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(A) :: Era feliz se ganhasse o Euromilhões?

Era feliz se ganhasse o Euromilhões?

Numa sociedade cada vez mais obcecada com limar defeitos, em busca do corpo ideal, da vida perfeita, não faria mal abandonar este sonho de completude que simplesmente não se concretiza. 

Leonor Gaião
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Para alguns, o mês de setembro é apenas uma continuação do que já estava a ser feito, mas para muitos é uma lembrança de tudo aquilo que ainda falta conquistar. Nas férias, o ritmo muda, por umas escassas semanas deixamos de procurar os mesmos estímulos e as recompensas do dia passam a ser outras: a satisfação que sentimos quando mergulhamos no mar; o calor suave da brisa de verão ao entardecer; as noites longas e uma sensação de eternidade que se estende até à manhã seguinte, sem horas para acordar nem mais um dia de trabalho simétrico a todos os outros que o antecederam.

Com o regresso ao trabalho, às aulas ou simplesmente à rotina, a falta de vontade de recomeçar caminhos já percorridos pode misturar-se com ansiedade perante o futuro, falta de entusiasmo, medo de falhar ou até com uma sensação de “estou a fazer isto tudo para quê?”. Por outro lado, o regresso à rotina pode desencadear um desejo súbito de conseguir alterá-la e trazer pensamentos típicos de ano novo como “agora é que vai ser” ou “até dezembro sou outra pessoa”.

Na vida, temos muitos momentos “agora é que vai ser”. Até poderia parecer patético se não fosse normal, afinal, trata-se de uma resposta básica do ser humano, um instinto complexo de sobrevivência que de uma forma simplista podemos explicar com o sistema dopaminérgico, responsável por controlar e influenciar grande parte das nossas motivações, bem como pela necessidade de procurar prazer e recompensas.

Seja por defeito de fabrico dos nossos neurotransmissores, seja pelo quão útil já foi ter uma resistência férrea para procurar alimento e segurança nos lugares e nos momentos mais imprevisíveis, a verdade é que a caçada mudou muito. Estaremos condenados a procurar sempre mais? Será que vai chegar aquele momento de satisfação plena que tanto ansiamos? A casa vai ser finalmente aquela em que nos vemos a envelhecer; o carro vai ser aquele em que cabe toda a família; o emprego vai ser aquele que nos enche as medidas dos bolsos e da concretização profissional; o companheiro amoroso vai ser a alma gémea que prometiam as ilusões ilimitadas da criatividade humana? Será que chega esse momento em que pousamos a cabeça no travesseiro para adormecer sem ansiedade sobre o que falta conquistar no dia de amanhã?

Os optimistas talvez acreditem que esse dia vai chegar, os pessimistas que o nosso cérebro é uma maldição incapaz de se satisfazer e os mais curiosos que tem de haver uma resposta para a permanente insatisfação do ser. E procuram explicá-la desde sempre, cada um à sua maneira. Na sua segunda carta a Lucílio, Séneca argumenta “Não é pobre quem tem pouco mas sim quem deseja mais (…) Que importa o que temos no cofre … se fizermos as contas não ao que possuímos mas ao que queremos possuir?” Volvidos mais de dois mil anos, os psicólogos e neurocientistas ainda se debruçam sobre o mesmo tema, talvez sinal de que os tempos não nos mudam assim tanto. Mas não é por ingratidão ou por pura teimosia que aquilo que temos nunca nos parece suficiente. A busca constante por uma nova recompensa é mais do que um capricho, é quase um traço biológico, um estado base, para o qual hoje até temos um nome: adaptação hedónica. Os seres humanos têm uma tendência observável para voltar a um estado padrão nos seus níveis de felicidade, mesmo quando os acontecimentos da vida os puxam para grandes euforias.

No final dos anos 70, foi publicado o estudo “Lottery winners and accident victims: is hapiness relative?” (Vencedores da lotaria e vítimas de acidentes: é a felicidade relativa?). Os resultados mostraram que com o passar do tempo, tanto os vencedores da lotaria como as vítimas de acidentes regressavam aos seus níveis normais de felicidade e que apesar do choque inicial de alegria ou de sofrimento, os indivíduos adaptavam-se às novas circunstâncias. Curiosamente, os vencedores de lotaria não mostravam níveis de felicidade maiores, pelo contrário, sentiam menos felicidade e satisfação em ocasiões banais (encontrar um amigo) quando comparados com um grupo de controlo que não tinha ganho a lotaria.

Mas será que com estas novas informações algum de nós recusaria ganhar o Euromilhões? Penso que é muito improvável, mas a probabilidade de estarmos enganados sobre a felicidade que isso nos poderia trazer a longo prazo é alta.  Então, como combater este estado base a que parecemos estar condenados? Aceitando-o como uma mais-valia, como uma confirmação de que há sempre alguma coisa melhor para fazer no dia seguinte? Fazendo-lhe frente e tentar apreciar o presente? Mudar os hábitos? Largar os estímulos curtos e rápidos? Regressar à leitura, ao silêncio, cultivar momentos sem pressa? É desafiante, mais do que nunca, porque parece que remamos contra o mundo quando o fazemos.

Numa sociedade cada vez mais obcecada com limar defeitos, sempre em busca do rosto rejuvenescido, do corpo ideal, da vida perfeita… talvez não fizesse mal abandonar este sonho de completude que simplesmente não se concretiza. É viver e aproveitar este motor para a vida que é sentir que ainda falta sempre alguma coisa.