2 de Setembro de 2026: o dia em que André Ventura vestiu o fato de primeiro-ministro
Helena Matos
Hoje Ventura não gritou. Falou com um ritmo pausado. Colou-se a António José Seguro afirmando que se dependesse de António José Seguro e dele mesmo André Ventura, o ministro da Administração Interna já não seria Luís Neves. Ventura não podia deixar de apresentar a moção de censura depois da fulanização nele e no Chega feita ontem por Luís Neves. O Chega é hoje um partido dos “grandes” mas não pode arriscar ter o ministro da Administração Interna a prometer publicamente, com vários agentes policiais atrás, que o vai vencer.
Encurralados neste momento estão Luís Montenegro que tem um ministro em roda livre e José Luís Carneiro que deixou disponível neste caso todo o terreno a André Ventura e agora ainda tem de salvar o Governo.
Em resumo, Luís Neves, o ministro que não podia sair por causa dos incêndios, imolou-se em praça pública e deixa toda a terra queimada à sua volta.
Xeque Ventura
Nuno Gonçalo Poças
Não seria de esperar que, depois de o ministro da Administração Interna ter explicado ao País que se sente superior ao Primeiro-ministro, ao Presidente da República, à lei e ao Estado de Direito, André Ventura recuasse na intenção de apresentar a moção de censura ao Governo. Haverá muita gente disponível para comprar a bravata de Luís Neves, o novo autoproclamado Dono Disto Tudo, contra o populismo e a extrema-direita, façam-no expressamente, através de silêncios cúmplices ou do recurso ao alinhamento político contra Ventura ou, pasme-se, Pedro Passos Coelho. Mas André Ventura tem razão.
O que faz tantos terem medo de Luís Neves? A pergunta não é ilegítima nem desproporcionada. É a consequência óbvia para todos aqueles que não têm outro remédio, por compreenderem que o Estado de Direito e a democracia são mais relevantes do que os alinhamentos político-ideológico-partidários, que não seja reconhecer razões a André Ventura.
O ministro desafiou tudo e todos. Não só questionou a autoridade das instituições, antes afirmou cabalmente que ele está acima delas e que não lhes reconhece autoridade alguma que passe por cima da sua grandiosidade. Ventura tem razão, insisto. E o que faz é o que lhe compete: faz um xeque ao Partido Socialista, ao Governo, ao PSD e ao CDS. E, parecendo poupar o Presidente da República, a quem reconhece a preocupação com tudo o que se tem visto, não deixa de o colocar também em xeque. Falhando os partidos no Parlamento, falhando o Primeiro-ministro, era bom que não falhasse o Presidente da República.
Ventura agradece a Luís Neves
José António Rodrigues do Carmo
Luís Neves decidiu que não é apenas ministro da Administração Interna, mas também o último resistente da democracia, encarregado, por nomeação própria, de derrotar o populismo. A promoção é curiosa para quem passou as últimas semanas a explicar carros apreendidos, atrelados com droga, tanques que se sentem piscinas, declarações esquecidas e outros pormenores que, num país menos sofisticado, poderiam suscitar a antiquada ideia de que um ministro serve sobretudo para servir o ministério.
Neves prefere tarefas maiores. Montenegro, pelos vistos, também e por isso conserva-o no Governo com a ancestral sabedoria segundo a qual a melhor maneira de tirar uma pedra do sapato é continuar a caminhar com ela.
Ventura dificilmente poderia pedir melhor. Apresenta a moção de censura, denuncia o “lamaçal de indignidade” e fica a assistir. Se o Governo cair, terá derrubado Montenegro; se não cair, poderá agradecer ao PS a manutenção de Montenegro e de Neves. É uma operação política em que todas as saídas conduzem ao ganho de Ventura e ao desconforto de quem governa tendo decidido transformar Luís Neves numa questão de teimosia.
Talvez a moção não seja o maior problema de Montenegro. O verdadeiro problema é ter permitido que um ministro se tornasse maior do que o assunto que deveria esclarecer. Ventura percebeu-o e limitou-se a puxar a cadeira. Luís Neves é a estrela da tragicomédia, Montenegro paga a sala e o líder do Chega fica na primeira fila, sem sequer ter comprado bilhete.
A moção ao verdadeiro primeiro-ministro, Luís Neves
Carlos Maria Bobone
Havia duas razões que poderiam levar André Ventura a não avançar com a moção de censura ao governo. Por um lado, uma espécie de rigidez tática que entendesse o chumbo mais do que previsto à moção como uma derrota; obviamente não será uma derrota: ninguém pode acusar o Chega de irresponsabilidade ou de arriscar entregar o poder à esquerda quando é claro que a moção será chumbada, e fica Ventura como a pessoa que foi até ao limite para tirar do governo alguém que flagrantemente já não devia lá estar.
Por outro lado, um certo escrúpulo podia também refrear o líder do Chega. A moção de censura é ao governo, não a Luís Neves, e não se atira uma bomba para cima de um problema que se resolve com uma pressão de ar. Ou seja, por mais desagradável que seja o estilo de rei do cangaço do MAI, por mais que, como Ventura disse e bem, o que esteja em causa seja um problema de gestão pública, não apenas pessoal, por mais que as explicações sejam insatisfatórias, é um ministro, não um governo, que está em causa.
O problema é que, como o próprio Ventura disse e bem, Luís Neves se tornou o homem que manda no governo, no meio deste processo. E não apenas por dizer que sai quando quer e recriar com voz grossa o conhecido refrão infantil, “ninguém manda em mim”. Enquanto houver Luís Neves, o governo não pode pensar em mais nada. Se trabalhasse, não podia anunciá-lo, porque as notícias estão ocupadas com Neves; mas nem pode trabalhar, porque todo o esforço dos ministros e porta-vozes se tem de concentrar em justificar atabalhoadamente Luís Neves (até o pobre desgraçado do Bugalho, coitado, tem de vir de Bruxelas defender sem convicção o ministro). O governo vive para corrigir os problemas de Luís Neves, Luís Neves condicionou todas as estratégias do governo (será possível, depois de Luís Neves, o governo procurar fazer acordos de algum tipo com o Chega, como a certa altura pareceu querer?) e isto transformou-se, não num episódio momentâneo, mas no quotidiano do governo, porque a história não morre – vai sempre aparecendo uma nova moscambilha para que a fogueira não morra.
É frustrante que não haja uma maneira de tirar do cargo um ministro que tão escandalosamente não devia estar lá, e a moção de censura é a expressão disso mesmo: de uma impotência perante um pequeno golpe de Estado, que transformou no verdadeiro primeiro-ministro um cangaceiro com uma bagagem tão grande de casos que até tem de os transportar num atrelado.