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"Eles estão a testar os limites". Como a Europa tenta responder ao ataque em Leipzig e à escalada da "guerra híbrida" de Vladimir Putin

Putin continua a tentar explorar divisões na Europa com "guerra híbrida" — teste máximo seria incursão terrestre. Mas a UE mantém abordagem ponderada e diplomática, sem ceder ao aumento da pressão.

Madalena Moreira
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Faltavam cerca de 20 minutos para a meia-noite do dia 5 de agosto quando um funcionário do aeroporto de Leipzig/Halle fez soar o alerta: encontrara um drone por baixo da asa de um avião de carga ucraniano da Antonov Airlines, que utiliza este aeroporto como base europeia. O primeiro exame ao drone revelou uma carga de material explosivo e um detonador — e análises posteriores concluíram que uma explosão apenas não ocorreu devido a um defeito nesse detonador. “É um novo nível de perigo“, sentenciou à data o ministro da Administração Interna da Alemanha.

Contudo, foram precisas quase quatro semanas de investigações para Alexander Dobrindt apontar finalmente o dedo ao culpado pelo ataque falhado. Esta terça-feira, numa breve conferência de imprensa, o ministro alemão acusou formalmente a Rússia de ter planeado, coordenado e recrutado os agentes “de baixo nível” que levaram o ataque a cabo.

O ataque em Leipzig está longe de ser isolado: nesse mesmo dia, um avião de carga da DHL não conseguiu aterrar em Leipzig devido a uma colisão com um objeto no ar. Os dois incidentes integram a longa lista de ataques, sabotagens e outro tipo de disrupções que, desde fevereiro de 2022, os países europeus atribuem à Rússia. Uma compilação da Associated Press dá conta de mais de 200 incidentes com estas características. O acumular de situações tem sido descrito pela União Europeia (UE) e pelos seus Estados membros como uma “guerra híbrida“.

Contudo, o ataque em Leipzig parece estar a marcar um ponto de viragem na utilização desta definição. “Já não estamos a falar só de ameaças híbridas, estamos a falar de uma atividade significativa“, alertou Helen McEntee, ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda, que ocupa neste momento a presidência rotativa do Conselho da União Europeia. Esta quarta-feira, num encontro dos chefes da diplomacia europeia na Irlanda, McEntee ressaltou a necessidade de uma resposta unida.

O apelo à união tem-se repetido de forma incessante ao longo dos últimos quase cinco anos, mas reveste-se agora de nova relevância, numa altura em que os serviços de informação de vários países da NATO terão informações sobre a possibilidade de Vladimir Putin tentar avançar com uma incursão terrestre limitada contra países da Aliança Atlântica para pôr à prova essa mesma união. “Da perspetiva de Moscovo, se o teu adversário está a cambalear na direção do precipício, este é o momento exato para o empurrar“, argumenta John Sipher, analista do Atlantic Council e antigo agente da CIA, numa coluna de análise do think tank norte-americano.

Convocar embaixadores e novas sanções. A abordagem ponderada da União Europeia

Há cerca de um ano, durante uma cimeira em Berlim, já o chanceler alemão refletia sobre os ataques cada vez mais frequentes contra infraestruturas físicas e cibernéticas da Alemanha. “Não estamos em guerra, mas também já não estamos a viver em paz”, declarou à data Friedrich Merz. A ponderação com que Berlim (e Bruxelas) se tem pronunciado sobre a guerra híbrida parece refletir-se no tempo que levou a Alemanha a acusar formalmente a Rússia da tentativa de ataque em Leipzig, mesmo depois de as pistas se acumularem nesse sentido.

A abordagem ponderada enquadra-se numa estratégia deliberada da UE, aponta um responsável europeu ouvido pelo Politico. A utilização da expressão “guerra híbrida” ou “ameaças híbridas” permite ao bloco europeu manter alguma normalidade face às provocações cada vez mais frequentes. Uma caracterização destes ataques como simplesmente “guerra” exigiria uma resposta equivalente por parte de Bruxelas e, consequentemente, da NATO.

