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(A) :: Quem faz um filho, fá-lo por gosto?

Quem faz um filho, fá-lo por gosto?

Gosto não se discute, mas e se a História acabar por falta de personagens?

Paulo Nogueira
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Em 24 de janeiro de 2023, Lindsay Clancy, de 33 anos, levou os três filhos – Cora (5 anos), Dawson (3) e Callan (8 meses)  – um de cada vez, ao porão do lar da família em Massachusetts. Com uma faixa elástica de ginástica, estrangulou-os por ordem de idade. Depois tentou suicidar-se, atirando-se pela janela.

Ela confessou os crimes, e enfrenta três acusações de homicídio em primeiro grau. A defesa alega inocência, invocando psicose pós-parto: Lindsay não era responsável moral pelos seus atos. A acusação diz que sim, era, e aponta premeditação: a ré mandou o marido ao supermercado para ficar sozinha com as crianças. O júri, cujo veredito tem que ser unânime, é de 9 mulheres e 3 homens, e está a deliberar.

Inflamada  por um algoritmo ávido por erupções emocionais e groupthinking, a tragédia foi capturada pelo tribalismo das guerras culturais e seu perene jogo de soma zero. Como naquele filme repugnante que venceu o Oscar, é uma batalha após a outra, em vez do debate racional com interlocutores que se dão ao trabalho árduo de dialogar sobre um facto prismático mas singular.

A psicose pós-parto não figura no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), o manual padrão usado nos EUA por profissionais de saúde mental para classificar condições psiquiátricas. Mas, a associada à privação de sono e ao stress de passar o tempo todo com crianças pequenas (embora Lindsay tivesse uma baby-sitter), não se reduz a uma construção social, embora tão-pouco à insanidade. Por isso, a legislação de alguns países (mas não os EUA) admitem o infanticídio como homicídio culposo, não doloso. No passado, o assassínio de bebés pelos pais não era raro – fosse pela pobreza (como no conto dos irmãos Grimm, “João e Maria”), deficiência física (na eugênica Esparta) ou porque as  bebés eram menos valorizadas (como na Roma antiga). O Cristianismo tornou o infanticídio uma infâmia.

Já o aborto, em apenas uma geração, passou de algo cujos apologistas postulavam que devia  ser “seguro, legal e raro” para um direito celebrado em T-shirts, por vezes uma recreativa e longeva pílula do dia seguinte, que rejeita a ideia de que há dois corpos envolvidos: o da mãe e o da criança. Os EUA são uma das 8 nações que permitem o aborto sem limite gestacional. Em 2025 foram realizadas no país mais 1 milhão de interrupções voluntárias da gravidez (quase duas  Lisboas), o índice mais alto numa década. Ronald Reagan ironizou: “Um dia percebi que todos aqueles que são a favor do aborto realmente nasceram”.

Hoje muitas mulheres debatem-se com as “contradições culturais” da maternidade: espera-se que as mães sejam profissionais diligentes, mas também que se dediquem intensamente à criação dos filhos. Simone de Beauvoir, que gostava tanto de crianças como Herodes, ralhou: “Nenhuma mulher devia ser autorizada a ficar em casa e criar os filhos. Pois, se tiverem essa opção, muitas mulheres irão preferi-la.”

Aquilo que Frank Furedi chama  “determinismo parental”, ou a crença de que os pais são onipotentes na vida dos filhos, implica que a parentalidade se tornou um projeto repleto de culpa. Não há sarilho social que não possa ser explicado pela pergunta: “O que os pais fizeram desta vez?”

O caráter humano é sempre individual, mas somos condicionados pelo contexto. A chamada “momosphere” (a rede de mães influenciadoras do TikTok) beatificou Lindsay Clancy como mártir: “Eu sou Lindsay!” Vestidas de cor de rosa e aureoladas por ring ligths, elas filmam-se a chorar com os bebés ao colo, ou a despejar cubos de gelo na banheira: “Assim posso ficar danada mas sem berrar com o meu filho!” Por que Medeia não pensou nisso?

