Onde dói? Quando começou? O que agrava ou alivia? Como está a afetar o seu dia a dia? Como descreve a dor? Estas são algumas perguntas que os médicos podem perguntar a quem tem ou teve cancro. A dor oncológica pode ser causada pelo tumor, mas também pelos tratamentos exigentes e contínuos para o combater.
A abordagem à dor deve integrar todas as etapas do processo porque quando a dor é bem controlada, “as pessoas conseguem participar de forma mais ativa no tratamento, com mais energia e menos medo”, diz a médica anestesiologista Ana Agrelo, coordenadora da Unidade de Dor do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO-Porto) e vice-presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED). É importante pedir ajuda. Existem hoje várias ferramentas para minimizar sintomas e aumentar o conforto. “Em Portugal, felizmente, cada vez mais centros desenvolvem competências nesta área.”
O que é a dor oncológica?
A realidade da dor oncológica é ampla. Não é apenas uma dor que se sente durante a doença ativa. Falamos de dor que pode aparecer durante o tratamento do cancro, mas também dor que se mantém ou até surge meses (ou até anos) depois, como consequência de tudo aquilo que o corpo atravessou. “Quando essa dor se torna crónica, deixa frequentemente de ser meramente um ‘sintoma’ do cancro e transforma-se numa doença em si própria com características, mecanismos e necessidades de tratamento específicas”, diz Ana Agrelo. É preciso agir atempadamente. “Não é algo que se deva suportar em silêncio, não é inevitável.”
Existem vários tipos de dor oncológica??
Sim. A dor oncológica varia porque depende das estruturas específicas que estão alteradas no corpo de cada pessoa. “Se um tumor está a comprimir um nervo, a dor tem características diferentes de se estivesse a afetar um órgão. Se há uma cicatriz após cirurgia, a dor é diferente.” Se houve dano neurológico pela quimioterapia, o padrão de dor também é totalmente distinto. Estas diferenças resulam de uma “realidade biológica” e quando um paciente chega a uma unidade de dor o primeiro passo é compreender em profundidade e procurar a resposta a algumas questões:
- Que tipo específico de dor tem?
- Onde?
- Desde quando?
- Quais são as características dessa dor?
- Como é que essa dor concreta interfere na sua vida quotidiana?
- O que a melhora ou piora?
“Esta compreensão é fundamental porque permite-nos chegar a um diagnóstico preciso do tipo de dor e adaptar os diferentes tratamentos disponíveis à pessoa concreta”. Não se trata de aplicar o mesmo tratamento a todos, mas sim de personalizar a estratégia para a situação de dor e a pessoa que a sofre.
“Para além destas questões simples, usamos escalas validadas: a mais conhecida é a escala numérica, em que o doente classifica a dor de 0 a 10.” Mas a dor não é um número. É uma experiência global, daí que faça sentido examinar o contexto e perceber se existem componentes emocionais a interferir; se há ansiedade ou depressão associadas e problemas de sono, por exemplo. Toda a informação ajuda a equipa médica a traçar um plano de tratamento personalizado.
Como saber se a dor está associada ao tumor ou aos tratamentos?
“A dor causada pelo cancro ocorre quando o tumor cresce e comprime nervos ou órgãos vizinhos (pense-se numa estrutura que vai ocupando espaço onde não deveria). Mas há também a dor causada pelos tratamentos.” A quimioterapia, por exemplo, pode danificar os nervos das mãos e dos pés, provocando uma dor tipo queimadura ou formigueiro que pode persistir após o fim do tratamento (a chamada dor neuropática). A radioterapia também pode deixar sequelas e algumas cirurgias podem originar aderências e cicatrizes que causam dor meses ou até anos depois. Logo, a gestão de dor oncológica inclui compreender estas diferentes origens.
A dor só afeta quem está em tratamento?
Não. Pode afetar também os sobreviventes de cancro. “Muitos pensam que a dor é uma parte inevitável, quando na realidade é um problema que pode e deve ser tratado.” Esta dimensão é pouco abordada. Existem sobreviventes de cancro que completam o seu tratamento e, meses ou até anos depois, desenvolvem o que se chama dor crónica pós-tratamento do cancro. “Pode ser o resultado de cicatrizes, de inflamação persistente, de danos neurológicos causados pela quimioterapia ou radioterapia.”
