Contextualizar, enquadrar, defender, desvalorizar o que correu menos bem, reforçar o que correu melhor e carregar baterias para o combate político que se vai prolongar (pelo menos) até ao primeiro trimestre de 2027. Nas últimas horas, os homens de Luís Montenegro não fizeram outra coisa que não encontrar um sentido para a intervenção de Luís Neves, criticada genericamente da esquerda à direita, e fazer a contenção de danos possível. Sempre com a convicção que continua a nortear a estratégia política do Governo: tudo o que está a acontecer com o ministro da Administração Interna é uma recriação da bolha político-mediática e não chega, nem consome as pessoas reais — os eleitores, portanto.
Ainda assim, e se é certo que os ataques de André Ventura eram mais ou menos previsíveis, e, também por isso, mais ou menos geríveis, há um irritante que está a tornar o processo mais difícil de conter: as “fontes de Belém”. A manchete do Nascer do Sol, que garantia que António José Seguro tinha feito um ultimato a Luís Montenegro e exigido a cabeça de Luís Neves, não foi desmentida pelo Palácio de Belém, o que exasperou a equipa mais próxima do primeiro-ministro. As declarações do socialista Álvaro Beleza, amigo e apoiante de sempre de Seguro, acrescentaram mais uma camada à intriga entre palácios. Por fim, a intervenção de Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde e conselheiro presidencial, que falou mesmo em “irregular funcionamento das instituições”, aumentou a impaciência das principais figuras do Governo e do PSD.
Essencialmente, por duas razões: porque estão a manter o suspense sobre o futuro político de Luís Neves vivo; e porque têm sido aproveitadas por André Ventura para atirar um Presidente da República com legitimidade eleitoral praticamente intacta contra um primeiro-ministro minoritário a braços com mais uma crise política difícil de exorcizar. Ainda esta quarta-feira, Ventura dizia mesmo acreditar que, se a decisão dependesse apenas do Presidente da República, Neves já teria sido demitido. Bastaria que António José Seguro — ou alguém por ele autorizado — viesse a terreiro retirar gás ao líder do Chega que o caso mudaria de figura. Mas isso não aconteceu. Antes pelo contrário.
Os mais próximos de Luís Montenegro esforçam-se por desvalorizar aqueles que têm falado em nome de António José Seguro, sugerindo que não têm o acesso ao Palácio de Belém que dizem ter. Em entrevista ao Observador, Sebastião Bugalho, vice-presidente e porta-voz do PSD, ensaiou esse mesmo discurso: “António José Seguro quando quer falar, fala. Parece-me no mínimo irresponsável que queiram falar pelo Presidente da República”.
“Ninguém acredita que o mais alto magistrado da nação manda recados pelo amigo, numa televisão. É patético. O que seria. Eu não acredito nisso”, insurgiu-se horas mais tarde Hugo Soares, na SIC Notícias. “Se assim fosse, isto seria uma república das bananas”. O líder parlamentar do PSD chegou mesmo a revelar que votou em António José Seguro nestas eleições presidenciais apenas para frisar que, do que conhece sobre a persona política do Presidente, seria impossível que atuasse assim.
Mas, ao contrário do que se deseja no Governo e no PSD, António José Seguro, que partiu para umas curtas férias esta semana, não deverá fazer qualquer intervenção num ou noutro sentido. O Presidente da República entende que não deve acrescentar ainda mais ruído a um processo que já se arrasta há um par de meses e, no que a Luís Neves diz respeito, só há uma pessoa que pode, pela força da Constituição, resolver a situação — e essa pessoa é Luís Montenegro. Se, porventura, António José Seguro viesse a público corrigir a informação avançada pelos jornais ou as opiniões dos seus conselheiros mais próximos, tal poderia ser aproveitado para libertar Montenegro das responsabilidades que efetivamente tem.
Aliás, isso mesmo já foi sugerido pelo próprio Presidente da República da última vez que falou sobre o caso, a 23 de agosto. Disse António José Seguro: “A nossa Constituição é muito clara quanto às competências e às atribuições de cada órgão de soberania. Aquilo que eu desejo é que cada um assuma a sua responsabilidade“. Traduzindo: só o primeiro-ministro pode cortar o mal pela raiz e demitir um ministro; é essa a “responsabilidade” de um chefe de Governo. Em contrapartida, os responsáveis do Governo e do PSD passaram o dia a defender que Seguro se limitara a fazer uma constatação literal dos poderes de cada órgão, tentando por todos os meios retirar peso e leituras políticas às palavras do Presidente.