É o corolário de uma tendência:  no século XXI, a quarta onda do feminismo (que questiona o sexo biológico em favor da fluidez queer) condena os “obsoletos papéis de gênero” das famílias nucleares. Em 2022, a juíza do Supremo Tribunal dos EUA, Ketanji Jackson, declarou na audiência de confirmação no Senado que não conseguia definir a diferença entre homem e mulher. Dantes – não se reduzindo a isto – uma mulher era uma criatura que podia ser mãe. O mantra hoje diz que ter um filho é uma das  piores coisas que pode acontecer a uma mulher (pior que isso, só casar-se com um gajo cis).

Daí taças de vinho com a inscrição “Wine, because children!” e vídeos com mães a simularem autoesfaqueamento, a beber lixívia ou a meterem a cabeça no forno: “Eis o que é ficar em casa com as crianças o Verão todo”. Há uma simetria com a manosfera de Andrew Tate – uma autopiedade exibicionista e um rancor amuado contra um cosmos supostamente indiferente. É a ‘’instagramização” enquanto “libertação”.

Bem, talvez todos ganhássemos com um niquinho de limites entre as nossas vidas íntimas e públicas. Quanto mais emocionalmente significativo algo for, menos pertence a uma plateia voyeur. A prioridade é ajuda ou likes? A “momosphere” não deveria se desconectar, desabafar com pessoas queridas e procurar auxílio profissional? Não para a promiscuidade pós-moderna entre linguagem e realidade. Para Foucault, a verdade é um dos produtos do discurso, e não o contrário. Documentos oficiais do governo brasileiro já substituem “mulher” por “pessoas que gestam” e “pessoas que menstruam”.

Também no Brasil houve este ano o julgamento do caso Henry Borel, assassinado aos 4 anos, com 23 lesões corporais e hemorragia interna. Os réus eram a mãe, Monique Medeiros, e o namorado dela, Jairo dos Santos. Ele foi condenado por homicídio a 43 anos de prisão, e ela considerada culpada por omissão – mas recebeu o perdão judicial e foi libertada. O pai de Henry, Leniel Borel, recorreu da sentença. O Ministério Público, também.

Quando ausente de casa, Monique recebia mensagens da  baby-sitter a relatar as torturas sistemáticas infligidas ao filho pelo parceiro – embora bastasse um olhadela ao corpo da criança. Entre o dever moral e jurídico de proteger o filho, e continuar com o namorado sádico, Monique preferiu o segundo. Ao longo do processo, assomou uma pessoa que instalava solenemente a sua dor no centro da tragédia – a morte da criança era um pormenor periférico. No dia do velório,  a mãe foi a um shopping comprar roupas enlutadas de marca e à manicura – e chegou atrasada.

A juíza Elizabeth Louro aplicou o perdão judicial porque Monique já fora castigada “por uma cultura machista e patriarcal, que  exige que a mulher seja uma mãe perfeita”. Talvez haja alguma distância entre uma mãe perfeita e outra que, meses a fio, foi cúmplice do aborto legal de uma criança de 4 anos. Por ser mulher, a sentença dispensa Monique de ser uma boa mãe, pois a culpa é “da sociedade”. Em “After Virtue”, Alasdair MacIntyre disseca o “emotivismo” atual: não há parâmetros objetivos, apenas emoções idiossincráticas, e só devemos satisfação ao nosso próprio ego. Numa altura em que os algoritmos – com feedback mensurável sempre disponível, em que cada dissabor se torna conteúdo –  recompensam  vitimizações, só o que interessava era como Monique sentia-se: vamos falar sobre mim.  É o “eu” enquanto espetáculo de “autocuidado”.

O Brasil ficou tão chocado que em 2022 aprovou a “Lei Henry Borel”, que torna crime hediondo o homicídio de crianças e agrava a punição da omissão. Cinco anos depois, o mesmo país viu a mãe ser perdoada judicialmente pelo próprio crime que inspirou a lei. Silvia Pimentel, presidente do Comité da ONU para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Cedaw ONU) e coautora da Lei Maria da Penha, que em 2006 fortaleceu a prevenção e o combate à violência doméstica no Brasil, disse que o veredito “prejudica o feminismo” – infantiliza as mulheres, como incapazes de responder pelas suas escolhas. Lixando-se para factos, provas e lei, a ideologia mata uma criança indefesa pela segunda vez, agora à frente do pai.

