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(A) :: "Felipe VI reina há mais de 20 anos e nunca foi a Ceuta." Gaffe de Sánchez expõe tensões com o Rei sobre crise migratória

"Felipe VI reina há mais de 20 anos e nunca foi a Ceuta." Gaffe de Sánchez expõe tensões com o Rei sobre crise migratória

Sánchez cometeu gaffe e disse que Felipe VI "reina há vinte anos", quando monarca tomou posse em 2014. Rei terá querido visitar Ceuta, mas Governo preferiu adiar para não melindrar a coroa marroquina.

José Carlos Duarte
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Nunca foram aliados. Mas também não são inimigos. A relação é estritamente institucional, mas é marcada por algumas tensões pontuais. Ao longo dos últimos oito anos, o Rei Felipe VI e Pedro Sánchez mantiveram uma distância calculada, apesar da cordialidade que demonstram em público. A monarquia espanhola olha com desconfiança para as alianças que o líder do Executivo forjou com os partidos independentistas e com a esquerda radical republicana. Os socialistas também nunca ignoraram a afinidade da Casa Real com o rival de centro-direita, o Partido Popular (PP). Contudo, esta relação deteriorou-se recentemente. O motivo? A crise migratória em Ceuta.

O mal-estar instalou-se logo após o início da crise migratória, que começou há um mês e cujos efeitos ainda se fazem sentir no enclave espanhol. Numa nota emitida pelo Palácio da Zarzuela a 1 de agosto, o monarca deu um verdadeiro puxão de orelhas ao Governo espanhol, quebrando a neutralidade e a cordialidade com Pedro Sánchez. “O Estado deve velar pela segurança e evitar que estes factos — que se traduziram numa perda trágica e triste de vidas — se voltem a repetir”, advertiu a Coroa espanhola, acrescentando que o Rei se sentia “indignado e preocupado” com o que se passava em Ceuta.

O tom certamente não terá caído bem junto do Governo espanhol, já cercado por críticas internas. Depois disso, o Executivo adiou uma visita do monarca a Ceuta no início de agosto. A 6 de agosto, o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas (pertencente ao PP), reuniu-se com Felipe VI em Palma de Maiorca durante as férias da Casa Real e confidenciou que o Rei lhe transmitiu a intenção de visitar o enclave. Contudo, o ministro para a Transformação Digital e da Função Pública, Óscar López, veio logo atirar essa hipótese para mais tarde, sublinhando que apenas quando “fosse oportuno” é que membros da Coroa espanhola deveriam visitar o enclave — e apenas “em coordenação absoluta” com o Executivo.

Depois de um mês sem falar em público, Pedro Sánchez quebrou o silêncio, esta segunda-feira, numa entrevista à rádio Cadena SER. Foi confrontado com a eventual visita do monarca a Ceuta, sendo que o chefe do Governo espanhol respondeu com uma gaffe: “O Rei reina há mais de vinte anos. Quantas vezes foi o Rei a Ceuta e a Melilla?”. O problema? Felipe VI tomou posse em 2014, após a abdicação de Juan Carlos. Ou seja: reina há doze anos e não há duas décadas. Além do erro, o líder do Executivo acabou por reconhecer — ainda que nas entrelinhas — alguma tensão que persiste entre o Palácio da Moncloa e o Palácio da Zarzuela em relação ao enclave.

Após as palavras de Pedro Sánchez, os socialistas espanhóis tentaram corrigir a rota, garantindo que as declarações do secretário-geral não eram uma “condenação” à Casa Real: “Constatou apenas uma realidade”. Sobre o lapso, a porta-voz do Governo, Elma Saiz, explicou esta terça-feira que o líder do Executivo se referia à última visita da Coroa espanhola a Ceuta, que ocorreu em 2007 — ainda no reinado de Juan Carlos. O Executivo assegura também que nunca existiu “qualquer veto” a uma deslocação do atual monarca ao enclave, sublinhando apenas que as circunstâncias têm de estar reunidas para que tal aconteça. Quais? O Governo nunca detalhou.

"O Rei reina há mais de vinte anos. Quantas vezes foi o Rei a Ceuta e a Melilla?"
Pedro Sánchez, presidente do Governo espanhol

“A provocação” ao Rei marroquino que Pedro Sánchez quer evitar

Durante a entrevista à rádio Cadena SER, Pedro Sánchez saiu em defesa de Marrocos. O líder do Executivo espanhol classificou a relação bilateral com Rabat na área da imigração como “francamente positiva”, avisando que, “se não há cooperação com Marrocos, esta crise não se soluciona; pelo contrário, agrava-se”. Não há “qualquer falta de confiança”, assegurou o secretário-geral socialista, salientando que as autoridades marroquinas ofereceram uma “resposta imediata”, num esforço de comunicação “constante”.

Tal como Espanha, Marrocos é uma monarquia — governada pelo Rei Mohammed VI. Rabat reivindica Ceuta e Melilla como parte do seu território e defende a resolução da questão da soberania, ainda que o Governo espanhol rejeite totalmente uma anexação. Neste contexto, durante uma crise migratória, uma viagem de Felipe VI poderia resultar numa verdadeira afronta à Coroa marroquina.

Neste sentido, um responsável político e analista nas relações bilaterais entre Madrid e Rabat afirmou ao El País que “uma visita do Rei de Espanha a Ceuta” serviria apenas para “reavivar a crise”. Principalmente antes das eleições legislativas marroquinas, marcadas para final de setembro. A ida de um monarca estrangeiro daria munição às vozes mais nacionalistas em Marrocos.

https://twitter.com/_constitucion78/status/2094346943606534477

“A visita do Rei espanhol vai ser vista sempre como uma provocação que não vai servir para solucionar nada. Marrocos expôs a sua posição sobre Ceuta e Melilla e Espanha também. Mas este diferendo não deve impedir que continuemos a trabalhar juntos”, prosseguiu a mesma fonte. Em 2007, quando Juan Carlos visitou Ceuta, Mohammed VI criticou a “lamentável visita”, designando-a como um “passo contraproducente” e contra os “sentimentos patrióticos do povo marroquino”.

