Eufrásio amigo
Conheci o Eufrásio enquanto aluno da faculdade de medicina. Estávamos na década de noventa quando nos primeiros dias de aulas reparei num rapaz, algo franzino, mas dono de um sorriso cativante. Era impossível não dar pela sua presença. Tornei-me seu amigo e durante seis anos foi meu companheiro de estudo, desvarios e aventuras. De grandes aventuras.
Eufrásio era natural de Amarante e filho de gente nativa de aquelas paragens. Pelo que me contava, e também do que observei quando com ele privei na terra natal, tinha origens humildes. À exceção de um tio emigrante no Brasil de quem herdara o nome, descendia de gente simples que do trabalho diário dependia para a subsistência de cada dia. Era à época gente para quem o sonho de uma vida digna encerrava um esforço e custo insuportável. Eufrásio, gostava de brincar com a situação e dizia preferir que outros sobrinhos tivessem herdado o nome e para ele ficasse reservado o outro tipo de bens, tudo para honrar a memória do tio Eufrásio, acrescentava sempre com aquele sorriso encantador.
Quis a vida e fortuna que a sorte não lhe sorrisse dessa forma. Bem vistas as coisas, talvez outros ramos da família estivessem mais necessitados pois, se havia coisa que, já na altura, ninguém tinha dúvida, era do sucesso a que Eufrásio estava predestinado. Tinha a sedução de quem se mantém à tona qualquer que seja a corrente.
Eufrásio entrepreneur
Ainda antes de entrar para a faculdade, em Coimbra diga-se de passagem, Eufrásio tinha-se iniciado como jogador de ténis, o que viria a ser determinante na sua vida estudantil.
Não era propriamente exímio nesse desempenho, mas conseguiu prémios em torneios, cujo resultado dependia essencialmente do número de inscritos. E era com gáudio que exibia os troféus, sempre de segundos, terceiros ou de presença, dependendo, como já disse, do denominador a aplicar. O rapaz tinha jeito para aquilo. Vendia-se bem!
Bom, vendia-se tão bem que tomou a peito a ideia de colher rendimentos desse bater a bola, fazendo-a saltar a cerca.
E foi assim que Eufrásio se lançou nessa empreitada. Fossem esses tempos os de hoje e seria “entrepreneur”, alguém capaz de fazer valer mais a iniciativa do que a ideia subjacente.
Tornou-se assim, aos dezanove anos professor de ténis da Associação Académica de Coimbra. Dividia então o seu tempo entre os estudos e uma atividade que lhe permitiu uma vida estudantil sem restrições.
Enquanto professor de ténis, e já nos preliminares da atividade, preparava os alunos – leia-se equipava – para a prática desportiva. Recomendava toda uma série de equipamentos, que mostrava em catálogos – para os leitores da geração Z, catálogos eram uma espécie de “cookies” de anúncios, só que em papel – e assim vendia o que recomendava e encomendava mediante sinalização – uma “Farfetch” muito à frente do seu tempo.
Sempre com “olho para o negócio”, não se limitava a vender apetrechos e dar aulas. Imaginou ainda uma série de atividades que iam desde aulas em regime intensivo, que designava por “clínicas”, a torneios, seminários, estágios em sítios improváveis e sempre com tudo-incluído, claro. Enfim, uma variedade de serviços onde dava largas à sua, já na altura, fértil imaginação criativa.
Mas onde brilhava era nas aulas – de ténis. Não confunda o leitor qual das atividades tinha como hobby.
Aí o Eufrásio, e desde que o conheci reparei, era diferente de qualquer um de nós. Se num grupo de raparigas havia uma mais bonita, era inevitável e ninguém lhe tirava os olhos de cima. Havia como que um íman, um magnetismo que tornava essa obliquidade do olhar como inescapável.
Eufrásio príncipe
Pois o Eufrásio também assim era. Só que para as mais feias. Se houvesse no grupo uma matrona, ou de peitos “a descair para o pai”. Uma de olhos em vidro de garrafa, peluda, ou de pernas curtas e tortas, pois era a essa que Eufrásio dedicava toda a atenção.
Quando as descortinava assim, envolvia-as de carinhos, sorrisos e outras mordomias tantas que era inevitável, sentiam-se especiais. E o Eufrásio, de sorriso cativante, todo ele desvelos, era o seu “príncipe”, uma espécie de Robin dos Bosques da beleza.