A resposta, no caso do ataque a Leipzig, passou principalmente por uma ação diplomática. Ao lado de Dobrindt, Johann Wadephul anunciou esta terça-feira uma série de medidas contra a Rússia: a convocatória do embaixador russo na Alemanha, o encerramento do consulado da Rússia em Bona a partir do dia 18 de setembro e o encerramento da Russian House, uma instituição cultural russa em Berlim fundada em 1984 sob a União Soviética e que opera hoje sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moscovo.

Em coro, a UE e os restantes 26 juntaram-se a Berlim na condenação do ataque em Leipzig, com as suas próprias declarações. A maior parte dos aliados, incluindo Portugal, convocou mesmo os embaixadores russos nos seus países, numa resposta que transmite a união dos 27. Contudo, a divisão dentro do bloco rapidamente voltou a ser evidente. Da reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros desta quarta-feira na Irlanda não emergiu qualquer medida concreta.

“Já temos 1600 registos do complexo militar da Rússia [que podem ser sujeitos a sanções] e talvez haja mais que podem ser adicionados”, afirmou apenas Kaja Kallas no final da reunião, adiando mais respostas às ações russas para a imposição de um novo pacote de sanções, que deverá ser aprovado apenas em meados de outubro. “A estratégia passa por não poupar esforços. Estamos a aplicar todos os regimes de sanções possíveis”, resumiu um diplomata europeu ao Politico, ao fazer a antevisão do encontro.

Chamar a NATO, descongelar ativos, bloquear diplomatas. O que a Europa ainda pode fazer

A guerra híbrida não foi tema apenas do encontro dos ministros dos 27. Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também discutiu o assunto com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. O jornal alemão Die Zeit aponta precisamente o estreitar da cooperação com a Aliança Atlântica, especificamente a invocação do Artigo 4.º da NATO, como uma das ferramentas que Berlim podia ter utilizado para responder à tentativa de ataque e que escolheu não mobilizar.

Este artigo prevê uma discussão dos aliados em caso de ameaça. “As partes podem reunir-se sempre que, na opinião de uma delas, a integridade territorial, a independência política ou a segurança de qualquer uma das partes esteja ameaçada”, pode ler-se no tratado da NATO. Há um ano, a Estónia invocou o Artigo 4.º depois de três caças russos terem sobrevoado o seu espaço aéreo. Em último caso, das consultas entre a Aliança pode resultar uma resposta militar limitada, mas trata-se principalmente de um posicionamento face ao adversário, o que o distingue do Artigo 5.º, como destaca o Die Zeit.

Mesmo sem recorrer à NATO, sobravam ainda outras opções no seio da UE. Uma, discutida a par e passo com um novo pacote de sanções, passa pela utilização dos ativos russos congelados em bancos europeus. Esta possibilidade tem estado em cima da mesa de forma regular, mas tem fracassado devido à oposição da Bélgica, e não foi mencionada por Kaja Kallas à saída da reunião.

Segundo avançou o Politico, que cita um responsável alemão, a Alemanha terá lutado por uma terceira ação: a redução da emissão de vistos a passaportes russos, o que inclui quer os vistos de turismo, quer os vistos emitidos a diplomatas russos, reduzindo a sua liberdade de movimentos no espaço europeu. A medida reuniu maior consenso entre os países do leste europeu. “Devíamos dificultar a capacidade de os diplomatas e espiões russos operarem na Europa”, declarou o ministro polaco à saída da reunião. Sem surpresa, a Polónia mantém a postura mais crítica da Rússia, dada a sua proximidade geográfica.

Mas qualquer uma destas soluções não reúne consenso no seio da UE: entre as consequências económicas para os países mais pobres e o medo de uma escalada de muitos dos 27, a limitada posição alemã parece ser a mais unânime. “Por um lado, não utiliza meias palavras, mas atribui responsabilidade clara à Rússia”, elogia Roland Nelles, diretor do gabinete de Berlim do Der Spiegel, numa coluna de análise. “Por outro, o Governo alemão é sábio o suficiente para não escalar o conflito de forma desnecessária. Berlim podia ter terminado as relações diplomáticas ou envolvido a NATO. Mas isso teria sido um passo demasiado próximo de uma guerra a sério. Ninguém quer isso”, remata.

