“Punching the Clown”
Lambchop
Os Lambchop, lembram-se dos Lambchop? A banda de Nashvile que apareceu a fazer canções country com trompetes e violinos lá pelo meio? Tinham uma canção chamada I Sucked My Boss’s Dick, situação que – confesso – nunca me aconteceu. Levam quantos anos de atividade, estes moços? 30? Punching the Clown encontra-os a fazerem aquilo que têm feito este tempo todo: mudar de pele sem deixarem de soar a Kurt Wagner, o criador e líder da banda. Foram progressivamente abandonando a americana de discos como Nixon e Is a Woman, foram sacando aqui um soul, ali um jazz, acolá uma eletrónica ou um auto-tune ou uma pop experimental e hoje Lambchop é sobretudo sinónimo de Wagner.
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Depois das experiências eletrónicas de FLOTUS e da estranheza orquestral e digital de The Bible, Punching the Clown despe as canções: guitarras acústicas, piano, vozes e arranjos corais dominam um disco íntimo, espaçoso e melancólico. Em The New World Wave, talvez o melhor momento, Wagner transforma memórias familiares e a passagem das gerações numa longa narrativa, interrompendo a solenidade com piadas e apartes absurdos. Weakened confronta envelhecimento e fragilidade sobre um acompanhamento quase esquelético, enquanto To Do olha para a morte com uma mistura de ternura, resignação e humor seco. Disco sobre envelhecer, perder pessoas e perceber o que sobra de uma vida, nunca chega a ser verdadeiramente sombrio. Aos 66 anos, Wagner continua a cantar quase como quem conversa consigo próprio e a encontrar significado em detalhes banais. Punching the Clown soa simultaneamente modesto e enorme: música aparentemente pequena para assuntos que não podiam ser maiores.
“It Goes On”
Westside Cowboy
Em março deste ano odiei os Westside Cowboy durante uns segundos, sem sequer saber que eram os Westside Cowboy. Meses antes comprara bilhetes para ver os Geese numa pequena sala de uma simpática cidade alemã; ao longo dos meses, o local do concerto foi sendo mudado, para acomodar o crescente interesse na banda. Quando chegou o dia estava numa sala com 4000 lugares esgotados, esmagado entre alemães gigantes e, como se não bastasse, ainda tinha de levar com uma banda de abertura, uns tais Westside Cowboy que, passada a timidez inicial, foram simplesmente ótimos. O quarteto chama, meio a brincar, Britainicana à sua música: americana filtrada pelo indie-rock britânico, algures entre Velvet Underground e os Feelies, muita alt-country, algum college rock dos anos 90 – na realidade, a mesma enciclopédia pela qual estudaram as melhores bandas contemporâneas, como os próprios Geese ou os Wednesday.
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It Goes On tem aquela energia inquieta de quem acabou de descobrir um brinquedo: está repleto de imperfeições que só o tornam mais adorável, como guitarras que rangem e vozes partilhadas que frequentemente parecem atropelar-se. Kick Stones (The Boys) abre o disco nesse equilíbrio entre melodia e desordem, com uma pulsação quase anos 90; Paperchains endurece o som com fuzz e garage-rock, chegando momentaneamente ao caos. Dobro resume melhor a fórmula da banda, começando em riffs melancólicos próximos do pós-punk antes de deixar entrar guitarras country e rock’n’roll.
Mas não se deixem enganar – isto não é a típica banda de garagem e a força de It Goes On está na maneira como essa inquietação convive com uma inesperada ternura. Por baixo das guitarras desalinhadas estão canções sobre amizade, ansiedade, crescimento e a tentativa de encontrar alguma estabilidade na entrada na vida adulta. Os Westside Cowboy não reinventam propriamente o rock de guitarras; mas sabem tanto sobre o passado do mesmo que acabam por criar canções que soam àquelas pessoas específicas fechadas numa sala a fazer o que mais ninguém faz. Delícia de disco.
“My Skyscraper”
Nirosta Steel
Ocasionalmente há um disco assim, vindo de lado nenhum, a soar a coisa nenhuma que consigamos identificar (ou a tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguimos colocar o dedo no globo e dizer: “Isto vem daqui”, porque vem de toda a parte) e que sabemos que só vai ser ouvido por meia dúzia de pessoas mas que essa meia dúzia de pessoas o vai amar de tal modo que isto vai passar de boca em boca e um dia ser ouvido pelos nossos filhos. Nirosta Steel é Steven Hall, escocês de 69 anos que passou pela Nova Iorque artística e queer dos anos 80, estudou poesia com Allen Ginsberg e manteve uma longa amizade e colaboração musical com Arthur Russell.