Numa altura, num daqueles momentos em que abrimos a alma ao amigo mais chegado, confessou-me:
– As mulheres bonitas quando ainda sem a influência da gravidade, são sempre demasiado convencidas ou desconfiadas. Não é, por isso, boa estratégia abordá-las de forma direta. É demasiado óbvio. Há que seguir um outro caminho, um outro ardil.
E continuava a teorizar, rapariga bonita nunca tem numa outra, igualmente bonita, a sua melhor amiga. Não toleram competição e por isso procuram sempre uma “patinha feia” que não faça sombra. Só assim as admitem como confidentes e “best friend forever” – afastar qualquer competição – está-lhes na alma.
Eufrásio foi para mim o primeiro a teorizar sobre o tema – detrás de uma mulher feia há sempre pelo menos uma bonita. E para o Eufrásio, isto não era apenas teoria, era uma prática recorrente que aplicava. Num ardiloso planeamento, namorava as mais feias, para depois, não muito depois, colher “as mais-valias” do investimento – não esqueçamos que Eufrásio era dado à lógica capitalista, mesmo nas coisas dos sentimentos.
E era assim que o via nas aulas de ténis. Quase sempre com um público feminino. Um público onde umas, vai-se lá saber porquê, passavam horas infindas a “bater bola à parede”, enquanto outras se iniciavam na prática do ténis logo pelo serviço.
Eufrásio, para lhes ensinar a tecnicidade do serviço, abordava-as por trás. Colava o seu corpo ao delas, e de corpos juntos, primeiro mostrava-lhes a leveza com que deveriam atirar a bola ao ar, para que esta tombasse exatamente na perpendicular ao ponto de apoio – e aqui a posição de pernas e pés era demasiado importante para que desleixasse esse pormenor. Para aumentar o equilíbrio da graciosidade com que se moviam em perfeita sincronia, uma perna teria de estar adiantada e a outra, a que ficava para trás, devia estar fletida, de forma que o tronco pudesse tombar ligeiramente para trás e assim permitir que uma linha visual sem esforço acompanhasse o trajeto da bola arremessada. E era assim, numa pose de dois “s” itálicos que iniciava a jovem tenista nos mistérios do serviço.
Porém, só depois de apurar o arremesso na perfeição, só então vinha o serviço propriamente dito.
Só chegavam a esta parte mais avançada da aula as alunas mais predestinadas. Enquanto umas batiam a bola à parede tempos infindos, outras, as eleitas para as coisas do ténis, iniciavam-se nos meandros do serviço.
Como iniciador profissional que era, Eufrásio continuava a abordá-las delicadamente pela parte de trás das frentes. Colava-lhes o corpo, como peças de um faqueiro. Permitia-lhes então o lançamento, enquanto, e aqui dependia do membro dominante, com um braço abraçava-as por onde a ergonomia das intenções, na ocasião, visse como mais apropriado. Só quando sentia que os dois corpos em uníssono se alinhavam no serviço, só então permitia à aluna que comandasse a pancada que, quando bem conseguida, era celebrada com redobrada satisfação.
Assistir aquelas aulas, era ver um ensaio de bailarinos numa sintonia comandada pelo baque seco da pancada e o sucesso do comando da bola. Os corpos moviam-se com graciosidade tal, que para mim, já atento às coisas da estética, me pareciam imbuídos de um erotismo discreto, mas implícito. Seguramente uma perversão minha, em resultado de uma adolescência mal resolvida e que à época tudo sexualizava.
Eufrásio aprovado
Como é bom de ver, Eufrásio tinha pouco tempo para os estudos, mas lá conseguiu terminar o curso de medicina nos seis anos habituais. Conseguiu, mas há que dizê-lo, mais à custa do engenho que do empenho.
Há, contudo, um episódio, o primeiro que lhe conheci, que o define como imaginamos um estudante numa Coimbra que, saída de uma era quase feudal, dava os primeiros passos de abertura a uma modernidade já visível, mas ainda incipiente.
No primeiro ano da faculdade tínhamos uma cadeira que pomposamente se designava por Química Médica. Não era propriamente uma cadeira difícil, mas para quem no secundário não tivesse adequada introdução àquela linguagem, tudo aquilo lhe pareceria esotérico. Assim aconteceu a Eufrásio. Não conseguia entrar no léxico, não entendia o que lhe diziam nem tinha como se expressar nos termos que lhe exigiam.
