Será consensual considerar que os modos de vida que hoje existem em Portugal são radicalmente distintos daqueles que eram característicos de quem por aqui viveu há 200, 500 ou 900 anos. Será igualmente consensual que grandes conquistas da Humanidade, como a descoberta de vacinas ou a própria construção da ideia de Humanidade como expressão essencial de todos nós, fazem parte do nosso património. Neste sentido, a descoberta de penicilina não é só dos escoceses, a conceptualização do Estado de Direito não é só dos franceses e os descobrimentos não são só dos portugueses ou dos espanhóis. Todos são património comum da humanidade e devem-se a seres humanos que nos precederam, dos quais nos devemos orgulhar, mas que não fomos nós. Isto é válido aliás para os crimes, também.
Os valores que predominam hoje pouco têm a ver com passados remotos. Não pensamos da mesma forma sobre a escravatura, sobre a dignidade da pessoa humana, sobre a paz, sobre o amor, sobre o conhecimento, … Apesar das diferenças de modos de vida, valores ou feitos, há uma perceção de continuidade, que não deixa de ser relevante merecer atenção. Creio que importa considerar três componentes: o território, a língua e a administração política da dinâmica de fronteiras.
A componente territorial é a mais importante. O território português é, todo ele, uma finisterra. Mas é, também, um mosaico geomorfológico e ambiental. O que caracteriza Portugal é a sua enorme diversidade num espaço relativamente pequeno. Essa diversidade constitui uma das maiores riquezas do território, propiciando, ainda que em pequena escala, uma grande diversidade de recursos. A essa diversidade associaram-se diversas estratégias de adaptação, ou seja, diversas expressões culturais.
Esta condição de existência das populações do extremo ocidental da Europa é um elemento comum que temos com os nossos antepassados: uma oportunidade de repensar a existência, pela adaptação e criação de novas formas de vida, como os concheiros mesolíticos na pré-história, que imaginaram uma economia híbrida a partir dos recursos estuarinos e do litoral, ou os descobrimentos da modernidade, que imaginaram uma geografia unificada pela circum-navegação.
O território é, por isso, a grande espinha dorsal da continuidade, ao convidar gerações sucessivas a imaginarem e experimentarem modos de vida apoiados em redes logísticas que, se na pré-história se mantiveram essencialmente terrestres, desde o final do ciclo glaciar Europeu se foram rapidamente abrindo às estradas de água e aos mundos que nunca haviam sido vistos.
O território, porém, é não apenas diverso como, nas suas principais componentes, indivisível dos territórios além-fronteiras. Mesmo os rios que por vezes servem como demarcação territorial, eram ecossistemas integrados com populações em permanente intercâmbio. Neste contexto, a língua foi-se tecendo bastante cedo, bem mais cedo do que noutras nações modernas, como construtor de uma unidade que nunca existiu sem ela. Pouco há de comum entre o Norte e o Sul de Portugal continental, em termos das estratégias socioeconómicas de exploração de recursos, em termos de pressão dos espaços ou de estruturação de redes logísticas de intercâmbio.

Cartaz do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, alusivo ao último Dia Mundial da Língua Portuguesa (5 de Maio).
A construção da língua, numa tessitura precoce e flexível, como principal instrumento de integração multicultural, foi igualmente um campo essencial de experimentação, pois foi nela que não apenas se forjaram os conceitos que permitiram construir mundos que nunca tinham existido, como se tornou possível atribuir-lhes depois conotações diversas, dessa forma promovendo a convergência e a integração sem destruição da diversidade e sem perda de flexibilidade. E foi através da língua que o território foi conceptualizado enquanto paisagem humanizável.
As fronteiras foram a outra face da flexibilidade: estabilizar a relação com o exterior terrestre, como denominador comum da diversidade interna, em busca de um percurso alterativo. Num projeto apoiado num território limitado, diverso e frágil, a flexibilidade integradora da diversidade não evitaria a dispersão, sem a também afirmação de uma centralização do poder, tema ao qual voltaremos noutro texto.
Revisitar a história do território que é hoje Portugal permite constatar essas dimensões de diversidade de lugares e costumes, integrada com flexibilidade através da língua e da centralização de poder, sobretudo num contexto sempre marcado por crises económicas profundas (1), ou seja, de inviabilidade de autonomia fora de uma estratégia política ajustada às condições de contexto. Essa revisitação permite, também, registar, desde a pré-história, uma forte mobilidade migratória, não apenas de militares e comerciantes, mas de uma percentagem elevadíssima da população, bem evidenciada em estudos de ADN sobre populações atuais e antigas.
A diversidade territorial e das populações, que não é contraditória com a sua coerência e continuidade, contribui para entrever dilemas do presente com raízes seculares, como a tensão e hesitação entre estratégias continentais (terrestres e europeias) e marítimas (mediterrânicas e atlânticas), a tensão entre o poder centralizador e a dispersão de poderes locais, ou a tensão entre assumir uma relação crítica com o passado com foco no futuro e as narrativas anacrónicas e maniqueístas, que reduzem o passado a uma vulgata inútil que bloqueia o futuro (a não inscrição, ou medo de existir, caracterizados por José Gil).
Desta conjugação de componentes resultam diversas dimensões comportamentais e, em particular, duas que são especialmente úteis em tempos de incerteza e que se reafirmaram recorrentemente ao longo de séculos.
Em primeiro lugar, uma sequência de afirmações identitárias apoiadas numa pelo menos pragmática compreensão dos riscos do identitarismo (a impossibilidade de afirmar a unidade sem valorizar a diversidade interna e, pelo menos desde o século XV, sem a abrir à incorporação de diversidade externa). A noção de diversidade como parte da identidade espreita através do “muit’há já que nom vejo, mandado do meu amigo” de D. Dinis, como do mundo em mudança “Tomando sempre novas qualidades” de Camões, ou do “Eu não sou eu nem sou o outro” de Mário de Sá-Carneiro, cada um refletindo sobre a sua condição no seu tempo respetivo, mas todos encontrando a identidade na transformação e na diversidade. Esta dimensão é útil, não apenas a Portugal, também hoje.
Em segundo lugar, uma experiência acumulada de argumentação, negociação e diplomacia apoiada na capacidade de traduzir conceitos através de quadros culturais distintos. A persistência do Tratado de Windsor, como o reconhecimento da independência pelo Papa antes disso, ou a eleição do ainda secretário-geral da ONU hoje, não são meros acasos ou sucessos individuais: inscrevem-se numa tradição adaptativa, condicionada pelo contexto natural e geopolítico, exprimindo um conhecimento acumulado que é igualmente útil, não apenas a Portugal.
Estas duas dimensões privilegiam a continuidade e, nesse sentido, convivem bem com a persistência de tradições e a resistência à inovação. Alguns não gostarão delas, por não favorecerem a rutura, a inovação radical ou a rapidez de transformações. Tão pouco são as únicas dimensões recorrentes no comportamento de quem tem habitado a faixa mais ocidental da Península. Mas, sobretudo em tempos de incerteza, são muito úteis num mundo que corre rapidamente contra a parede e contribuem para transições menos dolorosas para um futuro ainda desconhecido, através da manutenção de alguns valores que não têm nem 900 nem 500 anos, mas são muito relevantes hoje: paz, direitos humanos, equilíbrio ambiental, apreço pela diversidade, valorização da ideia de Humanidade.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
