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Espião expulso das secretas termina carreira como motorista da Uber

Carvalhão Gil esteve 30 anos nas secretas, até ser detido em Roma por vender segredos aos russos. Condenado e expulso do SIS, acabou a trabalhar como motorista. Reformou-se em maio deste ano.

Pedro Raínho
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Frederico Carvalhão Gil, o espião condenado a sete anos e quatro meses de prisão por espionagem, no âmbito da Operação Top Secret, reformou-se em maio de 2026. Depois de cumprir a pena na prisão de Évora, o antigo homem das secretas ainda manteve atividade profissional durante cerca de quatro anos: até ao início deste ano, esteve a trabalhar como motorista de Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Eletrónica — era motorista de aplicações como a Uber.

Carvalhão Gil, cuja história é contada no Podcast Plus “A vida dupla do espião traidor”, foi condenado em fevereiro de 2018. Nos dois anos seguintes, apresentou todos os recursos possíveis. Ouviu, invariavelmente, a mesma resposta dos vários juízes que avaliaram a pena que lhe foi atribuída: indeferido, ia mesmo ter de cumprir pena de prisão. A sentença transitou em julgado a 10 de janeiro de 2020. Dois meses depois, a polícia bateu-lhe à porta: estava na hora de ser finalmente conduzido à prisão.

Um ano entre polícias, militares — e ao lado de Armando Vara

Nas celas à volta da que foi destinada ao espião, em Évora, havia polícias, militares, guardas prisionais e antigos ministros. A cumprir pena por crimes de tráfico de droga, corrupção, abuso sexual de menores. No espaço contíguo ao de Carvalhão Gil estava Armando Vara, o antigo ministro Adjunto de António Guterres. Cumpria pena pelo crime de tráfico de influências, por uma condenação no processo Face Oculta.

O espaço onde o espião passou o ano seguinte tinha cerca de dois metros por três. À direita, havia uma cama. E, por cima, um pequeno armário para os reclusos arrumarem os produtos pessoais. À esquerda, estava instalada uma secretária. Havia ainda mais um armário, onde Carvalhão Gil podia guardar as poucas peças de roupa que tinha na prisão.

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Ao fundo, havia um lavatório com uma sanita logo ao lado. Não havia portas nem cortinas, nem um mínimo de privacidade. Do corredor da ala, no exterior da cela, aquela zona íntima estava totalmente visível.

Frederico Carvalhão Gil passou 23 horas por dia entre o interior daquela cela e a zona comum dos presos em Évora. Tinha uma hora por dia de tempo exterior, no pátio. Essa era a única altura em que os reclusos das duas alas estavam juntos. Na ala onde o espião foi colocado estavam os detidos com algum tipo de fragilidade física, com situações clínicas diagnosticadas. Ao longo do tempo que ali passou, o espião não estabeleceu qualquer relação de amizade entre a população prisional.

Expulso das secretas e à procura de trabalho

Saiu de Évora quando cumpriu dois terços da pena que lhe foi aplicada. Entre o tempo que passou em prisão preventiva, e sobretudo contando os longos meses que passou em prisão domiciliária, à espera de uma decisão judicial sobre o seu caso, decorreram 392 dias. A 10 de abril de 2021, Carvalhão Gil voltou a ser um homem livre. Mas, nesse momento, deparou-se com novos problemas para resolver.

Ainda antes de começar a cumprir a pena, o SIS concluiu o processo disciplinar que foi instaurado ao antigo espião detido em Roma, em maio de 2016. A decisão não surpreendeu: Carvalhão Gil foi expulso das secretas. Voltar ao Forte da Ameixoeira estava por isso fora de questão, mas não podia ficar sem trabalhar. Por isso, e depois de alguns meses em que viveu de poupanças antigas, o sexagenário teve de procurar alternativas.

Ainda na prisão, Frederico Carvalhão Gil tinha pedido uma avaliação do valor da pensão que lhe estaria destinada. Ficou chocado quando lhe responderam que o valor rondaria os 1.500 euros por mês. Era menos de metade do salário que recebia quando foi detido em Itália. Contestou. Mas entretanto teve mesmo de voltar a trabalhar.

A primeira hipótese que lhe surgiu foi um trabalho como motorista, a fazer os transportes de clientes entre o hotel e o aeroporto — um transfer, com constantes idas e voltas entre os dois locais. Depois disso, ainda mudou ligeiramente de área, fazendo a recolha, de manhã, e a entrega, à tarde, das crianças de uma escola na zona da Grande Lisboa.

Finalmente, acabou por se fixar numa área de atividade que tinha tido um crescimento exponencial nos anos anteriores: motorista de Uber. Só em 2026 a longa carreira de Carvalhão Gil — que já tinha conhecido dias bem melhores — chegou ao fim. O ex-espião reformou-se finalmente em maio deste ano.

[O diretor do SIS entra na sala de audiências e recusa cumprimentar Frederico Carvalhão Gil, com quem trabalhou durante décadas. A traição do espião abalou profundamente o Estado português e Neiva da Cruz não lhe perdoa. Em tribunal, o espião defronta os antigos colegas do SIS. E, para se defender, ataca o sistema. Nunca vai admitir o crime de espionagem. O que não significa que não seja condenado por ele. Já pode ouvir o sexto e último episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. Pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, o terceiro episódio aqui, o quarto aqui e o quinto aqui.]