No primeiro ano reprovou três vezes a essa cadeira e, no final do segundo, depois de mais uma reprovação, só lhe restava a oportunidade de setembro para a completar sem atrasar um ano.
Preparou-se o melhor que soube e lá foi, pela quinta vez tentar a passagem. Porém, exame feito, as notas teimavam em não sair. Ansioso que estava, pois não poderia transitar de ano com uma cadeira do primeiro ano por fazer, procurou no departamento de química aquela que fora a sua assistente nas práticas.
Perguntou pelas notas, ao que a assistente lhe respondeu que ainda não tinha feito a correção.
Incapaz de gerir a ansiedade, atreveu-se então a pedir que desse uma olhada no seu teste. Uma exceção que concedia para lhe sossegar a ansiedade.
A assistente anuiu, mas à medida que virava as páginas do teste, ia abanando a cabeça em sinal de desaprovação. Tolhido pela linguagem corporal, quis Eufrásio ter confirmação mais explícita e perguntou – então Sr.ª Dr.ª, não vai dar pelo menos para o dez?
A assistente, uma rapariga nova, disse com a ironia de quem se sente empoderada pelo controlo da vida do outro – nem pondo num altar, ao seu Santo predileto, uma vela do seu tamanho, nem mesmo assim me parece que haja milagre que o safe! Estava feito! Assim se sentiu!
Isto foi o que Eufrásio me contou. Não sei se houve mais conversa sobre Química Médica, o teste propriamente dito, a importância da cadeira para transitar de ano, ou se sobre um outro qualquer assunto.
O que sei é que dias mais tarde lá estavam, na pauta, as notas da época de recurso da cadeira de Química Médica, e nestas – Eufrásio 12,3 (doze valores e três décimas). Não havia dúvidas, a conversa tinha funcionado.
Eufrásio que não era ingrato, foi comprar uma vela a que chamuscou a ponta e entregou à assistente dizendo – Sr.ª Dr.ª, sobrou-me este coto. Trago-o para que possa servir para o próximo aflito que por aqui apareça!
Dias mais tarde, a assistente de química começou a ter aulas de ténis, iniciando-se logo pelo serviço. E foi assim que Eufrásio terminou o curso sem nunca ter repetido nenhum ano.
Eufrásio reencontrado
Os anos passaram e durante quase três décadas não lhe pus a vista em cima, até que um dia, numa reunião de curso, uma das que rotineiramente se fazem, lá o encontrei, sorridente e cativante como sempre.
– Eufrásio, há anos! … e demos um abraço tão sonoro e genuíno que por entre os sorrisos de satisfação de quem assistia, creio que cheguei mesmo a ver lágrimas de emoção.
Eu e Eufrásio éramos muito amigos. Agora, passados quase trinta anos, sentia-me incomodado. Como tinha sido possível passarem quase três décadas sem que nos voltássemos a ver?
A vida de médico, na nossa geração, era exigente. Exames, internatos, trabalho assistencial, investigação, publicação, participação em múltiplas reuniões nacionais e internacionais, compromissos, responsabilidades e família. Todas elas solicitações exigentes, ciumentas mesmo. Não havia como distribuir o tempo de forma equilibrada. Esse era o legado da geração anterior. Não sobrava tempo para a vida privada, para a família ou para os amigos. Agora, ao ver Eufrásio, como num flash, tudo me parecia evidente, tudo era questionável. Trinta anos, como fora possível!
As reuniões de ex-alunos são sempre dominadas pela excitação do tempo perdido que naquele momento parece poder ser recuperado. Cada um, como numa mostra de talentos, com maior ou menor timidez, vai hipertrofiando o que na vida lhe parece mais distintivo. E não faltam as doenças. À medida que chegamos à fasquia dos sessenta acumulamos toda uma série de maleitas que, ora exibimos orgulhosamente, ora expomos na expectativa de um ombro solidário.
Eufrásio realizado
Por entre a excitação, Eufrásio estava sorridente como sempre, participativo nas histórias, mas não se abria muito quanto à sua própria história. Estaria casado? Teria filhos? Sabia que trabalhava no Norte, mas não o que fazia, nem onde.
