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(A) :: Um homem que não era o ministro da Administração Interna

Um homem que não era o ministro da Administração Interna

Este homem acerca do qual uma das poucas certezas é que não se tratava do ministro da Administração Interna conseguiu, por instantes, ser notícia. Não é coisa pouca.

Alexandre Borges
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Na manhã de domingo passado, um homem de nacionalidade portuguesa, 36 anos, invadiu a placa do aeroporto internacional de Lisboa. Eram cerca das 8h55, confirmou fonte da PSP. Saltou a vedação junto ao terminal de carga e avançou, tranquilamente, durante alguns metros e minutos, pela zona de estacionamento dos aviões, até ser interceptado por um funcionário do aeroporto.

Este homem não era o ministro da Administração Interna. Sabemos muito pouco ou mesmo quase nada sobre ele, mas sabemos que não era o ministro porque, do pouco que sabemos, sabemos que tinha 36 anos e o ministro não tem 36 anos. Nem 35, nem 37; não há hipótese de confusão. Nas imagens de vídeo que se conhecem, é visto ao longe, não se consegue perceber bem a cara, mas também a fisionomia não corresponde à do ministro da Administração Interna. Este era outro homem, um homem que caminhou calmamente entre grandes aeronaves de metal, em direcção não se sabe a quê, sem casaco, sem pasta, sem bagagem, aparentemente sem nada – sem uma arma, boas notícias! –; só a roupa que tinha no corpo, serenamente, em mangas de camisa, rumo a qualquer coisa que o obrigava a atravessar a placa de um aeroporto intensamente movimentado.

Não sabemos mais nada sobre ele. Sabemos que, depois de interceptado pelo pessoal do aeroporto, foi entregue à Polícia de Segurança Pública, assistido pelo INEM e transportado para o Hospital de São José, a fim de fazer uma avaliação médica. E que o incidente não justificou uma interrupção do espaço aéreo, por mais breve. Depois, as informações terminam. Este homem sem nome, só uma idade, uma nacionalidade e a roupa que tinha no corpo, entrou e saiu das notícias. Rapidamente. Saltou a vedação e avançou pela actualidade até ser travado. Não chegou a ter um porquê. Fim da história.

Era 30 de Agosto. Quereria fugir a Setembro? À rentrée? Ao regresso da vida dita real? Era também domingo. Terá pensado voar para longe do terror de segunda-feira, já ali a espreitar do outro lado do relógio? Ou seria só daqueles apaixonados da observação de aviões? Dos que, habitualmente, ficam na vedação a vê-los levantar e aterrar e sabem as marcas e modelos de todos e que, desta vez, simplesmente, quis espreitar mais de perto?

Talvez estivesse apenas cansado dos pró-formas das viagens aéreas. De filas e check-ins, drop-offs e detectores de coisas, ter de abrir a mala e separar líquidos e computadores, descalçar-se e tirar o cinto, dar três voltas ao free shop, pagar uma quantidade avultada de euros por um café e meia torrada enquanto espera as portas de embarque e mostrar os documentos de identificação, zonas A, B, C e outras prioridades, “aguarde a sua vez”,  muitos atrasos devido a “razões alheias à nossa vontade” ou à “chegada tardia da aeronave” e “tudo faremos para o compensar”, “por favor, siga as instruções de segurança”. A aviação comercial começou há mais de 100 anos, caramba!, já devíamos saber fazer isto de maneira mais fácil, talvez tenha pensado. Chegar e entrar. Se este avião estiver cheio, entro no próximo. Como um cidadão adulto e responsável pelas suas escolhas. Sem ter de me sentir constrangido nos meus direitos de cada vez que quero ir daqui ao Porto ou a Benidorm.

Este homem acerca do qual uma das poucas informações que podemos adiantar, com certeza absoluta, é que não se tratava do ministro da Administração Interna conseguiu, por instantes, ser notícia. Não é coisa pouca. Num tempo em que o dito parece apenas o mais candente exemplo do paradoxo em que nos enclausurámos enquanto habitantes da economia da atenção.

Nada sabemos acerca da avaliação médica. Naquela manhã de domingo, um homem sem nome e sem pressa, brevemente captado pelas câmaras dos telemóveis, saltou a rede e escapou.