No dia 7 de setembro de 1996, o rapper norte-americano Tupac Shakur foi baleado quatro vezes, sentando num carro que atravessava Las Vegas. Um crime que, tudo indica, foi motivado por lutas de gangues e por um conflito aceso entre editoras (e grupos) de hip-hop concorrentes, e que teve um impacto notável na história da cultura popular.
Tupac não resistiu aos ferimentos, tendo o seu óbito sido declarado seis dias depois, a 13 de setembro. A morte precoce do rapper, que tinha apenas 25 anos, promoveu-o ao panteão das grandes estrelas americanas e deu azo a um mistério que a justiça se tem esforçado por resolver nos últimos 30 anos.
Na segunda-feira 31 de agosto, o tribunal de Las Vegas considerou Duane “Keffe D” Davis, líder de um gangue muito ativo na Califórnia durante os anos 90, culpado pelo assassinato de Tupac. Com base em provas que o próprio réu disponibilizou ao longo dos anos, entre as quais testemunhos que prestou à polícia em 2008 e um livro de memórias que ele mesmo escreveu, a acusação conseguiu incriminar o único passageiro sobrevivente do Cadillac identificado como a origem da chuva de balas que matou o rapper nova-iorquino — ainda que a justiça tenha deliberado que não foi Davis quem premiu o gatilho.
Sem sentença definida (a audiência do tribunal está agendada para 13 de outubro), o homem de 63 anos pode receber prisão perpétua e admite recorrer da decisão, uma vez que nega a validade de afirmações que ele próprio fez e as acusações que lhe são imputadas.
Um caso envolto em muitas incógnitas, e que fez da respetiva figura central muito mais do que uma figura do hip hop, parece chegar ao fim a uma semana do trigésimo aniversário da fatídica noite em Las Vegas. Com algumas pontas soltas apesar da resolução do tribunal, o que ainda permanece por responder?
Tupac: justiceiro social e ícone da Thug Life
Filho de militantes do Black Panther Party — organização fundada em 1966, que assumia a defesa dos direitos da população negra dos EUA como bandeira, profundamente inspirada no ativismo radical de Malcolm X — Tupac Amaru Shakur nasceu no bairro de Harlem, Nova Iorque, em 1971. A inclinação política que já pulsava nas veias do jovem juntou-se a uma vocação artística derramada no primeiro álbum 2Pacalypse Now — que vendeu 920.000 cópias desde o lançamento, em 1991. O sucesso musical instantâneo inspirou também participações no cinema, como aconteceu em Juice (1992) — um êxito de bilheteiras tornado filme de culto, sobre o quotidiano de quatro jovens do Harlem que se envolvem num assalto com um desfecho dramático.
Durante os cinco anos que passou sob as luzes da ribalta, Tupac lançou mais três álbuns extremamente bem-sucedidos — Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z… (1993), Me Against the World (1995) e All Eyez on Me (1996) — e protagonizou vários filmes, como Poetic Justice (ou Sem Medo no Coração, na versão portuguesa), que contracenou com Janet Jackson em 1993, e Above the Rim (1994).
Escrutinado pelos media durante a vida e também postumamente, fez títulos nos tabloides pelas relações amorosas que manteve, das quais se destaca a ligação (agora pouco) secreta com Madonna — que Tupac terminou através de uma carta escrita a partir da prisão. O documento, que foi vendido em 2017 por mais de 170.000 dólares (aproximadamente, 146.000 euros), dava conta das preocupações de ordem racial do rapper, que temia perder fãs por manter uma relação com uma mulher branca e mais velha. “Seres vista com um homem negro não seria uma ameaça à tua carreira, pelo contrário, far-te-ia parecer mais aberta e entusiasmante”, escreveu Tupac. “[Mas] sinto que, pela ‘imagem’ que cultivei, eu estaria a desapontar metade das pessoas que fizeram de mim aquele que penso ser.”

Apesar da excelência que muitos reconhecem na sua discografia e que conduziu a uma nomeação póstuma ao Rock and Roll Hall of Fame (em 2017), a vida do rapper não esteve protegida de escândalos e da violência que muitas vezes narrava na sua música. Com um tom confrontacional, denunciou o que descrevia como prepotência das autoridades, racismo sistémico, pobreza, conflitos entre gangues e problemas de adição.
Mas a atitude de justiceiro social não o poupou de uma fama de thug (bandido), cultivada pelo próprio. Criou o conceito de “Thug Life“, expressão que tatuou no abdómen, como uma filosofia enraizada nas vivências das comunidades marginalizadas — e não na apologia do crime. O acrónimo (T.H.U.G. L.I.F.E.) significa “The Hate U Give Little Infants Fucks Everyone” e pretende denunciar a negligência sistémica e os maus-tratos às crianças, que devem ser combatidos a todo o custo, a fim de preservar a dignidade, autodeterminação e sobrevivência das comunidades mais oprimidas, em particular da comunidade negra.