Na mesma intervenção, e em linha com outras anteriores, Seguro pediu rapidez nas várias investigações em curso e exigiu que se respeitasse a “dignidade das instituições“, acrescentando: “Sou um Presidente muito atento aos factos. Falo com quem devo, onde devo e quando entendo que devo falar. E respeito também muito as instituições”. Ou seja, o Presidente da República já terá dito a Montenegro o que pensa de Luís Neves e espera agora pelo desenrolar das auditorias prometidas e pelas consequências que daí possam resultar. Mais uma vez, em resposta a isto, no Observador, Sebastião Bugalho tentou desvalorizar: “O Presidente pediu que se respeitasse a dignidade das instituições. Eu subscrevo”.
Tudo isto foi dito por António José Seguro ainda antes de Luís Neves ter aproveitado um discurso institucional na cerimónia de aniversário da PSP Madeira para, entre outras coisas, dizer que não deixará de governar, que tem como renovada missão o combate ao “populismo” de André Ventura e que não desistirá de ajustar contas com aqueles que, na PJ, movidos pela “inveja“, alimentaram “grandes investigações jornalísticas”. Esta intervenção não terá ajudado à causa de Neves junto de Belém. Pelo contrário.
Ainda no final de julho, o Observador dava conta da preocupação de António José Seguro com a situação em que se encontrava Luís Neves, o Governo e, por arrasto, também a PJ. O Presidente da República não ficou particularmente reconfortado com as justificações apresentadas pelo primeiro-ministro sobre as decisões tomadas por Luís Neves, mas foi sensível ao argumento de Montenegro de que não podia abdicar de um ministro da Administração Interna em plena época de combate aos incêndios.
No entanto, já nessa altura se apontava para um dos grandes receios de Seguro: as histórias sobre Luís Neves não iriam ficar por ali (e não ficaram), o que poderia arrastar o Governo e a Polícia Judiciária para um ciclo longo de enorme desgaste político — e arrastaram. No domínio da ética republicana, dimensão que António José Seguro sempre valorizou e pela qual fez campanha presidencial, as explicações e as intervenções do ministro da Administração Interna estão a deixar, no mínimo, muito a desejar.
Seja como for, António José Seguro não vai exigir publicamente a cabeça de Neves, tal como Marcelo Rebelo de Sousa fez com João Galamba. No PSD, retira-se algum conforto dessa mesma ideia, tendo em conta o perfil mais diplomático e pouco confrontacional de Seguro. Mas a incerteza sobre o que o Presidente da República ainda pode dizer ao país e o facto de esse ‘silêncio’ presidencial estar a ser aproveitado por André Ventura para pressionar ainda mais Luís Montenegro causam um desgaste adicional que os sociais-democratas dispensavam perfeitamente.
PSD defende Neves contra a bolha (e contra os próprios erros)
Haverá o momento, concluídas as investigações em curso, em que o Chefe de Estado terá uma última palavra. Até lá, os sociais-democratas terão de fazer a gestão de danos possível e ir gerindo um ministro que tem o coração demasiado perto da boca. Luís Montenegro conhecia genericamente o conteúdo da intervenção de Luís Neves e deu respaldo à estratégia do ministro da Administração Interna.
Entre o deve e o haver, entre o ser preso por ter cão e por não ter, achou-se por bem que Neves falasse na Madeira, numa tentativa (mais uma) de virar o jogo a favor do ministro. Mas nem tudo seguiu o guião que o primeiro-ministro tinha na cabeça. O contexto escolhido, os exageros de linguagem e, sobretudo, a forma como se colocou no centro do Governo com uma frase problemática: “Nada me vai afastar daquilo para que aceitei este cargo”.
Ora, esta passagem do discurso foi automaticamente interpretada como sendo Luís Neves a tentar substituir-se ao primeiro-ministro — o único responsável pela continuidade ou não de um ministro — e como sendo também uma resposta indireta a António José Seguro, que, de acordo com as tais notícias não desmentidas, já teria sugerido a Luís Montenegro que afastasse o ministro da Administração Interna. Com aquela tirada, Neves colocou em causa a autoridade do primeiro-ministro e investiu contra um Presidente da República de quem Montenegro precisa para garantir estabilidade política.
No núcleo mais próximo de Montenegro, reconhece-se que a frase não foi feliz, mas importa, ainda assim, não a desvirtuar, como defendeu Sebastião Bugalho ao Observador: o que Neves quis dizer é que vai continuar a perseguir os objetivos que desenhou quando decidiu aceitar o cargo. Na SIC, Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, sublinhou o mesmo e saiu em defesa do ministro da Administração Interna, lamentando a interpretação errada que foi feita das palavras de Neves.
