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(A) :: Milhares de euros em notas, dezenas de documentos secretos e uma arma. As buscas à casa do espião do SIS controlado pelos russos

Milhares de euros em notas, dezenas de documentos secretos e uma arma. As buscas à casa do espião do SIS controlado pelos russos

Os responsáveis do SIS suspeitavam que Carvalhão Gil trabalhava para os russos há anos. Mas as provas encontradas nas casas do espião ultrapassaram os piores receios. E obrigaram a mudanças profundas.

Pedro Raínho
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Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov nem tiveram tempo de acabar a cerveja. Sentados a uma mesa, junto à porta do Number One Caffe, em Roma, os dois espiões foram surpreendidos pelos inspetores italianos que entraram pelo café e lhes deram ordem para se afastarem um do outro — a partir daquele momento, não houve mais comunicação entre eles.

Minutos depois da detenção, arrancava uma operação de buscas a 2.500 km de distância. Em Lisboa, inspetores da PJ avançaram para as duas casas do homem do SIS. O que encontraram lá dentro reforçou a tese de que Carvalhão Gil passou anos a vender informações secretas aos russos. Uma história contada no mais recente Podcast Plus do Observador, “A Vida Dupla do Espião Traidor”.

https://observador.pt/programas/a-vida-dupla-do-espio-traidor/episodio-6-nao-se-cumprimenta-um-traidor/

É sábado, 21 de maio de 2016. A manhã já está quase a terminar quando chegam novas informações ao edifício-sede da PJ: depois de uma operação de vigilância que durou longas horas, Carvalhão Gil acaba de ser detido. O espião não ofereceu resistência e, agora, vai ser transportado para a questura de Roma, a esquadra onde vai passar as próximas horas, relata a equipa liderada pelo inspetor Pedro Prata, a partir de Roma.

É o sinal por que todos estavam à espera. Agora, duas equipas da Judiciária vão avançar em simultâneo em direções diferentes: uma segue para o Lumiar, a outra para o Cacém. Vão em direção às moradas das duas casas do espião do SIS.

https://observador.pt/especiais/a-historia-de-carvalhao-gil-o-espiao-que-se-vendeu-a-russia-de-putin-e-foi-condenado-por-trair-as-secretas/

Carvalhão Gil vive habitualmente no Lumiar, onde partilha casa com a mãe. Mas é o irmão dele quem abre a porta, quando os inspetores da PJ chegam. O quarto do espião fica na segunda porta à esquerda do hall de entrada. As equipas entram na divisão e o cenário que encontram surpreende-os. Ainda antes de avançarem para uma busca mais minuciosa, num contraste com a colcha azul imaculadamente esticada sobre a cama, os inspetores deparam-se com um pequeno caos: há papéis espalhados por todo o lado, dossiers, pastas.

Nesse momento, ainda estão longe de imaginar o que são aqueles documentos — e o risco que podem representar para a segurança do Estado por estarem ali, sem qualquer cuidado de segurança. Não vai ser preciso muito tempo até isso ficar claro. “O espaço, de acordo com o que foi relatado pelos colegas que fizeram a busca, correspondia mais ou menos ao perfil que tínhamos de Carvalhão Gil: que era um bocado desorganizado, um bocado caótico e com pouca disciplina. Mesmo tendo a noção de que algumas das coisas que ele tinha ali poderiam comprometer [a segurança nacional e da NATO], não houve cuidado especial em esconder ou ter gavetas falsas”, recorda o inspetor Pedro Prata, que coordenou a equipa durante parte da investigação da Operação Top Secret.

Mas a equipa da PJ vai encontrar mais provas comprometedoras.

Milhares de euros em envelopes, bolsos e malas — os pagamentos dos russos à “toupeira” do SIS

Depois de colocarem as luvas e começarem a abrir portas de armários, gavetas de cómodas e fechos de malas, os inspetores vão também encontrar muitos milhares de euros. Tudo em dinheiro vivo.

As buscas concentram-se, sobretudo, no quarto do espião. De cada um dos lados da cama, há uma mesa de cabeceira. À direita, por baixo da janela, está um baú de madeira. Há ainda uma cómoda e também várias caixas de arrumação cheias até ao topo com papéis. Parecem ter sido atirados para ali, sem critério. A operação é contada ao pormenor no episódio 5 do Podcast Plus, “Um maço de noras verdes”.