Tupac fez frente ao crime gratuito, mas também foi visado pela justiça na sequência de um caso de violação, no qual sempre rejeitou estar envolvido. “Nunca matei ninguém, nunca violei ninguém e nunca cometi crimes que não fossem honrosos — que não fossem motivados pela necessidade de me defender”, confessou à revista VIBE, numa longa entrevista que deu na prisão, onde cumpriu uma pena reduzida de nove meses em 1995.
Inicialmente condenado a pelo menos um ano e meio, viu a estadia no estabelecimento de Clinton, Nova Iorque, encurtada por iniciativa de Marion “Suge” Knight, que pagou 1,4 milhões de dólares (atualmente, 1,2 milhões de euros) para o libertar. Depois disso, o produtor musical e fundador da Death Row Records agenciou Tupac, que se tornou representante do hip-hop originário da Califórnia.

Essa decisão tornou-o protagonista de um conflito com diss tracks à mistura, isto é, canções em que insultava rivais da indústria — uma tradição muito própria do hip-hop. Um dos músicos interpelados com mais frequência foi The Notorious B.I.G., morto seis meses depois de Tupac e em circunstâncias idênticas.
A amizade entre 2Pac e Biggie Smalls — nomes pelos quais também eram conhecidas as duas figuras mais prometedoras do hip-hop no início dos anos 90 — transformou-se numa rivalidade sem precedentes na história da música e que culminou na morte de ambos os rappers, como possível consequência de um conflito entre as costas Este e Oeste dos EUA (em que P. Diddy esteve envolvido).
https://observador.pt/especiais/os-sucessos-as-polemicas-as-acusacoes-e-a-prisao-ascensao-e-queda-de-um-magnata-chamado-sean-diddy-combs/
Los Angeles vs. Nova Iorque: o feud mais trágico do hip-hop
No início da década de 1990, Sean Combs — também conhecido pelos nomes P. Diddy, Puff Daddy e Puffy e, entretanto, por uma série de escândalos pelos quais cumpre pena de prisão — ganhou notoriedade em Nova Iorque como produtor e empresário de hip-hop. Através da Bad Boy Records, aproximou-se de muitos músicos relevantes na indústria, entre os quais The Notorious B.I.G., que começou a assinar em 1993.
Em novembro de 1994, Tupac foi vítima de uma tentativa de homicídio na sequência de um assalto que sofreu quando entrava num estúdio de gravações em Manhattan. À revista VIBE, o rapper contou que foi atacado por dois homens no lobby do edifício que roubaram as suas joias, o agrediram com pontapés e murros, e o balearam cinco vezes. “Pensei que me tinham pisado ou atingido com a coronha da pistola, enquanto batiam com a minha cabeça contra o betão. Eu não ouvia nada, não sentia nada […] estava tudo branco”, recordou o músico, meses após o atentado.
Tupac imputou o ataque aos membros da Bad Boy Records, que estavam no estúdio durante o assalto e não foram em seu socorro quando apareceu ferido, além de exibirem um comportamento suspeito. “O Andre Harrell [executivo da indústria musical e mentor de Sean Combs] estava lá, o Puffy estava lá, o Biggie… estavam uns 40 tipos lá. Todos tinham joias. Mais joias do que eu”, explicou Tupac a partir do complexo prisional da ilha de Rikers, em Nova Iorque. “Vi o [produtor Chuckii] Booker e ele pareceu surpreendido por me ver. Porquê? Eu tinha acabado de tocar à campainha e de avisar que ia subir.”

