A francesa Alice Winocour é uma realizadora bissexta. Ora faz um filme bom e interessante (Maryland, Memórias de Paris), ora passa ao lado do alvo (Augustine, O Espaço Entre Nós). A sua nova fita, Couture, ambientada nos bastidores da moda de Paris (Winocour foi a primeira cineasta a ter acesso às instalações da Chanel), pertence à segunda categoria, apesar de ter Angelina Jolie como produtora e no papel principal. Jolie interpreta Maxine, uma realizadora de filmes indie em ascensão e com preferência pelo terror, que vem a Paris rodar a curta-metragem de abertura da apresentação da nova coleção de uma grande marca, e descobre que tem cancro da mama, precisando de começar a ser tratada o mais depressa possível.
[Veja o “trailer” de “Couture”:]
https://www.youtube.com/watch?v=vwDqxFH8a78
Além de Maxine, que é a personagem principal e o centro dramático do filme, Couture segue, paralelamente, duas outras mulheres ligadas ao mundo da moda. Ada (Anyier Anei), uma adolescente sudanesa aspirante a modelo recentemente “descoberta” por um agente, que está refugiada com a família no Quénia, quer estudar Farmácia e se vê de súbito numa cidade estranha e num ambiente que desconhece; e Angèle (Ella Rumpf), uma maquilhadora freelancer que está a escrever um livro passado no mundo da moda, e se aconselha, entre trabalhos, com um editor, na esperança de ser publicada.
[Veja uma entrevista com a realizadora:]
https://www.youtube.com/watch?v=cP_H9QCRxSc
Há ainda uma outra personagem, mais secundária e discreta. Christine (Garance Marillier), uma jovem costureira que está a fazer o vestido que Ada vai usar na abertura do desfile, e é como que a representante da realizadora no filme: é ela que tem de assegurar que fica tudo bem cosido e ninguém faz má figura. Temos assim, em Couture, três mulheres no mundo da moda e as suas histórias: uma que não lhe está associada e veio apenas fazer um trabalho (Maxine); outra que hesita entre fazer carreira nele, ou virar-lhe as costas (Ada); e outra que labuta no seu interior mas não quer ficar lá para sempre. Todas são postas perante escolhas difíceis, e a de Maxine é a mais drástica: ou faz o seu próximo filme, ou se submete à quimioterapia.
[Veja Angelina Jolie falar sobre o filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=pkeZ7qNj0sw
Existe uma ligação direta entre Maxine e Angelina Jolie, que em 2013 fez uma dupla mastectomia, seguida de cirurgia reconstrutiva, para prevenir o cancro na mama de que morreu a sua mãe, com apenas 56 anos. A situação da personagem decerto dirá muito à atriz, que pretenderá consciencializar as mulheres sobre este assunto. É compreensível e louvável. Mas não é por isso que Couture não deixa de ser um filme dramática, narrativa e visualmente inerte, descolorido e raso, em que a personagem de Jolie é a única suficientemente desenvolvida para captar a nossa empatia (Louis Garrel e Vincent Lindon também aparecem, em figuras estereotipadas e utilitárias, respetivamente no diretor de fotografia de Maxine e no médico que lhe deteta o tumor).
Alice Winocour, igualmente autora do argumento, também pouco ou nada tem a mostrar ou a dizer sobre o mundo da moda que já não saibamos, ou que já não tenha sido mostrado, dito e redito noutros filmes lá ambientados, sejam dramas, sejam comédias, de Prêt-a-Porter, de Robert Altman e Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, a Chique!, de Jêrome Cornuaud e Alta Costura, de Sylvie Ohayon, entre muitos outros. Se trabalhasse numa grande casa de moda parisiense como a do filme, e apresentasse aos seus superiores o equivalente de Couture em vestido, ou era despedida, ou ficava a apanhar agulhas durante bastante tempo.