A relação política entre Pedro Sánchez e as autoridades marroquinas é atualmente próxima. Já na relação entre as duas Casas Reais residem algumas tensões, se bem que publicamente haja uma imagem de normalidade. O Governo espanhol teme que a eventual visita de Felipe VI contribua para deteriorar novamente as relações e possa ser seguida por uma resposta marroquina, incluindo uma eventual instrumentalização da imigração como ferramenta de pressão.

Na entrevista, ainda assim, Pedro Sánchez garantiu que Felipe VI deverá visitar Ceuta. “Creio que há argumentos e razões suficientes para que o chefe de Estado visite por fim, depois de vinte anos, Ceuta e Melilla. Foi isso que partilhei com o chefe de Estado e é o que vai acontecer, assim que se reunirem as condições para isso. A visita será feita. Mas essa visita terá de ser coordenada pela Casa Real e pelo Governo de Espanha”, disse o secretário-geral do PSOE. Ainda não há qualquer previsão; esta terça-feira, a porta-voz do Governo apenas atirou: “O importante é que essa visita vai ter lugar”.

Para a oposição política, a reação do chefe de Governo espanhol mostra novamente tibieza e submissão face a Marrocos. O Partido Popular declarou, esta terça-feira, que, se tiver de escolher, Pedro Sánchez prefere estar ao lado de “Mohammed VI e não de Felipe VI”, atacando a proximidade entre o PSOE e as autoridades marroquinas. O secretário-geral do PP, Miguel Tellado, considera que o “Governo de Espanha não deixou ir o chefe de Estado visitar Ceuta”.

“É evidente que Marrocos não respeita o Governo de Espanha e é evidente que o Governo de Espanha não faz que com que se respeite a integridade territorial do país nem a segurança nacional”, criticou Miguel Tellado, que disse que Pedro Sánchez “está atado de pés e mãos” com a coroa marroquina.

Ainda mais à direita, o Vox continua a defender que Marrocos “invadiu” território espanhol, tendo apresentado esta terça-feira uma proposta de lei no Congresso dos Deputados que implica o corte de relações com Rabat. A porta-voz do partido, Pepa Millán, indicou ainda que o “lapso” de Pedro Sánchez sobre os vinte anos em que alegadamente Felipe VI governaria Espanha foi algo premeditado — e serviu para “desviar o foco” da situação em que se encontra Ceuta.

"É evidente que Marrocos não respeita o Governo de Espanha e é evidente que o Governo de Espanha não faz que com que se respeite a integridade territorial do país nem a segurança nacional."
Miguel Tellado, secretário-geral do Partido Popular

A gaffe seria, portanto, uma cortina de fumo intencional, sendo que a figura do Rei também seria usada para esse propósito. Essa estratégia também foi apontada pelo Podemos, do espaço ideológico oposto. A secretária-geral do partido de esquerda, Ione Belarra, destacou que Pedro Sánchez está à procura de uma “polémica com a monarquia”, de forma a que a situação em Ceuta fique em segundo plano.

O silêncio da Zarzuela e a normalidade na Moncloa

Do Palácio da Zarzuela, não houve qualquer reação oficial. A Coroa espanhola mantém a sua postura institucional e reservada. À exceção do comunicado emitido a 1 de agosto e do encontro com o Presidente de Ceuta em Palma de Maiorca, Felipe VI tem-se mantido em silêncio sobre uma eventual visita ao enclave espanhol. Fiel ao seu estilo, o monarca raramente comenta polémicas e mantém-se à margem dos escândalos políticos.

Do lado do Governo, Elma Saiz garantiu que as “relações com a Casa Real continuam boas”. Atacado por praticamente todos os lados — e até mesmo por aliados de coligação —, o Executivo espanhol quer evitar transmitir a imagem de um confronto aberto com a monarquia, o que fragilizaria ainda mais a sua posição política. A porta-voz assinalou que os canais de comunicação continuam “fluidos” e prometeu dar detalhes sobre a visita a Ceuta assim que existam novidades.

Esta segunda-feira à tarde, Pedro Sánchez encontrou-se com o Rei Felipe VI numa audiência que durou três horas e meia, um encontro que já estava agendado antes da crise migratória ter começado. Apesar da duração da reunião, não foram divulgados detalhes oficiais sobre os temas discutidos. Ainda assim, a probabilidade de a crise migratória em Ceuta ter dominado a conversa é elevada.

Na linha defendida pelo Governo espanhol, grande parte da culpa pela crise migratória reside na “desinformação” promovida por Israel, pela Rússia e por movimentos de extrema-direita nas redes sociais. Ao mesmo tempo, Pedro Sánchez ilibou Marrocos de qualquer responsabilidade direta pelo que aconteceu — uma postura que tem provocado fortes críticas no seio da própria coligação governamental, nomeadamente por parte do Sumar e até de alguns socialistas.

Numa crise que está longe de terminar, Pedro Sánchez tenta afastar qualquer problema com Marrocos, ao mesmo tempo que procura não melindrar as relações com a Casa Real, evitando fechar definitivamente a porta a uma eventual visita do Rei a Ceuta. Manter este equilíbrio continua a ser um exercício bastante delicado — e a imagem do chefe do Governo sai cada vez mais desgastada deste processo.