O embaraço que a frase de Neves provocou foi tão evidente que ambos os responsáveis do PSD levavam consigo a transcrição exata, para poderem citá-la e tentar desmontar outras interpretações. “Ele disse depois: O meu líder é o meu primeiro-ministro e é a ele que respondo”, citava Hugo Soares. “Claro que sai no dia em que o primeiro-ministro quiser. Qual é a dúvida?”
Quanto ao mais, existe quem entenda que o ministro da Administração Interna tinha mesmo de “pôr André Ventura na linha“, que elegê-lo como adversário direto foi uma estratégia acertada e que esse é o caminho mais rápido para que os portugueses se convençam de que Luís Neves está a ser alvo de uma campanha negra capitaneada pelo líder do Chega.
Mas é preciso equilibrar a coisa e ouvir um ministro dizer que quer “combater” o “populismo” de André Ventura compromete a relação com um dos dois parceiros de negociação de um Governo que continua ultraminoritário no Parlamento e que prometeu no arranque da legislatura planar à direita e à esquerda. Sebastião Bugalho, mais uma vez ele, aproveitou a entrevista ao Observador para calibrar a verdadeira mensagem que Luís Montenegro quer passar. “O Governo não tem parceiros preferenciais. Também não tem inimigos preferenciais”.
Quanto à jura de Neves sobre combater o Chega e o populismo, Bugalho também não deu sinais de embaraço ou hesitação, validando o ministro: “Os ministros não são diretores-gerais. Têm opiniões políticas”. E, prosseguindo o raciocínio, elogiou até o combate ao populismo prometido pelo responsável da Administração Interna, que caracterizou como um ato próprio dos democratas. “Se fosse um ministro do PS a dizer isto não era criticado.”
De resto, o Governo continua apostado na desvalorização constante das opiniões da chamada bolha mediática, uma vez que acredita que estas não representam as verdadeiras preocupações dos portugueses e do eleitorado. Dentro do Executivo, a convicção é de que problemas como o caos nos exames nacionais ou o custo de vida, do preço da gasolina ou das compras no supermercado, atingem muito mais diretamente a reputação do Governo do que um caso que pode, à distância, parecer algo exótico ou até anedótico ao comum eleitor.
A expectativa que existe é de que, feitos os esclarecimentos que se exigem, vai continuar a existir ruído mediático, sim, mas a pressão da opinião pública vai diminuir — e já ninguém ligará muito às faturas das obras, aos hectares do monte e ao tanque-piscina do ministro. É essa, no fundo, a grande lição que o Governo retirou da crise da Spinumviva: a verdadeira influência da bolha político-mediática é hoje muito menor do que políticos, jornalistas e comentadores julgam ser. É preciso sangue frio — e Luís Montenegro tem-no de sobra.
Além disso, e seguindo mais uma vez as lições da Spinumviva, os homens do primeiro-ministro vão apostando num outro efeito: a multiplicação de espaços noticiosos e de comentário sobre os grandes e pequenos pormenores do caso que envolve Neves provoca cansaço e, em último caso, indiferença. “As pessoas estão a ficar um bocadinho cansadas deste tema. Têm muitas outras preocupações”, disse o ministro da Coesão e da Economia, Castro Almeida, na RTP. Hugo Soares resumiu-o a um “engodo da silly season” de André Ventura.
Essa é a face pública do discurso dos sociais-democratas. Em privado, reconhece-se que um caso como este, prolongado no tempo, com o Chega à espreita e sem grande margem orçamental para distribuir prebendas, tem custos pesados. E será mesmo um processo prolongado de desgaste: é possível que as notícias embaraçosas continuem a surgir; mesmo depois do presumível chumbo da moção de censura apresentada por Ventura, a conclusão das múltiplas investigações em curso produzirá novos episódios polémicos; e, finalmente, e segundo Ventura, a comissão parlamentar de inquérito vai mesmo avançar. Ou seja, até meados de 2027 o Governo continuará a apagar os fogos de um ministro no fio da navalha — tornando muito difícil a Montenegro focar a mensagem política.
Resta ir lembrando sempre que se pode a ‘obra’ vender de Neves no Governo — o guião de todos os responsáveis inclui referências à relativamente calma época de incêndios, ou ao controlo das filas de espera do aeroporto de Lisboa, mérito do “extraordinário” (Hugo Soares dixit) Luís Neves. Foi com esse raciocínio que Bugalho defendeu que o ministro não é nenhum “peso morto” no Governo — a sua ação política não é um problema, e tem de resto merecido rasgados elogios públicos do primeiro-ministro. Mesmo que a matrioska de polémicas esteja a ofuscá-la.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]