Tinha-lhe perdido o rasto por alturas da escolha da especialidade. Na altura tinha procurado um lugar de Medicina Interna. À época as vagas de Medicina Interna eram as mais procuradas – outros tempos!
Para Eufrásio, não havendo a especialidade de Medicina Desportiva e sem nota para entrar em Ortopedia, acabou por escolher Saúde Pública ou Medicina Geral e Familiar, ao certo não me recordo. Foi por aí que lhe perdi o rasto.
Naquela reunião de quase sexagenários era inevitável que se falasse da profissão, das suas venturas e desventuras. E todos excitados lá íamos contando o que nos acontecera durante aqueles trinta anos.
Eufrásio mantinha-se calado. Não fazia ideia do que lhe tinha acontecido. Acabei por quebrar, ainda que sem outra razão que não a curiosidade, o silêncio a que parecia ter-se remetido.
– Então, Eufrásio, terminaste a especialidade? Onde trabalhas agora?
– Sou enfermeiro Supervisor num hospital do Porto.
– Enfermeiro? Dei uma gargalhada, ainda que sem compreender a piada!
– Sim – respondeu, perante o espanto de todos –, tirei enfermagem e abracei essa carreira. Não me saí mal!
E continuou – a carreira de médico carrega demasiado. Os médicos fazem urgências, estudam, publicam, participam em congressos. Trabalhos que pesam e que se habituaram a realizar, por imposição, e a agradecer, por devoção. Todos querem ser felizes. Alguns gostam do martírio, mas a maioria apenas vê nele um caminho para a felicidade – a escada do mérito. O que descobri é que, para a realização pessoal, este não é o único caminho. Se queria ser feliz, o caminho mais curto era procurá-la diretamente em vez de procurar justificações para a merecer.
Entrei em Medicina Geral e Familiar (MGF) em Vila Nova de Gaia. Não demorou muito para perceber que o sacrifício não justificava o objetivo final. Na vida de interno, pouco tempo tinha para mim e para o ténis. Tudo se resumia a abnegação. Uma renúncia sem destino. Olhava para os mais velhos e via-me neles, mais velho, envolto nas mesmas rotinas. Sentia-me como um náufrago que esbraceja sem encontrar a salvação que lhe prometiam estar por ali. São todos náufragos, só que o não sabem, não se veem.
Foi então, nas aulas de ténis a que continuava a dedicar-me, que conheci uma enfermeira, uma enfermeira gestora que me abriu os olhos.
Eu andava deprimido, triturado por uma atividade que não me dava tempo para respirar, e um dia, em conversa, falou-me do que fazia. Aí percebi que andava enganado. Não seria fácil, mas para alguém pragmático como eu, havia a possibilidade de ter um percurso, mas num trajeto desenhado por mim e adaptado às minhas ambições.
Na altura era interno de MGF e preparava-me para tentar entrar em ortopedia. Porém, a conversa com a enfermeira abriu-me os olhos. Para quê sacrifícios, se havia um outro caminho?
– Não resisti e perguntei:
– E és feliz como enfermeiro?
– Claro que sou! Espera que já me vais entender!
Tomada a decisão, entrei numa Escola de Enfermagem. Para a maior parte das cadeiras pedi equivalência. Não tive grande dificuldade. Era licenciado em Medicina e tinha doze valores e três décimas em Química Médica. Em menos de três anos terminei a minha “especialidade” – a licenciatura em Enfermagem.
Os primeiros anos não foram fáceis. Houve momentos em que questionei se tinha tomado a decisão certa. Mas foram curtos os tempos de dúvida.
Como gostava de desporto tirei uma pós-graduação em reabilitação e, mais tarde, uma outra em gestão. Foi rápida a minha progressão, primeiro para especialista e depois para gestor.
Na enfermagem, cedo comecei a dar nas vistas. De uns, porque fazia demasiada sombra e nunca me perdoariam ser também médico. Viam-me como um corpo estranho, algo que nem tentavam digerir, rejeitavam liminarmente. Outros, felizmente os de maior poder de decisão na altura, viam-me como uma mais-valia que poderia ser vantajosa se usada habilmente.
Quando me colocavam em setores de enfermagem sabiam que deixava pouca margem de manobra junto dos colegas. Tinha conhecimento médico, mas era seu par para todos os efeitos. Respeitavam-me e nenhuma reunião terminava sem perguntarem: Então sr. Enf. Eufrásio, qual é a sua opinião? O Enfermeiro Supervisor apreciava esta minha persuasão só pela presença.
