Luís Neves não se demite, acredita que tem todas as condições para governar e diz que até tem agora uma motivação adicional para continuar: combater o “populismo”. Depois de ter criado expectativas sobre o que viria dizer publicamente esta terça-feira, dia em que prometeu responder a “tudo”, o ministro que tem estado envolvido numa sucessão de polémicas — e que está no centro da ameaça de moção de censura lançada pelo Chega — veio defender-se e retratar-se como alvo e adversário de André Ventura.
Usando para isto o palco da cerimónia do 148.º aniversário do Comando Regional da PSP Madeira, apesar de ter discursado como governante, Neves falou sobre o seu caso sem dar grandes informações adicionais, mas antes para argumentar que está a ser alvo de uma perseguição do Chega e de pessoas que terão “inveja” dele — presumivelmente, elementos que fazem ou faziam parte da Polícia Judiciária e que afastou no passado (haverá alguma “consequência” para os responsáveis, garantiu). Ou seja, uma espécie de vendeta política e pessoal contra ele.
André Ventura ficou, assim, no centro da sua argumentação. “Não aceito que André Ventura transforme aquilo que assumi naquilo que nunca fiz”, disparou, frisando sempre que nunca tomou uma decisão que pudesse prejudicar o Estado e que cometeu “um ou outro erro” que já reconheceu com “humildade”, mas nada das proporções que os casos têm tomado e que André Ventura tem defendido publicamente.
Aliás, o ministro deixou mesmo um desafio ao líder do Chega, que o tratou “como um gangster”, adiantando que no dia 8 de setembro estará no Parlamento para uma audição regimental e desafiando Ventura a colocar-lhe nesse momento todas as questões que tiver. E anunciou que a sua nova motivação para continuar no cargo passa por “contribuir para derrotar politicamente o populismo, a normalização da mentira e a acusação sem provas”, e impedir que “o pior que esta democracia produziu” destrua o que várias gerações construíram.
“Podem continuar a gritar, eu vou continuar a governar. Podem continuar a insultar. Há quem precise do caos para crescer, nós trabalhamos para fortalecer Portugal”, disse, criticando várias vezes a “agenda do caos” que associa ao Chega e a facilidade em fazer “acusações nas redes sociais”, contra o trabalho e a dedicação que implicam a governação.
Foi por isso, prosseguiu, que Ventura passou a atacá-lo com base nestes casos — percebeu que tem “experiência, conhecimento e um passado de combate ao crime” e que não pode ser criticado por “inação”. E foi mais longe nas críticas ao Chega, saindo do seu caso em concreto: “Quem transforma todos os dias a segurança num espetáculo não está a proteger os portugueses, está a usar os seus medos”.
Tudo isto para dizer que não será “intimidado” nem está “desaparecido em combate”, mas antes focado em continuar a governar. “Escolheram a única estratégia que conhecem: lançar suspeitas, atacar a honra e tentar intimidar. A mim não me intimidam, jamais me intimidarão. Nada disto me intimida ou condiciona, não me vai impedir de governar”, declarou, assegurando que quem acredita que a sua autoridade está diminuída ou que não tem condições para exercer a função está “enganado”.
“Quem vive apenas da espuma do caos ignora a essência da governação”, defendeu. “O populismo precisa de repetir até à exaustão uma mentira até que as pessoas parem de perguntar se é verdade. Precisa de convencer os portugueses de que todos os políticos são corruptos”, lamentou.
Sobre os casos em concreto que têm surgido nas últimas semanas, e que têm a ver com o facto de conduzir um carro que tinha sido apreendido pela PJ a um traficante de droga ou de a polícia ter passado a usar outros bens apreendidos — sofás, televisões ou equipamentos de ginásio –, Neves falou para defender a legalidade e, na sua perspetiva, a utilidade para o Estado das suas ações. E garantir que o que teve foi “coragem de quebrar com o status quo“, sem que nenhuma das suas decisões tenha sido revogada por autoridades judiciais.
“Haverá castigo mais adequado do que o património ser atingido? Não, não há”, assegura. “Apliquei a lei. Farei sempre isso”. “Os bens devem ser colocados ao serviço de quem combate”. Assim o produto do crime é devolvido à sociedade, argumentou, dizendo que essa prática está prevista na lei desde 2007 e que encoraja as polícias a prossegui-la, até para que esses bens não fiquem depreciados. “Parece que alguém agora está do lado de quem cometeu crimes. Porventura que fiquem com o património”, atacou.
Mais uma vez, o ministro recordou o seu passado na PJ lembrando que combateu “todo o tipo de crime violento, o terrorismo, o tráfico violento” e algumas das mais graves ameaças de segurança ao país. “Investiguei sempre com provas. Sem provas não há acusação, há difamação”. E é isso que lhe está a acontecer, defende: “Há quem condene adversários sem provas. É a diferença entre o Estado de direito e a política da suspeita permanente”.
Feitas estas declarações, que tinha prometido sem explicar em que moldes as faria ou que esclarecimentos concretos daria, a bola fica do lado de André Ventura, que quis ouvir o ministro antes de confirmar se avança com nova moção de censura ao Governo.