Apesar de negarem as acusações de orquestração do assalto, Sean Combs e The Notorious B.I.G. tornaram-se vítimas frequentes dos insultos que Tupac cuspia nas suas canções. Em 1995, o rapper juntou-se à editora de Marion Knight, a Death Row Records, sediada em Los Angeles e rival da Bad Boy, o que originou uma escalada das tensões. Segundo rumores que corriam na época, Combs esteve relacionado com o homicídio de um amigo de Knight em Atlanta, um dos motivos que instigou o produtor musical, conhecido pela alcunha de Suge, a insultar Puffy publicamente, na edição de 1995 dos Source Awards.
Em 1996, Tupac lançou o tema Hit ‘Em Up, cuja letra ameaça explicitamente Combs, Biggie e todos os artistas e apoiantes da Bad Boy Records: “Cinco tiros não me derrubaram, eu levei-os e sorri/Agora voltei para esclarecer as coisas”, dizem os versos, que exibem de forma clara a disputa entre a costa Este, representada por The Notorious B.I.G. e companhia, e Oeste, onde estava sediada a Death Row.
“É bom que se afastem, antes que levem uma sova/É assim que fazemos as coisas deste lado/Tipos de Nova Iorque, se querem lutar, venham/Mas nós não vamos cantar, trazemos drama […] Vamos matar-vos a todos, filhos da puta”. A retórica é bastante mais violenta do que a da canção que Biggie lançou em 1994, Who Shot Ya?, que, apesar de troçar de Tupac e fazer referência à rixa com a costa Oeste, não menciona o nome de nenhum artista.
Com a intensificação das hostilidades, ambas as editoras começaram a mobilizar gangues rivais, que atuavam na Califórnia. A Death Row tinha a proteção dos Mob Piru Bloods e a Bad Boy dos South Side Compton Crips, que promoviam a segurança dos respetivos rappers e produtores sempre que viajavam para a costa “inimiga”. Duane Davis era membro do segundo gangue.
Morte de Tupac e a condenação de Davis
No dia 7 de setembro, os dois lados da disputa marcaram presença no mesmo evento, em Las Vegas: um combate entre os lutadores de boxe Mike Tyson e Bruce Seldon. Segundo declarações prestadas por Davis, Tupac e Suge Knight espancaram o seu sobrinho, Orlando Anderson, no dia anterior — o que foi comprovado em tribunal através das imagens de videovigilância do local.
“O facto de terem atacado o meu sobrinho, deu-nos luz verde para dar cabo deles. O [Tu]Pac meteu-se no jogo errado”, escreveu Davis no livro de memórias Compton Street Legend (2019), no qual relata este e outros episódios relacionados com as lutas entre gangues e a oposição entre as costas Este e Oeste. O The New York Times dá conta de que Davis adquiriu uma pistola Glock e juntou um grupo de gangsters com o objetivo de “ensinar uma lição” a Tupac e ao seu produtor.
O confronto fatal aconteceu quando o par da Death Row esperava pela mudança de luz de um semáforo na Las Vegas Strip, uma das principais avenidas da cidade. Dentro de um Cadillac branco — que nunca foi descoberto pelas autoridades, assim como a arma do crime —, Davis e outros três membros dos Compton Crips encostaram ao BMW preto que transportava Tupac e Knight. Uma rajada de balas proveniente dos bancos de trás atingiu a dupla, sendo que quatro dos projéteis ficaram incrustados no corpo do rapper — imediatamente transportado para os cuidados intensivos do University Medical Center, onde acabou por morrer de insuficiência respiratória e paragem cardíaca seis dias depois.

Dos quatro ocupantes do Cadillac, nenhum está vivo à exceção de Davis. Segundo declarações que o condenado prestou à polícia, foi o seu sobrinho, Orlando Anderson, quem abriu fogo contra o BMW, apesar de este sempre ter negado o envolvimento no crime até à data da sua morte, em 1998, num tiroteio entre gangues não relacionado. Outros testemunhos sugerem que foi um segundo homem, Deandrae Smith, também ele passageiro do veículo, quem disparou os tiros fatais.
Com base nas provas apresentadas no tribunal, o juiz Carli Kierny declarou Davis culpado de ordenar o atentado em Las Vegas e de providenciar a arma de fogo utilizada. Após a condenação desta segunda-feira, segue-se a decisão da justiça sobre a sentença a aplicar (agendada para dia 13 de outubro), que, de acordo com a legislação em vigor no Nevada para homicídio qualificado, pode oscilar entre os 40 anos e a prisão perpétua. Num estado onde a pena capital é permitida, a possibilidade foi excluída pelos procuradores encarregados do caso, que também abandonaram voluntariamente a iniciativa de agravar a pena de Davis por pertencer a um gangue.
Após 30 anos de investigação, todos os caminhos conduzem a Duane Davis
Pode dizer-se que Duane Davis cavou a própria sepultura. Segundo o procurador Marc di Giacomo, envolvido no processo e citado pelo The New York Times, “se ele nunca tivesse decidido pegar no dinheiro, dirigir-se à BET [editora da Black Entertainment Television] e falar sobre a sua situação, se ele nunca tivesse decidido escrever o livro, provavelmente jamais teria sido acusado do crime“.
Mas os investigadores começaram a suspeitar de Davis muito antes do lançamento de Compton Street Legend, em 2019. Em 2008, o sujeito agora condenado foi interrogado pela polícia na sequência de um caso de tráfico de droga, pelo qual podia receber prisão perpétua. Na altura, o gangster fez um acordo com as autoridades e tornou-se informador da polícia, a fim de se esquivar de subsequentes acusações criminais — à época, Davis já tinha um cadastro preenchido e uma vasta experiência no cárcere.
Nessa circunstância, contou aos investigadores que o homicídio de Tupac não resultou de um mero conflito entre gangues, mas de um pedido explícito de Sean Combs, conhecido como Diddy, que rejeitou completa e terminantemente as acusações. “O mal-entendido existe porque, como somos jovens e negros, lidamos com estes assuntos de forma diferente”, disse Combs numa entrevista de televisão que deu em 1998.