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My Skyscraper não é nem a reedição do seu primeiro disco, nem o seu regresso ao fim de muitos anos de ausência – é uma espécie de compilação: estas 17 faixas, recuperadas de gravações realizadas ao longo de quatro décadas, revelam-no não como personagem secundária da história de Russell, mas como autor de um universo imprevisível – porque há aqui de tudo: disco mutante, synth-pop, folk acústico, jazz, minimalismo, experimentação caseira, todos os nomes de géneros que fordes capazes de inventar. English Party, originalmente imaginada como possível demo para Madonna, é pop dançável e deliciosamente alquebrada; Boss Trix (Benny’s Song) consegue a proeza de transformar guitarras e cordas abafadas numa espécie de disco sensual; Go for the Night, coescrita com Arthur Russell, abalança-se a um sofisticado jazz-pop noturno, evocando a expectativa de sair para dançar e encontrar um amante. No extremo oposto, Grey Boy abandona praticamente tudo em favor da voz a cappella.
Isto não é propriamente uma compilação histórica, é mais uma receita da Bimby feita dos restos do frigorífico, que por acaso correu bem – presumo que se note que eu não sei bem o que é uma Bimby, mas o importante é que daqui se tira a pinta do tipo: desejo queer, espiritualidade budista, sexo, humor e paixão pela noite atravessam músicas que nunca parecem pertencer inteiramente à mesma época. A proximidade com Arthur Russell é evidente, mas My Skyscraper não é disco de imitador. Steven Hall era figura em nome póprio da Downtown nova-iorquina, uma figura que, por acaso, demorámos quarenta anos a descobrir.
“Temple Songs”
Laura Veirs
Tinham saudades? Eu tinha saudades. Passei anos a escrever sobre ela, entrevistei-a, e depois perdi-lhe o rasto, porque os críticos são assim, cruéis, um dia andam pela folk, no dia seguinte pelo free-jazz e depois pelo rock nigeriano dos anos 60. Mas ei-la a voltar aos belos discos sempre naquele espaço entre folk, americana e indie-rock que tornou seu. Consta que quando se divorciou do produtor Tucker Martine, Veirs atravessou um bloqueio criativo que a levou a pensar que talvez nunca mais escrevesse canções. Divórcios fazem coisas esquisitas ao dentro dos humanos. Enfim, Temple Songs mostra que ela estava errada quanto a esse aspecto, e ainda bem.
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Pormenor: esta rodela foi gravada com apenas dois microfones e um computador no pequeno estúdio que construiu no quintal; é um disco de folk artesanal, delicado, mas não propriamente despido: guitarras dedilhadas criam harmonias sobrepostas, há pequenos teclados, percussão e nada aqui soa a esquelético. Arc Still Bends abre com uma guitarra acústica quase pastoral enquanto Veirs questiona se ainda é possível acreditar que o mundo progride em direção à justiça. Pulse surpreende com um ritmo discretamente próximo da bossa nova e um saxofone que serpenteia pela canção; Feeling Returns celebra o reaparecimento do desejo e da capacidade de sentir depois de anos difíceis. Já Flying Into Darkness confronta diretamente o medo de ter perdido para sempre a inspiração.
Há divórcio, novo casamento, filhos, política, envelhecimento e recomeço nestas onze pequenas canções, quase todas com menos de três minutos. É um disco sobre recuperar a confiança sem fingir que a escuridão desapareceu. Quer dizer, ela tende a reaparecer todas as noites. Enfim. A belíssima Sunlight and Doom está precisamente aí: entre a luz e a catástrofe, aceitando que uma nunca elimina completamente a outra.
“Rumspringa”
Ear
Fui obrigado, tenho de admitir que fui obrigado a ouvir isto, ou pelo menos senti-me obrigado, tantas foram as referências que fui encontrando online.Mas tenho uma novidade, minhas belezuras: valeu a pena. E porquê?, perguntais vós, sempre curiosos. Porque Rumspringa faz dos ear uma das propostas mais curiosas da nova eletrónica americana. O duo, formado por Jonah Paz e Yaelle Avtan em 2024, rapidamente ficou associado ao chamado “laptop twee”: a fragilidade melódica do indie-pop cruzada com IDM, glitch, ruído digital e a cultura fragmentária da internet. Depois do curtíssimo The Most Dear and the Future (2025), Rumspringa expande essa linguagem, dá-lhe uma espécie de coerência – é quase como se: eles tivessem percebido o que queriam fazer e como.
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Vozes sussurradas, gravações de telemóvel, sintetizadores partidos, guitarras, samples, mensagens de voz e súbitas descargas de graves, tudo isto faz parte da peleja e tudo isto aparece e desaparece sem aviso. “Ne Plus Ultra” começa como uma miniatura pop íntima antes de se desmanchar numa sucessão de texturas eletrónicas; enquanto “Good Day Will Arrive” procura uma espécie de euforia no meio do ruído. Mesmo nos momentos mais doces existe sempre alguma coisa que soa falhada, distorcida.
Há aqui ecos da indietronica dos anos 2000, do twee, do dubstep e da IDM, recompostos segundo a lógica caótica do TikTok. Por baixo dessa aparente brincadeira formal, há vulnerabilidade, ansiedade e desejo de contacto humano. É música feita com computadores que parece estar constantemente a perguntar o que ainda existe de genuinamente humano dentro deles.