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(A) :: Vivem em piscinas e lagos, são extremamente letais e já foram detetadas em Portugal. O que são as amebas, que fizeram duas vítimas nos EUA?

Vivem em piscinas e lagos, são extremamente letais e já foram detetadas em Portugal. O que são as amebas, que fizeram duas vítimas nos EUA?

Quando inaladas, as amebas podem causar formas graves de meningite. Os casos são raros mas, na grande maioria dos casos, fatais. Em Portugal, há registo de um caso na região Norte em 2006.

Tiago Caeiro
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Fortes dores de cabeça, sem explicação aparente, levaram, no final de agosto, o jovem Moises Ponce Mendoza a um hospital em Burlington, na Carolina do Norte. Os médicos descansaram a família e rapidamente deram alta ao jovem. Horas depois, Moises estava de volta a uma unidade hospitalar com um quadro geral muito pior e sintomas mais graves. O diagnóstico? Uma infeção por naegleria fowleri, uma ameba rara e extremamente letal, conhecida como a “ameba que come cérebros”. Moises acabou por morrer esta segunda-feira, depois de ter ficado internado numa unidade de cuidados intensivos. É já o segundo caso fatal descrito pelas autoridades norte-americanas nos últimos dias. A 23 de agosto, uma criança de oito anos morreu depois de ter sido infetada pelo mesmo tipo de ameba, num lago do estado do Louisiana.

As amebas são seres vivos unicelulares — mais pequenos que um grão de poeira — que vivem em ambientes aquáticos, como piscinas não tratadas, lagos de água doce e temperada ou fontes de água termal, explica ao Observador o médico infecciologista Jaime Nina. “A esmagadora maioria dos tipos de ameba não provoca doença”, esclarece o especialista. Contudo, alguns tipos de ameba, como a naegleria fowleri, provocam meningoencefalite amebiana, uma doença rara que destrói as células cerebrais e que é geralmente mortal. As amebas são inofensivas se ingeridas, mas podem ser fatais se entrarem pelas vias respiratórias, isto é, pelo nariz, uma vez que podem chegar ao cérebro.

Enquanto nos EUA são identificados menos de 10 casos todos os anos, na Europa os casos de meningoencefalite amebiana ou de encefalite amebiana são ainda mais raros. Em Portugal, foi identificado e diagnosticado apenas um caso mortal por encefalite amebiana, há exatamente 20 anos, que afetou uma criança de oito anos, infetada por outro tipo de ameba (a balamuthia mandrillaris), e que viria a morrer cinco semanas após o início dos sintomas, numa unidade hospitalar da região Norte.

As amebas são mais frequentes em países em desenvolvimento e com sistemas de saneamento de águas deficientes, como os países africanos e do sudeste asiático, diz Jaime Nina. No ano passado, foram identificados mais de 200 casos de infeções por naegleria fowleri na Índia, o maior surto já registado em todo o mundo. Contudo, só nos países mais desenvolvidos — onde existe capacidade de diagnóstico laboratorial para detetar a origem da doença causada pela infeção — é que é contabilizado com rigor o número de casos de meningoencefalite ou encefalite causados por amebas, esclarece o professor jubilado do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) da Universidade Nova de Lisboa.

Há três tipos de amebas com potencial para causar doença grave. Taxa de mortalidade é superior a 90%

Há cerca de 20 tipos de ameba que são considerados parasitas, introduzindo-se no organismo humano e causando mortes em todo o mundo. De entre estes, há três tipos que causam mais preocupação e com potencial para causar doença grave: a naegleria fowleri (que causou as duas mortes noticiadas nos últimos dias nos EUA), a acanthamoebae e a balamuthia mandrillaris. 

A naegleria fowleri é a que mais doenças graves provoca. Entre 1962 e 2024, foram relatados 167 casos de meningoencefalite amebiana nos EUA. Os primeiros sintomas podem incluir dor de cabeça, febre, náuseas e vómitos, segundo o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (CDC). Numa segunda fase, os sintomas são caracterizados por confusão mental, falta de atenção às pessoas e ao ambiente, perda de equilíbrio e alucinações. “Se a ameba conseguir atravessar as membranas, até chegar ao cérebro, multiplica-se e provoca uma meningite” que progride rapidamente, adianta o infecciologista Jaime Nina. Mesmo com tratamento, a maioria das pessoas morre entre 1 e 18 dias após o início dos sintomas.

https://observador.pt/2026/08/25/ameba-que-come-cerebros-menina-de-oito-anos-morre-apos-mergulho-em-lago-nos-eua-vitima-de-infecao-extremamente-rara/

“São mortais”, alerta o especialista. Das 167 pessoas que desenvolveram meningoencefalite amebiana nas últimas seis décadas nos EUA (de longe o país com maior número de casos identificados), apenas quatro sobreviveram, o que aponta para uma taxa de mortalidade superior a 97%. Em todo o mundo, entre 1962 e 2023, foram detetados 488 casos, segundo uma análise de 2025, publicada pelo Journal of Infection and Public Health. No caso da encefalite amebiana (outra doença muito similar, causada pela infeção por balamuthia mandrillaris), a taxa de mortalidade ronda os 90%, de acordo com o CDC.