Davis nunca recebeu dinheiro pelo alegado pedido de Combs e também não foi levado a tribunal pelas declarações prestadas em 2008, na sequência do acordo estabelecido com a polícia — que determinava que a informação transmitida no interrogatório não podia ser usada contra ele.
Mas as coisas mudaram quando, em 2018, o antigo líder dos South Side Compton Crips deu uma entrevista para uma série documental do canal Black Entertainment Television. Nessa conversa, declarou sentir “um remorso intenso” pelo que aconteceu em 1996, e instantes depois que “Tupac era como um peixinho dourado que foi engolido por tubarões ferozes”. Não demorou muito para que os investigadores do homicídio lhe dedicassem a sua atenção.
Binu Palal, um dos procuradores do caso admitiu numa conferência de imprensa recente que “a arrogância e celebração” do homicídio por Davis — que acreditava ter imunidade policial — foram aquilo que, “em última instância, o arruinou”.
Do livro de memórias para o lugar do réu
“Sou uma das únicas testemunhas vivas do assassinato do Tupac“, lê-se na introdução do livro de memórias que o gangster publicou em coautoria com Yusuf Jah, em 2019. Em 215 páginas, Compton Street Legend detalha os conflitos entre os gangues residentes na Califórnia em meados dos anos 90 e a sua relação com as hostilidades entre os protagonistas da indústria musical. Inicialmente, a publicação não levantou muitas ondas fora dos círculos devotos ao hip-hop e true crime, mas, quando um detetive da polícia metropolitana de Las Vegas encarregado da investigação lhe pôs as mãos em cima, uma nova acusação (tornada pública em 2023) começou a ser delineada — a mesma que agora encerra o autor atrás das grades.
As passagens do livro dão conta de que “o fogo de artifício” de 7 de setembro de 1996 começou quando Davis viu Tupac, a bordo do BMW, baixar-se para pegar naquilo que acreditou ser uma arma. “Um dos meus rapazes, que estava no banco de trás, pegou na Glock e começou a disparar de volta”, continua o relato.

No decurso do julgamento, os advogados do antigo gangster tentaram ao máximo invalidar o livro enquanto prova passível de ser usada em tribunal — uma tarefa que se revelou impossível, tendo em conta que evidências alternativas, como a arma do crime ou o Cadillac que transportava os perpetradores, nunca foram encontradas pelas autoridades.
“Estamos a dar demasiado crédito, valor e peso a declarações feitas para propósitos de entretenimento apenas”, argumentou o advogado do réu, Michael Sanft, citado pelo The New York Times. “Não é uma confissão a um padre, nem a um agente da polícia, mas informações que visavam promover um livro, vender um produto.”
A defesa procurou ainda imputar o exagero dos factos relatados no livro ao seu coautor, Yusuf Jah. “Eu não escrevi aquele livro“, admitiu Davis numa entrevista ao canal 8 News Now, argumentando desconhecer as citações e figuras famosas mencionadas no texto. “Eu não sei nada sobre esse Winston Churchill”, afirmou. “Eu só fiz aquilo [o livro] pelo dinheiro.”
Jah, por sua vez, admitiu aos investigadores ter escrito a obra na totalidade, a partir de entrevistas que fez a Davis e cujo conteúdo, confessa, em parte adulterou. Quando concluiu o manuscrito, enviou-o ao coautor, que não fez qualquer tipo de modificações. “Honestamente, acho que ele [Davis] nem o leu”, disse aos investigadores.