Quando representava os Enfermeiros em reuniões de médicos, aí sentia-me Deus duas vezes. As minhas chefias intuíam o incómodo que causava e por isso a minha presença era sistematicamente disputada. As oportunidades surgiam-me e, o caminho das pedras de todos, foi-me atapetado com musgo num aveludado e macio trajeto.
– Poucos anos depois da decisão, vocês ainda estavam a ver o internato pelo espelho retrovisor e eu já era enfermeiro especialista e gestor.
– E sentes-te realizado?
– Claro que sinto! Enquanto vocês fazem horas infindas em urgências, horas extra extenuantes, enquanto levam para casa, nos ombros, o peso do dia e a responsabilidade das decisões, enquanto se esfacelam numa competição sem espaço para respirar e a ilusão do mérito vos tira o sono, eu, um nado na vossa geração, já era enfermeiro gestor de um centro de responsabilidade integrada de uma área médico-cirúrgica.
– E isso compensa? Perguntei a medo, pois já antecipava a resposta!
– Eufrásio meteu a mão ao bolso e mostrou-me uma folha de remuneração.
Obsceno, obsceno três vezes. Senti-me envergonhado!
Tentei disfarçar o embaraço e perguntei – não é isso, trabalhas num centro que nada tem que ver com a tua especialidade!
– Em enfermagem, ter uma especialidade é indispensável para se progredir. A progressão não segue obrigatoriamente o trilho da especialidade. É um pouco como na tropa, não é uma competência, é um posto!
– Mas não te sentes diminuído quando trabalhas com médicos – médico, que diga-se se passagem, também és? Não te sentes frustrado por as decisões serem sempre médicas, tomadas por médicos?
– Isso é um erro em que os médicos incorrem com facilidade. Os médicos são responsáveis pela decisão, mas não são os decisores.
– Os médicos têm a responsabilidade dos resultados, em especial quando a coisa corre mal. Quando tudo sai bem, há sempre uma equipa multidisciplinar por quem dividir méritos e louros. E os médicos sentem-se felizes, sentem-se magnânimos.
Eufrásio no topo
Estava atónito. O pragmatismo de Eufrásio nunca me parecera tão lúcido. E Eufrásio continuava, perante o espanto do pequeno grupo que se juntou para o escutar:
– Os políticos compreenderam que se deixarem as decisões no patamar dos técnicos, isto é, dos médicos, rapidamente são devorados pelas razões e triturados nas justificações. Há que dividir para reinar. Há que estimular opiniões divergentes, ainda que artificiais. Há que fazer sentir nos outros profissionais de saúde que a discordância é sempre bem-vinda. Não como caminho para a razão, mas numa relação duplamente vantajosa, em que ganha quem divide para reinar e ganha quem assim assume protagonismo.
– É por isso que defendem de forma tão aguerrida a terminologia da multidisciplinaridade, da integração de carreiras e da responsabilidade repartida.
– Mas, perguntei eu, nas responsabilidades repartidas não sentes que ficas dependente da decisão médica?
– Ora, essa é a outra parte da beleza do que faço! Os médicos acham que têm a capacidade e o dever da decisão, mas em boa verdade dependem do meu consentimento e anuência. Trabalho multidisciplinar é isso. Se a iniciativa de uma decisão, a proposta, fosse minha, poderia ser bloqueada por outros. Mas nunca é minha e por isso a capacidade de bloqueio está sempre do meu lado. Precisam de mim, da minha anuência e por isso desfazem-se em simpatias. Trabalho em equipa e multidisciplinar é isto. Se algo corre mal, há sempre quem se veja no topo da pirâmide e assuma as culpas. Se corre bem, é trabalho de equipa!
Estávamos atónitos. Por breves momentos refletíamos no nosso percurso e nas convicções que enviesadamente e por paralaxe tomávamos por realidade.
Eufrásio, o enfermeiro Supervisor, tinha atingido o topo da carreira. Eufrásio era chefe e como a abelha-rainha só tinha de reinar. Eufrásio, não era médico, também não era enfermeiro. Eufrásio era um profissional de saúde, um príncipe para nós. E continuámos a festa do reencontro. Terminámos ébrios, sabedores que agora acabávamos as festas por onde, há trinta anos, as começávamos.