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Como as barragens ajudam a energia solar em Portugal

Em 2007, tivemos um ambicioso projeto energético, com reforço da produção hídrica e intensificação da aposta nas energias solar e eólica, mas várias das barragens previstas nunca foram construídas.

Paulo Monteiro Rosa
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Desde meados da primavera, o preço da eletricidade no mercado ibérico tem sido muitas vezes de 0 €/MWh nas horas de maior produção solar, e o último dia de agosto não foi exceção. Ou seja, as centrais solares fotovoltaicas podem produzir bastante, mas a eletricidade que produzem praticamente não vale nada no mercado grossista. Este é um problema conhecido como canibalização do preço da energia solar, isto é, quanto mais capacidade solar existe, maior é a oferta nas mesmas horas, mais baixo tende a ser o preço nessas horas e menor é a receita obtida por cada MWh produzido. Assim, enquanto os parques solares são cada vez mais penalizados, há pelo menos alguns produtores de energia que beneficiam desta nova realidade: as barragens com bombagem reversível. Durante várias horas do dia a 0 €/MWh, as centrais de bombagem reversível têm um incentivo enorme para consumir eletricidade, bombeando a água para a albufeira superior, para depois produzir durante a noite, quando o preço é elevado e chega mesmo aos 200 €/MWh, turbinando a água novamente para a albufeira inferior. Portanto, há uma transferência de valor entre produtoras de eletricidade. A solar contribui para baixar o preço nas horas de maior produção e a hídrica com bombagem consegue arbitrar essa diferença temporal de preços.

Esta exposição é, contudo, menor num parque solar com um PPA (Power Purchase Agreements, ou seja, contratos de aquisição de energia) a preço fixo por vários anos do que num parque que vende diretamente no mercado, estando este, por isso, mais exposto à canibalização do preço solar.

Uma solução particularmente interessante para procurar maximizar economicamente um parque solar fotovoltaico, enquanto as baterias químicas não são uma resposta cabal, é associar uma central hidroelétrica com bombagem reversível, beneficiando da complementaridade entre ambas.

O sistema Alqueva-Pedrógão é um bom exemplo desta complementaridade. Na albufeira do Alqueva, a EDP instalou cerca de 12 mil painéis fotovoltaicos flutuantes, com uma potência de quase 5 MW e uma produção anual estimada em 7,5 GWh. A proximidade da água ajuda ainda a arrefecer os painéis, aumentando a sua eficiência e, consequentemente, a produção de eletricidade.

A central hidroelétrica do Alqueva tem bombagem reversível, permitindo aproveitar períodos de excesso de produção solar para bombear novamente a água da albufeira inferior de Pedrógão para a albufeira superior do Alqueva, ambas ao longo do rio Guadiana. Esta última funciona como uma “bateria natural”, armazenando sob a forma de energia potencial boa parte da “eletricidade utilizada” na bombagem. Essa energia poderá mais tarde ser utilizada para voltar a produzir eletricidade quando a água descer e for turbinada para a albufeira de Pedrógão.

Ou seja, teoricamente, tendo em conta uma eficiência global do ciclo (bombagem e turbinagem) à volta de 80%, se os 7,5 GWh de produção fotovoltaica forem utilizados na bombagem, podem ser recuperados cerca de 6 GWh de eletricidade quando a água for novamente turbinada.

Esta complementaridade não exige, todavia, que os dois locais de produção estejam no mesmo sítio. Desde que ambos participem no mesmo mercado elétrico, como é o caso do mercado ibérico, uma empresa pode ter um parque solar no Alentejo e uma central com bombagem reversível no norte do país, funcionando esta última como uma espécie de hedge (uma proteção) quando os preços da eletricidade descem bastante nas horas de maior produção fotovoltaica.

Uma barragem reversível pode ser, assim, uma salvaguarda contra uma eventual falência. Esse risco ficou recentemente evidente com a insolvência da empresa responsável por uma central fotovoltaica em Portugal, afetada também pelos preços nulos ou negativos da eletricidade.

Apesar do elevado investimento inicial, as barragens são uma das formas de produção de eletricidade mais eficientes, pois têm uma vida útil muito elevada, que pode chegar aos 80 ou 100 anos, e custos marginais de produção muito baixos. O investimento inicial acaba por ser diluído por muitas décadas de produção, permitindo obter eletricidade a um custo relativamente reduzido. Portugal tem condições particularmente favoráveis, sobretudo no Norte, onde existe abundância de água e relevo acentuado. E cimento não falta, é uma matéria-prima nacional.

Portugal, em 2007, lançou um ambicioso projeto energético, com reforço da produção hídrica e intensificação da aposta nas energias solar e eólica, mas várias das barragens então previstas nunca chegaram a ser construídas. Alvito e Girabolhos, por exemplo, foram metidas na gaveta em 2016.

Enquanto isso, apesar das dificuldades enfrentadas por alguns produtores de eletricidade, sobretudo fotovoltaica, as empresas de “pás e picaretas” (picks and shovels) vão fazendo dinheiro. As empresas que constroem parques fotovoltaicos continuam a ganhar dinheiro, tal como aconteceu na corrida ao ouro nos EUA no século XIX ou acontece atualmente na corrida à inteligência artificial, em que fabricantes de hardware como a Nvidia ganham dinheiro com os seus poderosos chips.

Em suma, a bombagem reversível pode tornar o problema da canibalização solar numa oportunidade.