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Vaticano eleva ecologia a questão teológica e diz que danos ambientais são "pecado contra a Criação"

Comissão Teológica Internacional publicou texto, aprovado por Leão XIV, que conceptualiza a ecologia como questão própria da reflexão teológica e destaca que o cuidado do planeta é imperativo moral.

João Francisco Gomes
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O Vaticano consagrou a ecologia, a sustentabilidade e a preservação do planeta como uma questão teológica, sublinhando que o modo como a humanidade se relaciona com o planeta e se esforça para o conservar revela e molda a sua relação com Deus. O documento publicado esta quarta-feira pela Comissão Teológica Internacional (CTI) com aprovação do Papa Leão XIV surge na esteira dos desenvolvimentos iniciados pelo Papa Francisco, que em 2015 escreveu Laudato Si, a primeira encíclica papal da história dedicada ao ambiente e às alterações climáticas.

A CTI é um grupo de teólogos de todo o mundo que ajuda o Vaticano na investigação e desenvolvimento das grandes questões da teologia de cada tempo, a que no passado já pertenceram alguns dos maiores nomes da Teologia do século XX, incluindo, por exemplo, Joseph Ratzinger, Karl Rahner, Yves Congar e Hans Urs von Balthasar. O grupo publicou esta quarta-feira o documento Cuidar da Nossa Casa Comum. Uma resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, a partir de um conjunto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025.

O documento consolida a ideia, que já tinha sido amplamente reforçada pelo Papa Francisco, de que as questões ecológicas — que ganharam protagonismo nas últimas décadas — devem fazer parte do âmbito de reflexão da teologia, a ciência que se dedica ao estudo académico sobre Deus, a fé e a relação dos seres humanos com o transcendente. Ao longo das décadas, a teologia tem-se aproximado de outras áreas do conhecimento contemporâneo, interligando-se não só com questões das ciências humanas, mas também das ciências naturais.

Aliás, o documento agora publicado pela CTI começa, justamente, com um capítulo dedicado ao diálogo entre várias perspetivas científicas e filosóficas sobre o cosmos e os inícios do universo, para sublinhar que as ciências naturais se empenham na busca do “como”, ao passo que a fé pode encontrar respostas para o “porquê”. Segundo explica o portal de notícias do Vaticano, este documento procura vincar que Deus dá uma origem metafísica, e não apenas física, à existência do universo e dos seres humanos — e que isso se pode identificar na “marca não apenas divina, mas também trinitária” que se observa na criação. Ou seja, a complexidade da “comunidade de vida” que é o mundo, onde “tudo está inter-relacionado” e nada nem ninguém está isolado, traduz também o mistério teológico da Trindade — a ideia cristã de que Deus é simultaneamente um só, mas também três (o Pai, o Filho e o Espírito Santo).

O texto da CTI retoma também a ideia avançada pelo Papa Francisco de apelar a uma “conversão ecológica” diante de um planeta em crise devido às alterações climáticas, que precisa de soluções científicas, mas também de uma “mudança nos valores culturais”. Isto é: o pensamento cristão não pode olhar para o planeta como o mero lugar onde vive o homem, mas como parte da própria criação divina. Por isso, o texto dos teólogos do Vaticano sublinha que, para falar a partir de uma perspetiva cristã dos danos provocados pelo homem ao planeta, mais do que usar o termo científico “ecocídio”, se deverá falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma vez que não está em causa apenas um dano ambiental, mas também uma “rejeição do desígnio divino da criação”, diz o portal do Vaticano.

As circunstâncias em que o mundo vive hoje exigem “de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum”. Para os teólogos, esta não é apenas “uma exigência ética, mas também teológica”.

A proposta da teologia cristã para a relação do ser humano com a natureza deve procurar evitar os “dois extremos inaceitáveis”, defendem ainda os teólogos, referindo-se ao “antropocentrismo predatório”, que olha para a humanidade como “dona absoluta de toda a criação”, mas também ao “biocentrismo”, que faz o oposto, elevando a natureza à categoria de valor absoluto. No meio estará aquilo que o Papa Francisco denominou de “antropocentrismo situado”, que vê o ser humano como “administrador e servidor da Criação”.

O documento relaciona também o pensamento ecológico cristão com o consumismo, sublinhando que “cada ato de compra é um ato moral”; com a necessidade de adotar um estilo de vida saudável, respeitando também o próprio corpo como parte da criação; com a necessidade de combater a pobreza e evitar a sobre-exploração dos recursos do planeta; com a urgência de rejeitar a guerra, forma suprema de preservar a vida humana; e ainda com a possibilidade de um diálogo entre religiões centrado na salvaguarda de um planeta comum.

Esta semana, o Papa Leão XIV presidiu a uma missa pelo “Cuidado da Criação” nos jardins da residência papal de Castel Gandolfo, que o Papa Francisco transformou num projeto de sensibilização ambiental com vários hectares de agricultura biológica. Na celebração, o Papa assinalou que da contemplação da natureza deve surgir “a consciência do nosso lugar especial no maravilhoso plano de Deus e da nossa responsabilidade pessoal e coletiva no cuidado da harmonia original”.