A 21 de agosto, Hui Ka Yan, o bilionário que quis fazer do Guangzhou o Real Madrid da China, foi condenado a prisão perpétua pelo Tribunal Intermédio de Shenzhen por fraude financeira, absorção ilegal de depósitos públicos e suborno. Todos os seus bens pessoais foram confiscados. No dia seguinte, o Tribunal Intermédio Popular de Guangzhou aceitou o pedido de liquidação da Hengda Real Estate, a principal unidade imobiliária da Evergrande em território continental chinês. Esta segunda-feira, foi a vez do próprio Guangzhou FC entrar em liquidação judicial. Os credores têm até 30 de novembro para reclamar as suas dívidas. A primeira assembleia está marcada para 8 de dezembro. O homem que quis ser o mais rico da China está numa cela. O clube que quis ser o maior da Ásia aguarda liquidação.
A história tinha começado em 2010, quando a promotora imobiliária Evergrande assumiu o controlo de um clube fundado em junho de 1954 e iniciou uma das maiores operações de compra de talento que o futebol fora da Europa já viu. Entre 2011 e 2017, o Guangzhou venceu sete vezes consecutivas a Chinese Super League. Em 2013 e 2015, conquistou a Liga dos Campeões Asiática – tornando-se o primeiro clube chinês a ganhar o troféu e o único a ganhá-lo duas vezes. Em ambos os anos, participou no Mundial de Clubes da FIFA, onde chegou a defrontar o Barcelona. O último título doméstico chegou em 2019. Ao todo, oito Campeonatos – um recorde nacional que dificilmente será igualado tão cedo.
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O que tornava o Guangzhou diferente de qualquer outro clube asiático era a lista de nomes que conseguia atrair. No banco, treinadores campeões do mundo: Marcello Lippi, que liderou a Itália ao título em 2006, chegou em 2012 e venceu a Liga dos Campeões Asiática logo na primeira época. Luiz Felipe Scolari, campeão do mundo pelo Brasil em 2002, que repetiu a proeza continental em 2015. Fabio Cannavaro, capitão da seleção italiana campeã do mundo em 2006, que também passou pelo banco. Em campo, a lista de nomes internacionais era igualmente impressionante – fosse pelas regalias de jogadores de ligas periféricas ou pela forma como a China ameaçava fazer o que a Arábia Saudita conseguiu anos mais tarde. O argentino Darío Conca chegou em 2011 e tornou-se, naquele momento, o terceiro jogador mais bem pago do mundo – apenas atrás de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
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Paulinho chegou do Tottenham por 14 milhões de euros em 2015, foi vendido ao Barcelona dois anos depois e voltou ao clube em 2019 vindo de Camp Nou – um percurso que ilustra bem o estatuto que o Guangzhou tinha ganho no mapa do futebol mundial. Ricardo Goulart foi o melhor marcador do clube durante vários anos e o melhor jogador da Chinese Super League em 2016. Robinho chegou em 2015 a custo zero, depois de rescindir com o AC Milan. Anderson Talisca e Elkeson também passaram por Guangdong.
A contratação mais cara foi a de Jackson Martínez. Em 2016, o avançado colombiano, ex-FC Porto, chegou do Atl. Madrid por um valor que, na altura, era recorde para um clube asiático: cerca de 42 milhões de euros. O problema é que Martínez, que nunca recuperou totalmente de uma lesão no tornozelo, acabou por jogar apenas um punhado de jogos pelo clube. Foi o símbolo mais caro de um modelo que privilegiava o espetáculo sobre a sustentabilidade.
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Em 2020, quando a Evergrande ainda fingia que tudo estava bem, anunciou a construção de um estádio com capacidade para 80 mil espetadores, com um custo estimado de 1,86 mil milhões de dólares. O projeto foi cancelado dois anos depois.
Os sinais de colapso chegaram em 2021, quando a Evergrande entrou em incumprimento depois de acumular dívidas superiores a 300 mil milhões de dólares (cerca de 258 mil milhões de euros, ao câmbio atual) – uma das maiores falências empresariais da história recente. O clube, que já tinha perdido todos os jogadores estrangeiros, foi relegado para o segundo escalão em 2022 numa época em que venceu apenas três jogos. A 6 de janeiro de 2025, a Associação Chinesa de Futebol excluiu-o da lista de clubes com acesso às ligas profissionais para a época de 2025, depois de não ter conseguido cumprir os requisitos financeiros de entrada. “Devido ao pesado fardo financeiro resultante das épocas anteriores, o clube não conseguiu pagar todas as dívidas dentro do prazo”, reconheceu o clube num comunicado de despedida. “Pedimos sinceras desculpas a todos os adeptos”, afirmou. Estava dissolvido. Faltava a liquidação – que chegou agora.
A dissolução do Guangzhou, que outrora funcionou como El Dorado do futebol fora da Europa, não foi um caso isolado. Jiangsu Suning, campeão chinês em 2020, foi dissolvido em fevereiro de 2021 – apenas alguns meses depois de ter ganho o título. Guangzhou City, Wuhan Yangtze e Hebei FC seguiram-se em 2023. Dalian Pro, que teve Rafa Benítez no banco e jogadores como Marek Hamsik e Salomón Rondón, fechou em 2024. O futebol chinês, que no início da década de 2010 parecia estar a caminho de se tornar uma das principais ligas do mundo, entrou em colapso acelerado – vítima da pandemia, da crise imobiliária e de um modelo de financiamento que nunca foi sustentável. O Guangzhou Evergrande foi o caso mais simbólico desta queda. E o seu fundador, que em tempos foi um dos homens mais ricos do mundo, encerra o ciclo numa cela – com uma sentença de prisão perpétua e os bens confiscados.