Alguns doentes descrevem uma sensação de formigueiro constante nas mãos e nos pés, outros uma dor tipo queimadura no local da cirurgia. “É um desafio importante porque estes doentes já conquistaram a sua remissão oncológica [ausência de doença], mas encontram-se impedidos de retomar totalmente a sua vida quotidiana devido à dor”, defende Ana Agrelo. O acompanhamento de longo prazo é essencial.
Quantos doentes oncológicos desenvolvem dor crónica?
Os dados internacionais indicam que cerca de 50 a 60% dos doentes com cancro ativo e até 30 a 40% dos sobreviventes de cancro têm dor clinicamente significativa. “Em Portugal, não temos números recentes consolidados dizsobre este problema, mas podemos extrapolar e estamos a falar de dezenas de milhares de portugueses”, afirma Ana Agrelo, que considera que este é um problema de saúde pública muito real, mas ainda insuficientemente reconhecido e tratado.
Quais os tratamentos existentes para a dor associada ao cancro?
Existem várias soluções e medicamentos, mas o mais importante é adaptar aos traços marcados pelo tipo de dor específica do doente: a sua intensidade, as suas características, o seu mecanismo. Começa-se frequentemente com medicação que todos conhecem: paracetamol e anti-inflamatórios. “Mas quando a dor é mais intensa ou tem características especiais, podemos precisar de opioides.” A coordenadora da Unidade de Dor do IPO-Porto esclarece que os opioides não são medicamentos de fim de vida. “Quando bem utilizados, com critério e sob supervisão, são ferramentas muito valiosas no controlo da dor oncológica.”
Existem ainda medicamentos muito específicos para certos tipos de dor, como os antidepressivos e antiepiléticos. “Muitas pessoas ficam surpreendidas ao saber isto, mas estes fármacos são extraordinariamente eficazes quando a dor resulta de lesão de nervos, porque atuam nos mecanismos neurológicos específicos envolvidos.”
Além disto existem várias técnicas intervencionistas que podem ajudar no tratamento: a ecografia e a radiografia são exames usados para localizar, com precisão, as estruturas anatómicas exatas que estão a transmitir a dor do doente desde a origem ao cérebro onde é possível ter a perceção de que essa dor existe. “Uma vez identificadas, podemos bloquear a condução dessa dor específica naquele caminho.” São realizadas infiltrações nervosas, em que é injetado o medicamento junto ao nervo que conduz àquela dor, ou se altera a condução dolorosa, recorrendo a técnicas de radiofrequência, ou até crioablação.
E tratamentos complementares?
O objetivo do tratamento é intervir no caminho preciso onde a dor está a ser transmitida. Existem terapias complementares comprovadas:
- Fisioterapia adaptada;
- Psicoterapia cognitivo-comportamental;
- Acupuntura;
- Gestão do sono.
A combinação de medicamentos, técnicas intervencionistas e comportamentais ajudam a aliviar a dor com o mínimo de efeitos secundários. “Não há uma solução única: há uma solução personalizada e construída especificamente para cada pessoa.” Ana Agrelo explica que aquilo que a move no seu trabalho é a convicção de que cada pessoa merece uma vida com o melhor alívio de dor possível. A confirmação de que o seu trabalho “vale a pena” chegam com comentários de pacientes, como: “Deixei de ter medo de ir trabalhar” ou “consegui voltar a abraçar um neto sem desconforto”.
Que recomendações são dadas para aliviar a dor ou gerir melhor os sintomas?
Existem muitas estratégias eficazes que criam “um ambiente em que o corpo tem oportunidade de cicatrizar”:
- Atividade física adaptada: caminhadas, natação ou ioga, por exemplo;
- Alimentação adequada;
- Sono de qualidade: doentes com insónia experimentam dor muito mais intensa;
- Técnicas de relaxamento e meditação ajudam a modular a resposta do corpo à dor;
- Manter conexões sociais e envolvimento em atividades que entusiasmem a pessoa;
- Compreender que a dor não significa necessariamente que o cancro voltou ajuda a reduzir a componente de ansiedade;
- Gestão do stress.