Os procuradores do caso reconhecem que, apesar de as narrativas do hip-hop serem “propensas à hipérbole”, Davis reiterou as informações contidas no livro em inúmeras outras circunstâncias, o que lhes confere alguma credibilidade. Além disso, é diferente fazer ameaças ou incluir conteúdo violento na letra de uma canção e escrever o mesmo num livro de memórias.
“Acho que o senhor Davis e os seus advogados estão numa situação complicada”, declarou o professor de direito, Lucius Outlaw III, contactado pelo The New York Times. “É muito diferente quando se diz que isto são memórias da minha experiência de vida”.
O que falta descobrir
Quase seis meses após a morte de Tupac, The Notorious B.I.G. foi assassinado em circunstâncias idênticas. O crime aconteceu depois de abandonar a after-party dos Soul Train Music Awards, em Los Angeles — no dia 9 de março de 1997 —, quando um Chevrolet preto se chegou próximo do veículo que o transportava e abriu fogo. Apesar dos esforços da equipa médica, Biggie morreu horas mais tarde, vítima dos ferimentos causados por quatro balas.
O atentado originou uma onda de violência em Los Angeles, onde os gangues residentes se culparam mutuamente pela morte dos dois rappers mais influentes da primeira metade da década de 90. Durante os anos que se seguiram, nenhum dos homicídios originou detenções ou a condenação de suspeitos, e as autoridades trabalharam na base de rumores e teorias da conspiração que sugerem uma possível relação entre os dois crimes. Biggie Smalls foi mencionado diversas vezes ao longo do julgamento de Davis, que marcou presença na festa que antecedeu a morte do rapper, em 1997.
“Essa realmente é uma mancha na atividade da polícia de Los Angeles. Um crime como este [o assassinato de Biggie] ter acontecido sem que ninguém fosse acusado”, declarou o procurador no caso de Tupac, Neama Rahmani, à BBC.

Na verdade, foi a reabertura da investigação sobre a morte de The Notorious B.I.G., em 2006, que esteve na origem da acusação de Davis e recente condenação. As autoridades de Los Angeles investigaram o caso de tráfico de droga que eventualmente motivou a sua prisão e subsequentes interrogatórios, com o objetivo de descobrir informações sobre o homicídio de Biggie. O membro dos Compton Cribs não sabia nada a esse respeito, mas surpreeendeu as autoridades com as informações de que dispunha sobre a morte de Tupac.
O veredito do tribunal sobre Davis encerrou um caso que ocupou a polícia de Las Vegas durante 30 anos, mas ofereceu pouca tranquilidade aos familiares e pessoas próximas da vítima, para quem a decisão da justiça chegou tarde e soube a pouco. “O meu apetite por justiça não foi satisfeito”, admitiu o pai de Tupac, William Garland, numa entrevista à BBC. Apesar de ter estado ausente durante boa parte da vida do rapper, Garland teceu críticas duras ao julgamento nas redes sociais, onde acusou os procuradores de decidirem sem provas suficientes. “Esta informação é conhecida há anos — porquê agora?“, questionou.
Sobre o assunto, o rapper íntimo de Tupac, Anthony Cross, disse que “só Deus sabe o que realmente aconteceu — nós apenas podemos especular”, citado pelo The New York Times.

O único homem vivo que pode esclarecer um dos maiores mistérios da cultura popular cumpre uma pena de prisão prepétua: Marion “Suge” Knight, o fundador da Death Row Records que conduzia o BMW preto na noite em que Tupac foi atingido, e que foi condenado por um atropelamento mortal com fuga em 2015. A 7 de setembro de 1996, o produtor musical, que assistiu aos último momentos conscientes de Tupac, sofreu ferimentos ligeiros devido a uma bala que o atingiu de raspão. Ao longo dos anos, manteve o silêncio sobre os acontecimentos daquela noite, tendo-se esquivado sucessivamente a conversas sérias com a polícia sobre esse assunto.
“Este foi um caso difícil, um caso por resolver”, reconheceu o procurador Rahmani à BBC. “Estamos a falar do maior rapper de todos os tempos, um ícone, sendo que não houve qualquer detenção ou acusação durante 30 anos.”