Em 1856, nos EUA, a escrava Margaret Garner fugiu do cativeiro e, quase a ser apanhada, matou a filha de 2 anos, fruto da violação do escravocrata, para evitar que ela tivesse o mesmo destino. No julgamento, os abolicionistas queriam que a escrava fosse condenada por homicídio, reconhecendo assim a sua humanidade (incompatível com a escravidão). Garner foi inocentada:  enquanto propriedade e coisa, não podia ser responsável pelos seus atos. O episódio inspirou o romance da Nobel americana Toni Morrison, “Beloved”.

O então presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Luís Barroso, disse que é preciso “recivilizar o país”, institucionalizando benefícios com base na cor da pele e no gênero. Este ano, foi aprovado no Senado por unanimidade um projeto de lei que equipara misoginia a racismo – e hoje racismo é praticamente tudo (a menos que o alvo seja branco – então é muito bem-feita!).

Os costumes (e aquilo que o filósofo Charles Taylor chama “imaginário social”) mudaram vertiginosamente, e continuam prego ao fundo. Casais são instruídos a não sacrificar uma migalhinha de felicidade pessoal em nome dos filhos. Há 10 anos, quem sabia o que era queer ou pansexual (este último não sei se sei, mas soa-me a mais olhos que barriga…)? A revolução permanente é refletida numa conversa entre duas miúdas: “Ana, o mundo está, tipo, completamente perdido!” “Pois está, Lia! Hoje uma gaja vai para a cama com um gajo e no dia seguinte ele já nos quer convidar para jantar!”

A luta do  feminismo pela igualdade foi necessária e nobre, garantindo às mulheres o acesso à educação e a profissões antes lhes vedadas, o controlo sobre seus próprios bens, maiores direitos no casamento e no divórcio, proteção contra maridos abusivos e o acesso ao voto e a cargos públicos. Porém, o próprio éxito do movimento fez com que instituições se obstinassem incondicionalmente na desvantagem feminina, mesmo se a situação mudasse.

Na educação, sobretudo no ensino superior, hoje as mulheres prevalecem. Na OCDE, 55% das mulheres entre 25 e 34 anos têm nível universitário, contra 38% dos homens. Há muito mais homens sem-abrigo (88%), alcoólicos e toxicodependentes (mais do dobro que as mulheres). Em 2024, eles eram 76,5 %  dos suicidas na Austrália (o suicídio é hoje a principal causa de morte entre homens australianos de 15 a 44 anos).

A masculinidade não é mais um traço positivo que abrange coragem, honra, responsabilidade, proteção. Na melhor das hipóteses é problemática, mas quase sempre “tóxica”.  Os homens são tratados como um problema a ser resolvido, nunca um grupo a ser apoiado. Na Nova Zelândia, foi criado o primeiro cargo parlamentar dedicado aos homens – mas não para lidar com o suicídio masculino, o vício, as mortes no trabalho, as elevadas taxas de isolamento social e encarceramento. O novo Secretário explicou que sua missão é mudar as atitudes dos homens em relação às mulheres.

O extremismo feminista, que retalia a misoginia com a misandria, não é melhor do que Andrew Tate. Na Coreia do Sul, o Movimento 4B exorta as mulheres a rejeitaram sexo, namoro, casamento e filhos com homens (volta, cegonha, que estás perdoada!). Grupos online como Megalia e Womad divulgam gracejos nível quarta classe sobre… o tamanho de pénis, e slogans como “Homens são lixo”. Clementine Ford, que se intitula “abolicionista do casamento”, postou “Matem todos os homens!”, e depois explicou que era uma sátira. Obviamente, tem tanta piada como um marmanjo postar “Matem todas as mulheres!”  Já agora: homens que matam os filhos também podem invocar surtos psicóticos, e organizações masculinas promover manifestações a favor deles?

