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Sánchez defende que decisão de deixar entrar os migrantes em Ceuta foi "correta"

Chefe do Governo falou no Parlamento sobre a entrada em massa de migrantes em Ceuta, sublinhando que o Governo não recebeu alertas sobre a dimensão da crise. Prometeu reforço da Frontex na fronteira.

Manuel Nobre Monteiro
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Pedro Sánchez defendeu esta quinta-feira no Parlamento que os agentes espanhóis fizeram “o correto” ao deixar entrar temporariamente os migrantes durante a entrada em massa em Ceuta, no final de julho. O presidente do Governo espanhol afirmou, ainda, que o Executivo não recebeu previamente “alertas ou avisos extraordinários” sobre a dimensão do que viria a acontecer e anunciou que vai tornar público um dossier com todos os relatórios prévios à crise.

Perante os deputados, o chefe do governo explicou que as entradas a nado em Ceuta estavam a aumentar gradualmente: passaram de uma média de 37 por dia até 25 de julho para 194 durante a noite de 29 de julho. As autoridades estavam já coordenadas para responder ao aumento, que o líder espanhol considerou significativo, mas “inédito e excecional”.

No dia 30, porém, a situação mudou “de forma radical e também repentina”. Segundo Sánchez, o aumento foi impulsionado pela circulação nas redes sociais de “vídeos que incentivavam a cruzar a fronteira”.

Perante a chegada de grandes grupos de migrantes à fronteira, as autoridades tiveram de escolher entre duas opções. “Os agentes espanhóis destacados na fronteira tiveram de tomar uma decisão: deixar as pessoas passarem momentaneamente ou tentar contê-las à força, o que muito provavelmente teria provocado uma tragédia ainda maior do que a que ocorreu”, afirmou, acrescentando: “Acredito que agiram corretamente“.

“Quero dizer aos espanhóis e às forças do Estado que, como presidente [do Governo] de Espanha, afirmo que fizeram o correto, o mais inteligente e corajoso, porque diante da ameaça souberam responder com humanidade”, disse.

https://twitter.com/el_pais/status/2095410592165110226

O presidente do Governo espanhol descreveu a crise como “algo muito complexo e multifacetado”, tendo em conta que nela convergiram “inúmeros intervenientes e interesses, assim como várias questões sociais, tecnológicas e geopolíticas”. “Compreendo que essa complexidade possa desconcertar uns e incomodar outros que preferem viver num mundo de slogans, mensagens e manchetes simples”, disse. “Mas negá-la ou ignorá-la seria prestar um mau serviço à verdade e, por conseguinte, a Ceuta”, sublinhou.

Sánchez destacou, também, a colaboração de Marrocos no regresso dos migrantes que entraram irregularmente no território espanhol. Depois de reforçar a fronteira, disse, a segunda prioridade do Governo foi “atender e dar resposta rapidamente àqueles que não tinham direito a permanecer” em Espanha. Para isso, foram aumentados os lugares de acolhimento temporário e estabelecida “uma coordenação estreita com as autoridades marroquinas”.

O chefe do Governo espanhol classificou a operação como “um dos processos de regresso mais rápidos de sempre na história recente da Europa”, salientando que a Comissão Europeia também o reconheceu. Rejeitou, ainda, as críticas à demora nos processos de retorno e defendeu que estes têm de respeitar as garantias legais.

Antes de expulsar um ser humano, é preciso verificar quem é essa pessoa, se não provém de um país em guerra onde a sua vida possa estar em perigo e, se for um menor, é preciso garantir que tem um lar seguro para onde regressar”, afirmou.

https://observador.pt/2026/09/02/relatorio-policial-diz-que-autoridades-marroquinas-orientaram-migrantes-para-ceuta-mas-diretor-da-policia-e-governo-espanhol-desmentem/

Sánchez negou a informação avançada pela imprensa espanhola de que o Governo tenha recebido informação que antecipasse a dimensão da entrada em massa. Foram analisados “todos os relatórios, todas as mensagens, notas verbais” das forças de segurança, assim como informações do Centro Nacional de Inteligência enviadas às autoridades políticas e à delegação do Governo em Ceuta. Segundo Sánchez, nenhuma dessas comunicações ultrapassava “a dimensão, nem a probabilidade do que aconteceu”.

Na intervenção no Parlamento, Sánchez reafirmou também a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla. “Ceuta e Melilla são espanholas e continuarão a sê-lo até ao fim dos tempos”, garantiu, evocando o Tratado de Wad-Ras, que pôs fim à Guerra de África e que, segundo Sánchez, consolidou diplomaticamente a soberania espanhola sobre as duas cidades.

https://twitter.com/el_pais/status/2095414503319941206

Um dossier com todos os dados, mais patrulhamento e uma “cooperação diferente” com Marrocos

Sánchez anunciou a publicação de um dossier com todos os relatórios policiais dos dias anteriores à entrada em massa. “O Governo não tem nada a esconder em relação a este assunto. Dei ordem para publicar um dossier com todos os relatórios, todos, para que os meios de comunicação social e os cidadãos possam analisá-los por si próprios”, afirmou. “É absurdo pensar que o Executivo foi avisado e não fez nada de propósito”, acrescentou.

https://twitter.com/el_pais/status/2095417071395840385

Sobre a relação diplomática com Marrocos, o presidente do Governo anunciou que irá mudar a forma como Espanha coopera com Marrocos. “Estamos a rever todos os mecanismos de coordenação de alerta precoce que partilhamos com o Estado marroquino e iremos criar salvaguardas adicionais para garantir que a situação vivida a 30 de julho não se repita“.

Sánchez insistiu que não há provas de que Marrocos tenha sido responsável pela organização ou pelo planeamento da entrada em massa de migrantes nos dias 30 e 31 de julho. “Posso garantir-vos que nenhuma destas instituições, nem o serviço diplomático, nem a Comissão Europeia, nem qualquer organização internacional, forneceu ao Governo espanhol provas concretas de que Marrocos planeou ou executou o incidente”, afirmou, explicando que, em todo o caso, está em curso uma investigação e que, se algo for descoberto, o Governo “partilhará o que for apurado e agirá em conformidade”.

O líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) anunciou, por fim, que a Espanha solicitará a presença permanente da Frontex no porto de Tarajal, a rota utilizada pela maioria dos 70 mil migrantes que cruzaram a fronteira irregularmente. “Vamos solicitar à Europol a criação de uma missão específica, precisamente para monitorizar a migração irregular na Cidade Autónoma de Ceuta e, em última instância, garantir que esta fronteira europeia receba o apoio europeu que merece”, afirmou, durante o seu discurso no Parlamento nesta quinta-feira.