Para além dos dois casos mortais conhecidos nos últimos dias nos EUA, em abril uma criança brasileira de nove anos morreu no estado da Rondónia, na Amazónia, com infeção por naegleria fowleri, segundo a Agência de Vigilância em Saúde do Estado. Na Europa, os casos são mais raros: em 2018, uma criança espanhola contraiu a infeção pelo mesmo tipo de ameba depois de frequentar uma piscina de água aquecida, mas sobreviveu. França regista apenas um caso, e fora do território continental: foi detetado, em 2008, numa criança de nove anos, residente na região de Guadalupe, no Caribe, que nadou numa piscina abastecida com água termal. O surto mais relevante no Velho Continente remonta já aos anos 60 do século XX, quando 16 jovens (com idades entre os oito e os 25 anos) morreram, entre 1962 e 1965, na então Checoslováquia com doença provocada por infeção por naegleria fowleri.

"Se a ameba conseguir atravessar as membranas até chegar ao cérebro, multiplica-se e provoca uma meningite" que progride rapidamente
Jaime Nina, médico infecciologista e professor jubilado do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa

Como o diagnóstico é difícil e muitas vezes nem sequer é feito, “na esmagadora maioria dos casos, ou não se faz tratamento ou o tratamento é feito tarde demais“, o que aumenta a probabilidade de morte. “A mortalidade advém essencialmente do tratamento tardio”, sublinha Jaime Nina.

Jovem morreu no final de agosto nos EUA depois de diagnóstico tardio

Terá sido esse o principal obstáculo no tratamento dado a Moises Ponce Mendoza. O jovem começou a sentir fortes dores de cabeça na noite de 21 de agosto, como descreveu a mãe numa publicação feita na plataforma GoFundMe, onde criou uma campanha para angariar fundos para ajudar a pagar as despesas e o tratamento do filho. Monica Mendoza levou Moises ao Hospital de Burlington, uma pequena cidade da Carolina do Norte, mas a equipa médica terá desvalorizado os sintomas. “Eles não nos ofereceram nenhum tipo de assistência. Um médico entrou para examiná-lo e informou-nos de que podíamos ir para casa”.

No entanto, o quadro clínico evoluiu de forma desfavorável muito rapidamente. No dia seguinte, Monica Mendoza decidiu levar o filho à urgência de um hospital mais diferenciado, nos arredores de Raleigh, a segunda maior cidade da Carolina do Norte. Foi aí que foi feito o diagnóstico. Uma rara infeção por naegleria fowleri. No domingo, quando decidiu contar publicamente a história, e apenas 48 horas depois do início dos sintomas, Moises já estava em coma.

“As nossas vidas mudaram completamente. O Moises está em coma, os médicos estão a fazer tudo o que é possível para combater a doença e dar-lhe uma hipótese de sobreviver”, escreveu Monica Mendoza, pedindo ajuda para conseguir reunir 10 mil dólares para cobrir despesas médicas, transporte, alimentação e outras necessidades. O Departamento de Saúde do Estado da Carolina do Norte (NCDHHS) acabou por confirmar a morte do jovem na segunda-feira. “O NCDHHS foi informado de que o adolescente que desenvolveu uma doença rara, causada pela naegleria fowleri, faleceu a 31 de agosto de 2026. Os nossos sentimentos à família, aos amigos e à comunidade afetados por essa perda”.

Detetar a origem de uma inflamação cerebral nem sempre é tarefa fácil, explica Jaime Nina. Geralmente são realizados exames de imagem do cérebro, como TAC ou ressonância magnética, para descartar outras possíveis causas de infeção, e realizada uma punção lombar — que serve para obter uma amostra de líquido cefalorraquidiano, que circunda o cérebro e a medula espinhal. No entanto, nem assim é garantido que a origem da infeção, neste caso a ameba, seja detetada. Há ainda outras técnicas, como um teste PCR.

Há 20 anos, morreu uma criança no Hospital de São João. Caso é considerado muito raro

Foi precisamente desta forma — através de um teste PCR — que uma equipa do Serviço de Pediatria do Hospital de São João confirmou a presença da ameba balamuthia mandrillaris numa criança de oito anos, saudável, que deu entrada naquela unidade hospitalar em 2006. O menino tinha começado a sentir dores de cabeça esporádicas alguns meses antes de os pais terem decidido levá-lo à urgência pediátrica, sendo que essas dores de cabeça foram-se tornando cada vez mais frequentes, até atingirem uma cadência diária cerca de duas semanas antes da ida ao São João, descreve a equipa médica num artigo científico publicado sobre o caso no Journal of Clinical Microbiology.