Do lado esquerdo da cama, há um roupeiro em madeira, castanho, com três portas. Por cima, mais caixas, malas e uma série de embalagens amontoadas. É ali que os inspetores concentram a atenção durante algum tempo. Abrem a porta do meio e, de lá dentro, retiram uma mala de viagem, de pele. No interior, encontram dois envelopes: um branco e outro castanho. No primeiro, leem a inscrição: “Inválidos do Comércio.” Abrem-no, e a primeira coisa que lhes prende a atenção é o verde. Um maço de notas verdes: 75 notas de 100 euros, num total de 7.500 euros. Dentro do envelope castanho também há dinheiro: só ali, estão 65 notas de 100, exatamente 6.500 euros.

"O espaço correspondia ao perfil que tínhamos de Carvalhão Gil: que era um bocado desorganizado, um bocado caótico e com pouca disciplina."
Pedro Prata, inspetor-chefe da PJ que participou na Operação Top Secret

Há outros dois bolsos na mala de viagem que ainda não foram explorados, um de cada lado. No do lado direito, os inspetores encontram 67 notas de 100: 6.700 euros. No outro há 13 notas. Mais 1.300 euros.

Além daquela mala de viagem, no roupeiro estão penduradas várias peças de roupa: calças, camisas e casacos. Um inspetor coloca a mão no bolso interior de um blusão verde e encontra mais um envelope branco, desta vez com uma referência ao “Grand Cehavir Hotel” — um cinco estrelas, em Istambul, na Turquia. Dentro do envelope, o inspetor encontra mais dinheiro. Entre notas de euro e francos suíços, só ali, estão mais 15 mil euros.

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Ao todo, a PJ encontra 36.400 euros em dinheiro nesta casa. Os responsáveis pela investigação não têm dúvidas de que aquelas notas só podem ter uma explicação: é parte do dinheiro que Frederico Carvalhão Gil foi recebendo, ao longo de vários anos, para passar informações classificadas aos russos.

Documentos secretos por todo o lado — e a arma dissimulada

Ainda há outro elemento naquela divisão a reforçar as convicções dos inspetores. E, tal como as notas, está espalhado um pouco por todo o lado. São as dezenas de documentos classificados.

Em cima de cómodas, no chão, junto ao roupeiro, ao fundo do quarto, em cima de uma arca. São os papéis com que os inspetores se depararam assim que se aproximaram da porta do quarto de Carvalhão Gil. Muitos dos documentos estão marcados como “confidencial”. São informações classificadas, que nunca deveriam ter saído da sede do SIS, e muito menos poderiam estar ali, num apartamento residencial no Lumiar, sem qualquer tipo de controlo sobre quem tem acesso a eles.

“Havia aqui uma atividade deliberada, consentânea com todo o comportamento que ele teve. Gravou pessoas dentro do serviço e não foi por acaso, como ele também diz. Porque não é. Trouxe a informação que tinha no quarto, na casa dele, pilhas de papéis que não podia ter e documentos altamente confidenciais e, portanto, abandalhou completamente o cargo que exercia”, defende Manuela Santos, antiga coordenadora da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da PJ e que também esteve ligada a este caso.

No chão, entre a mesa de cabeceira e o roupeiro, a PJ encontra outras sete folhas suspeitas. A inscrição no cabeçalho deixa a equipa ainda mais apreensiva sobre a dimensão das informações passadas aos russos. O documento está classificado como “NATO Secret Limited.” É de outubro de 2015. Trata-se de informação recente, que foi produzida apenas um mês antes do encontro de Frederico Carvalhão Gil com o espião russo Sergey Pozdnyakov, em Liubliana. E é extremamente sensível — é o próprio SIS quem transmite essa informação ao Ministério Público.

À mesma hora, uma outra equipa da Polícia Judiciária está no Cacém, na segunda casa que o espião tem em nome dele e onde vive uma mulher de origem russa que se apresenta aos inspetores como “amiga” de Carvalhão Gil. Conta-lhes que vive ali há anos e que não paga renda — é um favor que o homem das secretas lhe faz, revela.

Aí, a Judiciária vai encontrar mais documentos classificados. Na sala, num móvel ao fundo, está um relatório da Unidade de Ação Contra Terrorista da PJ. As 17 folhas estão dentro de um envelope A4, castanho pardo, onde se lê a indicação: “CONFIDENCIAL.” No quarto, há mais um documento “CONFIDENCIAL”. Um relatório interno do SIS, com três folhas tamanho A4. Estão rasgadas numa das extremidades.