"Começámos por mandar capacetes e sacos-cama e acabámos a mandar mísseis de longo alcance. O que achávamos chocante ontem torna-se a norma amanhã e assim por diante até nos encontrarmos numa situação muito mais intensa. Eles estão a testar os limites."
Camille Grand, antiga secretária-geral adjunta da NATO e atual diretora da Associação de Indústrias Aeroespaciais, de Segurança e Defesa Europeias

Putin tenta aproveitar oportunidade para “o Ocidente se derrotar a si mesmo”

Enquanto a Europa se uniu em torno da Alemanha e procurou definir o caminho a seguir, da Rússia chegou a acusação de “ações antirrussas”. “Onde estão as provas? Eles semearam as provas”, declarou Vladimir Putin, acusando Friedrich Merz de estar a desviar atenção da “difícil situação política interna” que a Alemanha enfrenta.

Na verdade, o próprio Presidente russo depara-se com uma conjuntura política interna cada vez menos favorável — e o próprio já terá reconhecido as dificuldades que enfrenta. A abordagem passa, portanto, por semear a desordem e explorar as divisões no seio da União Europeia, o que fragilizaria o apoio à Ucrânia e permitiria uma janela de oportunidade para Moscovo cumprir os objetivos militares que traçou para a guerra. A guerra híbrida entre a Rússia e a Europa é, portanto, indissociável da guerra aberta entre a Rússia e a Ucrânia.

“Começámos por mandar capacetes e sacos-cama e acabámos a mandar mísseis de longo alcance”, constata Camille Grand. Ao Politico, a antiga secretária-geral adjunta da NATO e atual diretora da Associação de Indústrias Aeroespaciais, de Segurança e Defesa Europeias aponta o escalar de ataques contra a Europa como sintoma de uma estratégia mais agressiva de Moscovo. “O que achávamos chocante ontem torna-se a norma amanhã e assim por diante até nos encontrarmos numa situação muito mais intensa. Eles estão a testar os limites”, alerta.

O sucesso dessa estratégia implica aproveitar momentos de divisão nas relações entre os 27 e com a NATO. “Para Putin, a agitação pode não durar. A Rússia continua a ser mais fraca que o Ocidente em conjunto e tem sofrido com a sua própria agressão [contra a Ucrânia]”, aponta o antigo agente da CIA John Sipher. “A sua melhor estratégia, portanto, não é derrotar o Ocidente, mas encorajar o Ocidente a derrotar-se a si mesmo“, expõe.

O maior “teste” à cooperação ocidental passaria por uma incursão terrestre limitada contra um país da NATO. Este perigo tem sido sinalizado pelos serviços de informação dos países bálticos — um dos alvos mais prováveis para uma destas operações hipotéticas —, mas no início de agosto, o Wall Street Journal noticiou que as secretas norte-americanas também tinham assinalado essa possibilidade.

Os relatos foram reforçados quando, na semana passada, o diretor da CIA viajou para Moscovo para, segundo escreveu o Politico, “avisar responsáveis russos para não escalarem o conflito contra os aliados da NATO da América”. Nem o Kremlin nem a Casa Branca clarificaram detalhes sobre a visita de John Ratcliffe, mas, apesar de uma efetiva escalada de tensões, responsáveis europeus continuam a defender a abordagem ponderada de Bruxelas, recusando a possibilidade de um ataque direto.

“Podemos dizer muito claramente que os serviços europeus não veem qualquer risco de ataque aos países europeus“, declarou um responsável sénior ao Politico. No entanto, tal como a ação concertada dos últimos dias revelou, o facto de um ataque russo não estar iminente não significa que a Europa não se esforce por responder ao combate à guerra híbrida com a Rússia — ao mesmo tempo que reforça o apoio à Ucrânia.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]