidas que aprofundariam o controlo prático de Israel sobre os territórios palestinianos e que, portanto, seriam mais difíceis de reverter sob um novo Executivo. Aliás, o próprio Smotrich definiu as eleições como prazo para “agir na Judeia e Samaria [o nome utilizado pelos grupos ultra-religiosos para se referirem à Cisjordânia] e para declarar soberania [de Israel] sobre o território”.

Para os setores extremistas, fica a faltar apenas a anexação da Cisjordânia. “O povo israelita está grato e espera que todas as ações maravilhosas de soberania de facto sejam seladas com uma soberania de jure, isto é, um voto, antes das eleições, para a aplicação da soberania israelita”, declarou Nadia Matar, diretora do Movimento da Soberania, uma organização israelita pró-anexação, à publicação norte-americana JNS, favorável a Israel.

Irit Katz, professora em Cambridge e ativista num grupo de israelitas sediados no Reino Unido, aponta, num artigo de análise, como o contexto internacional também ajudou a criar um enquadramento perfeito para os colonos e os grupos extremistas israelitas agirem antes das eleições. “O foco da atenção internacional mudou desde o fim de fevereiro para o Irão e o Líbano“, escreve, apontando a redução do escrutínio sobre as ações de Telavive contra a Palestina.

A atenção internacional também é relevante na equação numa outra dimensão: Netanyahu é alvo de um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional devido a crimes contra a Humanidade cometidos na Faixa de Gaza, Smotrich e Ben Gvir estão proibidos de entrar em pelo menos uma dezena de países e são alvo de sanções devido às suas ações na Cisjordânia. A perda dos cargos ministeriais representaria o fim da última camada de peso e proteção diplomática que os seus nomes ainda podiam ter.

“Uma mão cheia de agitadores” ou milhares de israelitas a perpetrar “terror judeu”?

No mesmo dia em que colonos israelitas invadiam uma casa palestiniana em Qusra, apenas três quilómetros a sul, em Jalud, uma equipa da NBC News era atacada durante uma entrevista na localidade palestiniana. “Subitamente, um carro aproximou-se. Os colonos tinham paus. Eu vi uma arma, mas eles não utilizaram a arma”, relatou a produtora Lawahez Jabari ao canal. Nesse mesmo dia, Netanyahu condenava os dois ataques, caracterizando os colonos como “uma mão cheia de agitadores a violar a lei, causando uma grande injustiça à comunidade judaica cumpridora da lei, interferindo com a execução das operações das IDF e ferindo a reputação de Israel no mundo”.

https://twitter.com/MattMcBradley/status/2094107184682447139

Apesar da atenção que a direita tem dado às reivindicações da extrema-direita, a verdade é que estas são expressivas, mas estão longe de ser consensuais. Um estudo do Jewish People Policy Institute (JPPI), publicado no passado dia 13 de agosto, revela que o futuro da Cisjordânia divide a população israelita. 38% dos israelitas judeus inquiridos defenderam a anexação da Cisjordânia, enquanto 35% defenderam a separação do território, 22% apontaram que se devia proceder à deslocação da população árabe para outros países e apenas 21% apoiaram o reconhecimento do Estado da Palestina nas áreas de maioria árabe.

Esta divisão interna da sociedade israelita ajuda a perceber a rara condenação de Netanyahu: mesmo que os seus eleitores alvo estejam mais à direita, não se pode dar ao luxo de alienar outras fações. “Estes hooligans não representam os colonos, são criminosos que dão aos colonos um mau nome. E [Netanyahu] não depende de criminosos para se manter no poder”, argumentou Ruthie Blum, jornalista e antiga conselheira do primeiro-ministro. A caracterização destes colonos como “agitadores” já tinha sido feita em março, numa carta enviada pelo comandante do Comando Central Avi Balut, às autoridades israelitas na Cisjordânia. “Este grupo leva a cabo atos violentos e cria fricções deliberadas que algumas vezes terminam em baixas. É importante salientar que além de estas ações serem ilegais e imorais, constituem um perigo real para a estabilidade”, alertou, na carta citada pela KAN.

