Talvez por ser fruto das investigações de doutoramento de Arnaud Miranda, este breve livro tem a enorme vantagem de não recorrer ao sentimentalismo com que habitualmente falamos destes assuntos, apoiando-se antes num elevado rigor intelectual que lhe permite caracterizar posições políticas e morais que evidentemente não poderiam distar mais das do autor. Apesar do distanciamento ideológico entre autor e tema tratado, em nenhum momento Miranda ergue o sobrolho ou acena a sua discordância, recusando ridicularizar seja de que forma for as pretensões intelectuais de um movimento cuja robustez intelectual nunca nega ou caricatura. Isso importa e rareia porque corresponde a um respeito absoluto pelo leitor, que não lhe permite cair na condescendência de sublinhar a indignação que deveríamos sentir.
Há poucos meses, decerto parecer-nos-ia absurdo levar a sério ideologias que defendem o regresso do absolutismo, o primado da eugenia ou a substituição das nações por empresas. No entanto, como Miranda bem explica, “alguns destes pensadores, apoiados por multimilionários da tecnologia californiana, conseguiram infiltrar-se nos corredores da Casa Branca, estando hoje entre os ideólogos mais influentes no seio dos quadros políticos da maior potência mundial”. Esta descrição não corresponde a uma qualquer teoria da conspiração alarmista, mas a uma realidade muito concreta e aliás já admitida, por exemplo, pelo vice-presidente J.D. Vance, que em vários momentos confessou a sua admiração pelas maiores referências do movimento neorreacionário e que em alguns dos seus discursos e posições políticas emula explicitamente afirmações prévias de Curtis Yarvin ou Nick Land, numa aproximação depois reforçada por medidas recentes e muito relevantes tomadas pela administração Trump (as tarifas, o DOGE, o fim do apoio à Ucrânia, a ultrapresidencialização do regime ou o plano de transformação de Gaza numa “Riviera do Médio Oriente”).
Ora, para que compreendamos o que está aqui em causa, Miranda começa por construir no primeiro capítulo uma cartografia ideológica das direitas estadunidenses, para depois compor uma breve história da neorreacção e, por fim, aprofundar demoradamente — numa sofisticação intelectual assombrosa e por vezes difícil de acompanhar para leitores não especializados nestes assuntos — o pensamento político de cada um dos maiores ideólogos do neorreacionarismo. Três aspetos saltam desde logo à vista.

O primeiro é a robustez intelectual destes homens (as mulheres têm um papel absolutamente marginal no movimento, talvez por neles se verem relegadas a tarefas meramente parideiras). Curtis Yarvin, também conhecido por Moldbug, estudou nas melhores universidades do país e tem como principais referências Thomas Carlyle, Ludwig von Mises e Maquiavel. Nick Land era um intelectual proeminente da esquerda vanguardista e um filósofo de carreira inspirado em Kant, Bataille e Deleuze, sendo que, muito argutamente, Arnaud Miranda não se deixa embarcar na teoria tranquilizadora de que não passa de um génio enlouquecido. Peter Thiel, o fundador da Paypal e um dos maiores investidores privados no Facebook, não acredita no que acredita apenas de forma a exponenciar a sua imensa fortuna, mas antes sustenta a sua visão do mundo em leituras abundantes e sérias. Quando nos convencemos de que movimentos destes, por racistas, misóginos e elitistas que sejam (e oh se são) têm na sua génese apenas as ignorantes frustrações e angústias de viciados em ginásios, não só nos prestamos a grandes desonestidades intelectuais como corremos o risco de desvalorizar perigos até estes nos entrarem vida adentro.
O segundo aspeto muito relevante destacado por Miranda é a sofisticação da estratégia montada. A um primeiro olhar, todos estes homens não passariam de celibatários involuntários que trocaram fantasias com dragões e feiticeiras por outras não menos irrealistas na cave dos pais. Essa ideia seria reforçada ao descobrirmos que grande parte da obra editada por eles foi publicada em edições de autor ignoradas pela generalidade do público. O problema é que isto corresponde apenas a uma estratégia muito arguta que revela que à sua robustez intelectual associam uma consciência das suas debilidades, muito incaracterística de pessoas tão inteligentes. Como Miranda bem explica, desde cedo este clã percebeu que o único caminho para triunfarem seria pela viralização de conteúdos através de memes irónicos — foram eles, por exemplo, quem criou conceitos hoje amplamente difundidos como os do red pill (uma alusão ao filme Matrix) ou da Catedral — e de uma postura absolutamente passivista que não chamasse a atenção para o movimento. Ao mesmo tempo, em vez de procurarem universalizar as suas ideias, preocuparam-se apenas em conquistar a atenção de pessoas muito, muito, muito bem posicionadas na cadeia do poder.
Por fim, o que mais assusta é que em grande medida estas teorias estão certas. O que é defendido pelo neorreacionarismo (ou pelo menos por alguns dos seus segmentos mais clarividentes) é que o capitalismo tem hoje tanta força que não é revogável ou substituível por nenhum outro regime. Defendem também que a evolução tecnológica é já impossível de conter. Acreditam que quaisquer medidas de cariz socialista ou redistributivo (isto é, medidas que visem contrariar as injustiças provocadas pelo capitalismo ou atenuar a precariedade dos que, por uma ou outra razão, ficam para trás) serão apenas travões a um mecanismo que continuará a sua marcha imperturbável e que não poderão, por isso, fazer mais do que desgastar um progresso que cedo ou tarde obliterará quaisquer pretensões humanistas. Ou seja, quando procuramos introduzir mecanismos de regulação num modelo societário por natureza avesso a qualquer sistema de segurança, mais não fazemos do que procurar travar o vento com as mãos. Assim, o que o neorreacionarismo defende (numa posição que poderá ser ingénua, que poderá ser tecnodeslumbrada, que poderá até ser sociopata mas que poderá também ser impossível de combater) é que acolhamos o progresso e nos deixemos por ele atropelar. Em vez de procurar travar o capitalismo, o neorreacionarismo propõe que o abracemos (exactamente como quem abraça um comboio) e o deixemos destruir tudo para ver o que daí nascerá, abandonando as nossas preocupações absurdas com a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, a caridade e o amor.
Aceitemos um futuro, nas palavras dos próprios, transumanista (ou seja, em que a humanidade como a conhecemos seria “abortada”, dando lugar a uma outra espécie híbrida, meio humana, meio computarizada, semelhantes à dos replicantes do filme de culto Blade Runner), um futuro eugénico, um futuro misógino, um futuro composto por micro-Estados governado por um ente a meio caminho entre o rei absoluto e o CEO. Um futuro que, a julgar por notícias recentes divulgadas entusiasticamente pela OpenAI, estará já aí ao virar da esquina.
Irmãos e irmãs, abracemos o admirável mundo novo.
Que assim seja.