Dois dias antes da admissão na urgência, os pais detetaram também esotropia (um tipo de estrabismo em que um ou ambos os olhos se viram constantemente em direção ao nariz) e diplopia, outra perturbação da visão, que causa a duplicação dos objetos. Para além disso, e sobretudo de manhã, quando as dores de cabeça eram mais intensas, o menino tinha também vómitos e apresentava um quadro de letargia, ou seja, cansaço e falta de energia. Quando foi internado, o primeiro exame realizado — uma TAC — revelou imediatamente alterações cerebrais, nomeadamente uma lesão no lobo frontal direito, o que levou os médicos a suspeitar que os sintomas pudessem estar a ser causados por um tumor cerebral (o segundo tipo de cancro infantil mais prevalente). Sem certezas, medicaram a criança com dexametasona (um corticoide com potente ação anti-inflamatória) e avançaram com uma craniotomia frontal (uma cirurgia utilizada, por exemplo, para retirar tumores cerebrais, reparar aneurismas ou corrigir fraturas do crânio), fazendo uma ressecção da lesão.

A operação mostrou que a inflamação tinha deformado o córtex cerebral. Para além disso, uma análise ao tecido removido detetou necrose tecidular, sobretudo nas zonas em que foram detetadas altas concentrações daquilo que, numa fase ainda muito preliminar, a equipa médica suspeitou serem amebas. Devido à suspeita de infeção por amebas, o menino foi medicado com uma conjugação de antibióticos e antifúngicos — o tratamento que ainda hoje é utilizado e que pode passar pela administração do metronidazol (um antibiótico usado para tratar infeções por bactérias e parasitas) e antifúngicos, explica o médico Jaime Nina. “A infeção tem de ser tratada com uma terapêutica antimicrobiana específica, não pode ser com os antibióticos normais usados para as meningites”, sublinha o professor do IHMT.

Voltando ao caso do São João, no segundo dia após a cirurgia, o menino de oito anos estava assintomático. Mas tudo iria mudar. Ao 15.º dia de internamento, a criança sofreu uma deterioração clínica, com aumento das dores de cabeça, vómitos e diminuição do nível de consciência. Uma ressonância magnética acabaria por revelar um edema cerebral generalizado. O menino começou depois a apresentar um quadro de respiração irregular e bradicardia, o que levou à transferência para a unidade de cuidados intensivos pediátricos do hospital 36 horas depois. No entanto, os danos cerebrais revelaram-se irreversíveis. Foi prestado apoio ventilatório e a pressão intracraniana foi monitorizada. Mas o edema não cedeu ao tratamento e a criança viria a morrer ao 21.º dia de internamento.

Algumas amostras do tecido cerebral da criança submetidas a imunofluorescência indireta (uma técnica laboratorial) detetaram a presença de balamuthia mandrillaris, um diagnóstico confirmado depois através de PCR, e que levou os médicos a concluírem que o menino sofrera uma encefalite amebiana. Um caso descrito, em 2006, como tão raro que, à data, fora a primeira situação em Portugal de encefalite amebiana causada por balamuthia mandrillaris (e única, até ao momento) e apenas o terceiro a nível europeu, aponta o artigo científico. Embora não tenha sido identificado o local exato onde decorreu a infeção, a equipa médica explica que a criança era frequentadora assídua de piscinas.

As amebas não sobrevivem na água salgada, mas, por outro lado, podem subsistir em piscinas, sobretudo quando não têm o tratamento adequado de desinfeção com cloro. Por isso, o infecciologista Jaime Nina aconselha os utilizadores de piscinas, principalmente das piscinas amovíveis, a fazerem uma desinfeção e alteração regular da água, de modo a evitar o aparecimento e concentração de microrganismos, nomeadamente das amebas. “Há cada vez mais pessoas que têm piscinas de encher. O ideal é fazer uma desinfeção das piscinas de forma regular. Não se deve deixar as piscinas que não têm tratamento de água muito tempo cheias. Depois de dois, três dias, deve-se esvaziar e voltar a encher”, vinca o especialista.

As autoridades de saúde norte-americanas emitiram, no ano passado, indicações para evitar a infeção por amebas: aconselham os banhistas a manterem a cabeça acima da água em locais de água doce e temperada ou em águas termais, a taparem o nariz ao entrar na água ou a evitarem lagos durante os meses mais quentes (quando o nível de água desce e a temperatura sobe, o que cria condições propícias à propagação das amebas).