Há também vários cartões de memória que os inspetores recolhem. Num móvel da sala, encontram mais telemóveis e vários cartões SIM. Por entre alguns livros, dissimulado numa das divisórias, está um revólver. Um Taurus, modelo 32, Long. Não tem qualquer munição.

Um especialista em informática da Unidade de Contra Terrorismo da PJ vai analisar o conteúdo das dezenas de cartões de memória encontrados nas casas de Carvalhão Gil. No interior, há muitas fotografias. Algumas já tinham sido apagadas, mas o inspetor consegue recuperá-las.

Nas imagens, veem-se várias zonas no interior da sede do SIS: a sala de formação, os departamentos operacionais, o interior do bar do torreão, no Piso 0 do Forte da Ameixoeira, e até a área de receção do gabinete do secretário-geral do SIRP, que tutela todas as secretas.

Há pelo menos uma dezena de funcionários nas imagens. E algumas fotos parecem ter sido obtidas de forma dissimulada, sem que os espiões portugueses se apercebessem de que estavam a ser fotografados.

Confirmam-se as suspeitas. Seis meses antes desta operação de buscas, o secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa, responsável máximo das secretas em Portugal, enviou uma carta à então procuradora-geral da República a denunciar Carvalhão Gil: os serviços estavam convictos de que o homem do SIS estavam a ser pago pelos russos para lhes entregar informações sensíveis e, ao mesmo tempo, suspeitava-se de que tivesse andado a recolher dados e imagens de outros funcionários dos serviços e que essa informação também tivesse chegado às secretas russas. Agora, os inspetores tinham a certeza.

“Havia uma atividade deliberada, consentânea com todo o comportamento que ele teve. Gravou pessoas dentro do serviço, a informação que tinha no quarto, na casa dele, pilhas de papéis que não podia ter e documentos altamente confidenciais. Bbandalhou completamente o cargo que exercia”
Manuela Santos, coordenadora da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da PJ

O encontro em Roma foi a confirmação do que no SIS já se suspeitava há algum tempo. Mas quando a PJ descobre dezenas e dezenas de documentos classificados — e, depois, quando faz a análise forense aos equipamentos que o espião tinha em casa —, os responsáveis máximos das secretas ficam ainda mais preocupados: até onde ia a informação que o Kremlin tinha sobre os serviços portugueses? Mais ainda: o que é que Putin e os seus homens de confiança sabiam sobre a NATO?

Aqueles papéis que o espião do SIS tinha em casa podiam não ser um roteiro da aliança atlântica, mas davam pistas importantes sobre como a organização poderia atuar em caso de ameaça. E a ameaça mais forte, já naquele momento, era mesmo a que partia de Moscovo.

O caso de Carvalhão Gil obrigou a mudanças profundas nos serviços, com a recolocação de funcionários, suspensão de operações, substituição de contactos telefónicos e, ainda, uma alargada e sensível ação de esclarecimento junto de serviços congéneros — era preciso provar que, apesar de terem sido penetrados por uma toupeira, os serviços de informações portugueses ainda eram de confiança. Afinal, a toupeira tinha sido detetada — e já estava atrás das grades.

Em tribunal, as provas recolhidas nas buscas às casas do espião vão ser secundarizadas. Na sentença, o coletivo de juízes vai, sobretudo, ter em conta as informações que Carvalhão Gil passou ao seu controlador russo, Sergey Pozdnyakov, em Roma — um encontro que culminou com a detenção dos dois espiões em maio de 2016.

O homem do SIS entregou-lhe uma folha manuscrita com os nomes de atuais e antigos elementos dos serviços. Essa foi a prova determinante para a pena de sete anos e meio de prisão. Na mochila que levou com ele para o encontro, também havia documentos classificados que Carvalhão Gil estaria a preparar-se para entregar ao espião russo, mas a ação da polícia já não deu tempo para que isso acontecesse.

[O diretor do SIS entra na sala de audiências e recusa cumprimentar Frederico Carvalhão Gil, com quem trabalhou durante décadas. A traição do espião abalou profundamente o Estado português e Neiva da Cruz não lhe perdoa. Em tribunal, o espião defronta os antigos colegas do SIS. E, para se defender, ataca o sistema. Nunca vai admitir o crime de espionagem. O que não significa que não seja condenado por ele. Já pode ouvir o sexto e último episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. Pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, o terceiro episódio aqui, o quarto aqui e o quinto aqui.]