"Não estamos a falar de alguns colonos. Estamos a falar de milhares de colonos que promovem estes confrontos violentos. Aliás, podemos utilizar [a expressão] 'terror judaico' para nos referirmos às coisas que eles estão a fazer."
Michael Milshtein, analista do Centro Moshe Dayan para Estudos Africanos e do Médio Oriente da Universidade de Telavive

No entanto, os críticos de Netanyahu discordam da caracterização que as autoridades oficiais têm feito destes perpetradores. “Não estamos a falar de alguns colonos. Estamos a falar de milhares de colonos que promovem estes confrontos violentos. Aliás, podemos utilizar [a expressão] ‘terror judaico’ para nos referirmos às coisas que eles estão a fazer”, pondera Michael Milshtein. O investigador da Universidade de Telavive não está sozinho nesta linha de argumentação. Esta mesma expressão, a par com a de “limpeza étnica”, são utilizadas numa carta enviada em junho ao Governo, assinada por mais de 200 israelitas proeminentes, incluindo antigos chefes de Governo, comandantes das Forças Armadas, diplomatas e rabis, noticiou o New York Times, numa investigação publicada na semana passada.

Em causa está não apenas a negligência do Governo em fazer frente à escalada de violência, mas a sua cumplicidade com essa mesma escalada, acusam. O envolvimento de Telavive inclui a utilização de fundos públicos para construir colonatos, mas também para financiar estradas, instalação de água e eletricidade em colonatos não aprovados e pagar veículos e armas aos colonos e ainda as ordens diretas para a polícia, o Shin Bet e o Exército não intervirem em casos de violência de colonos contra palestinianos e, em último caso, participarem nos ataques ao lado dos colonos.

Algumas vozes tentam, mas israelitas ainda não querem falar sobre “o problema palestiniano”

Yaakov Or passou a maior parte da sua carreira nas Forças Armadas israelitas na Cisjordânia. Foi já reformado que assistiu à atual escalada de violência e decidiu agir, sensibilizando os seus pares para o assunto. Uma das formas de o fazer é levando antigos generais às localidades palestinianas atacadas, para verem as consequências dos ataques pelos seus próprios olhos. O New York Times, na investigação acima mencionada, acompanhou uma destas visitas.

Foi aí que o jornal norte-americano falou com Eyal Ben-Reuven. O general reformado lutou na Guerra do Yom Kippur, na invasão do Líbano em 2006 e liderou um comando na Cisjordânia. Apesar do longo histórico de violência militar na história de Israel na qual participou, Ben-Reuven mostra-se emocionado e revoltado com a atual situação na Cisjordânia — e aponta os casos de violência como o maior perigo para o Estado de Israel. “Isto, o que os colonos estão a fazer aqui, é a verdadeira ameaça a Israel. Isto é mais preocupante para mim do que o Irão, Gaza ou o Líbano“, declarou ao New York Times.

Doron Meinert, o coronel reformado que trabalha com o grupo Looking Occupation in the Eye, faz uma avaliação muito parecida, salientando a mudança na sua forma de olhar para “o problema palestiniano e o problema da ocupação”. A preocupação destes antigos generais traduz-se na forma como tentam sensibilizar o resto da sociedade israelita — principalmente a caminho das eleições. “Tentamos colocar muita atenção mediática no assunto e protestar dentro de Israel”, referiu Meinert à New Yorker.

Questionado sobre o impacto que estas iniciativas poderão ter na mudança da opinião pública israelita — e, consequentemente, no resultado das eleições — Michael Milshtein mostra-se cético sobre o seu peso. “Há um grande dilema entre os israelitas porque parece que ainda estamos a sentir o grande impacto do trauma do 7 de Outubro. O que quero dizer é que as pessoas aqui em Israel não querem ver os árabes, não querem ouvir os árabes. Não estão prontas para discutir sobre o futuro do Estado palestiniano“, elabora. A referência ao 7 de Outubro surge numa coluna de opinião do portal Ynet em que a colunista Ruth Elbaz questiona “como é possível que estejamos a discutir que tema vai marcar a próxima eleição, enquanto o pior evento que já aconteceu está a passar para segundo plano?”.

Michael Milshtein critica esta abordagem, defendendo que, principalmente depois do 7 de Outubro, tornou-se ainda mais imperativo “lidar com o problema palestiniano”. O investigador salienta Yair Golan, líder dos Democratas, que ocupam o quarto lugar nas sondagens, como o único político israelita que fala diretamente sobre “os palestinianos”. Contudo, os olhares dos candidatos sobre o futuro são limitados e desfasados das exigências da comunidade internacional, que continua a condenar as ações israelitas sobre a Palestina e a exigir a aplicação da solução de dois Estados. Em Israel, a campanha faz-se exclusivamente para dentro, uma característica visível na preferência pelos apelos à anexação em detrimento do diálogo com a Palestina.