Nos EUA, 32,9% dos adultos entre 18 e 29 anos não tiveram relações sexuais em 2024 – na década anterior, aquele índice foi de 18,9%. Menos casais significam menos filhos. Pesquisa da “Politics and the Life Sciences” informa que as mulheres ocidentais ainda querem entre 2 e 3 filhos. Na Noruega, a preferência é de 2,4. Nos EUA, de 2,7. Mas as taxas reais de natalidade são de apenas 1,4 e 1,6, respectivamente (e a cair). A taxa de reposição populacional mínima é de 2,1 por mulher (duas crianças substituem o pai e a mãe). Porém, cada vez menos jovens formam relacionamentos estáveis ​​nos seus anos mais férteis. Na Noruega, a proporção de mulheres entre 20 e 34 anos que não vivem com um parceiro dobrou desde 1980. Até 2030, metade das americanas entre 25 e 45 anos irá morar sozinha.

Era mais fácil para os homens encontrarem parceiras, fossem ou não giraços ou bem-sucedidos. Quando as mulheres se tornaram financeiramente independentes, o valor que muitos homens antes implicavam – provisão e proteção básicas – foi em grande parte perdido. Uma mulher que ganha seu próprio dinheiro e vive num país com boa segurança social não precisa de um marido para sobreviver: pode esperar por um parceiro que realmente apeteça. Antes só do que mal acompanhada. É o “Paradoxo da Fertilidade da Escolha Feminina”. Cada mulher que espera por um parceiro melhor faz uma escolha bem sensata. Mas quando muitas fazem isso ao mesmo tempo, muitas acabam com menos filhos do que desejavam – ou nenhum. Entretanto, os homens recebem a mensagem de que seu papel econômico é obsoleto, e seu papel parental, opcional. Isso apesar de o consenso da literatura sociológica atestar consistentemente que uma família com um pai e uma mãe continua o indicador mais confiável do bem-estar infantil.

Hoje mulheres e homens vivem diferentes combinações de vantagens e desvantagens  – assim, a premissa de que um sexo é estruturalmente oprimido pelo outro pode ser inadequada para a compreensão de qualquer um deles. Se não for pedir muito, as botas deviam ser descalçadas em conjunto e sem anátemas reducionistas. A palavra mágica não é “inclusão”? Ou identitarismo é o único arco-íris que consegue ser a preto e branco?

Nem tudo está perdido. Feministas como Christina Sommer, Joanna Williams, Mary Harrington, Louise Perry, Roxana Kreimer e Christine Emba, entre tantas, rogam que ponhamos as barbas (e as tranças) de molho. Este ano, na wokíssima Hollywood, Jessie Buckley venceu o Oscar de melhor atriz. No palco, teve a maior lata: exaltou a maternidade, a  felicidade do seu casamento e informou o marido que queria ter “20 mil bebês” com ele. Dedicou o prêmio ao “belo caos do coração de uma mãe”. Era o Dia da Mãe no UK. Que reacionária antediluviana! (Ah, devia mas é ser um homem camuflado! Ups, mas nesse caso era trans, e todos os trans são querubins!) Com um sorriso amarelo, a plateia aplaudiu de pé.

Sim, andamos todos deprimidos: homens, mulheres, crianças, adolescentes, pais, mães e filhos – contorcendo-nos em crises de saúde mental. Como aquela frase de Evelyn Waugh: “Não sabia que era possível ser-se tão infeliz e continuar vivo, mas disseram-me que é uma experiência comum.” Bom, se não é fácil viver com nós próprios, quanto mais com outra criatura.

“A Billion Years of Sex Differences”, de Steve Stewart-Williams, acabadinho de sair, mostra que somos moldados pela biologia e pela cultura (“nature and nurture”). E que a maior parte dos homens e das mulheres é atraída pelo sexo oposto (convém redescobrir a pólvora e reinventar a roda). Mas até quando, com todo o rancor semeado entre eles e elas? Sei lá. Se estamos todos no mesmo barco, não era melhor remar para o mesmo lado, em vez continuar a afundar? Mas embainhar a espada é sempre mais difícil do que empunhá-la.