Asas começou a existir para Ana Rocha de Sousa há quatro anos, quando uma activista ucraniana invadiu a passadeira vermelha do Festival de Cannes. Tinha o corpo pintado com as cores da bandeira do seu país e uma mensagem escrita por cima, manchada de vermelho: “Stop Raping Us” (“parem de violar-nos”). Estávamos em Maio de 2022, a invasão russa começara há três meses. “Foi um momento que, para mim, representou uma enorme incerteza”, contou-nos a realizadora há dias, antes de partir novamente para a Ucrânia. “Tive a sensação de que o mundo estava a mudar diante dos meus olhos. Até então, acreditava que vivíamos numa Europa evoluída, onde este tipo de guerras seria cada vez mais difícil de imaginar. De repente, percebi que não. Que estávamos mesmo a retroceder.”
Pouco depois da entrada de rompante da activista em Cannes, a realizadora soube notícias de uma família ucraniana refugiada que acabara de se instalar em Portugal. Quis conhecer melhor essa realidade, perceber aquelas pessoas, compreender o que poderia fazer com tudo aquilo. Era uma família de mulheres de diferentes gerações, da avó matriarca às filhas adultas, da irmã adolescente às crianças em idade pré-escolar. Os homens tinham ficado para trás. O pai das meninas estava na frente de combate. Asas começou então a ganhar corpo e a criar as suas personagens: Veronika (Oksana Tkach), de 26 anos; a sua irmã Orysia (Alina Kovalchuck), adolescente de 14, com síndrome de Down; do lado de cá, Bruna (Lúcia Moniz), corajosa assistente social que presta apoio à família exilada.
Em Asas, é tudo verdade e é tudo ficção inspirada na verdade que Ana Rocha de Sousa viu. Tal como sucedia em Listen (2020), a sua estreia na longa-metragem (em que Lúcia Moniz foi a protagonista), a família do filme luso-ucraniano que esta terça-feira, 1 de setembro, se estreia no Festival de Odessa não é o retrato exacto de um só grupo de mulheres, embora se inspire numa família que a realizadora acompanhou durante bastante tempo. “É ficção, mas uma ficção construída a partir de factos reais. E há uma coisa que para mim era fundamental: todas as imagens reais de guerra que aparecem no filme são realmente imagens de guerra. Não quis recriá-las.”

Imagens de drones, por exemplo. As casas esventradas. Foi em Portugal que este filme começou para Ana Rocha de Sousa mas, na acção, é da Ucrânia que Asas vai partir, entre as casas desfeitas e os planos aéreos de um cemitério. Pouco depois, aquele sublime momento de horror sugerido que fica em suspenso, em fora de campo, quando Veronika se cruza com um soldado russo, e o silêncio de Orysia, que sem nada dizer, entende a provação a que a irmã acaba de ser submetida. Orysia é, porventura, a personagem fulcral do filme, a sua testemunha mais vulnerável e impotente, não é possivel deixar de falar dela.
Outro momento a reter: a despedida do cão, que vai ter que ficar para trás, já que não lhe é permitida a entrada no autocarro de solidariedade que trará aquelas mulheres para as fronteiras europeias e chão seguro — e quando o autocarro parte, o cão corre atrás dele. Aqui, Ana Rocha de Sousa evoca claramente um vestígio neo-realista que engrandece o seu cinema, a ética do seu olhar.
“Quis distanciar-me absolutamente de tudo aquilo que pudesse ser uma visão turística da guerra”, também nos disse a cineasta. “Para os ucranianos, uma das coisas mais chocantes destes últimos anos foi precisamente essa noção de turismo de guerra, o interesse quase mórbido pelo espectáculo da destruição. Não quis cair nisso. Muito menos do ponto de vista cinematográfico. Procurei uma abordagem sensível e centrada nas mulheres.”
Por isso é a guerra em Asas um pano de fundo do qual se quer fugir, uma realidade que Ana Rocha de Sousa presenciou na sua pesquisa e no trabalho que a levaria a cruzar actrizes profissionais e exilados ucranianos em Portugal, pessoas sem experiência na representação. “Na Ucrânia, não podia filmar num lugar onde aquilo que estamos a contar não pudesse ter acontecido. Por isso, filmámos em lugares onde a invasão realmente aconteceu e onde ocorreram massacres horríveis, documentados como crimes de guerra. Estive em Irpin, Bucha e Borodianka, precisamente zonas onde aconteceram massacres contra mulheres e crianças.”
Mas o filme não é sobre esses massacres. Nem um filme de guerra sobre a guerra, acrescentamos. A autora concorda, esclarece ainda mais: “Quando vamos ao cinema ver um filme de guerra, muitas vezes estamos à espera de um determinado tipo de espetáculo masculino. E há qualquer coisa de profundamente abominável nisso, porque a própria guerra é abominável. Acho que o cinema contribuiu imenso, ao longo dos anos, para vender uma determinada ideia da guerra. Eu não queria entrar nisso pois seria ainda mais absurdo neste caso: uma coisa é representar uma guerra que aconteceu e terminou; outra é representar cinematograficamente uma guerra que ainda está a acontecer, todos os dias, diante de nós.”
Asas quer prolongar a vida. Poucas vezes em filmes recentes se viu a vida tão representada — e num grau de tão justa igualdade — pelo feminino. São elas que têm de continuar, seja de que forma for. Há muitas histórias por detrás disso. Com a actriz que interpreta Orysia (Alina Kovalchuck), Ana Rocha de Sousa estabeleceu um pacto: aquilo que lhe pedia no início de cada cena tinha de ser mantido até ao fim. “Não podia mudar de direcção a meio com ela. Isso ficou muito claro desde muito cedo.”

Já a personagem de Veronika vai viver a tragédia sob todas as formas possíveis, físicas e psicológicas. Descobre em Portugal que está grávida. “O que me pareceu profundamente perturbante”, continuou a realizadora, “foi perceber que existem mulheres que passam por situações inimagináveis e decidem continuar uma gravidez resultante de uma violação. Não estou a dizer que eu, Ana, escolheria dessa maneira ou de outra. Eu não fiz um filme sobre o aborto. Limitei-me a retratar uma realidade que me impressionou profundamente. A minha pergunta era esta: como é que se vive com isto? Como é o depois? Não tenho respostas. A partir do momento em que tomei consciência de que estas histórias existiam, senti a responsabilidade de as retratar. E retratá-las tal como são, sem juízos de valor e sem julgamentos, nem nas imagens, nem nos sons.”
Sem esquecer todas as outras personagens que não chegaremos a mencionar, chegamos por fim a Bruna, a assistente portuguesa que coordena a chegada das refugiadas naquele norte de Portugal com cores pardacentas de Outono (o filme foi rodado entre os concelhos de Murtosa e Ovar, embora contorne qualquer referência geográfica). Bruna é incansável, uma “faz-tudo” na ajuda que presta às ucranianas, ora a exigir decisões do presidente do organismo de integração de refugiados para o qual trabalha, por sinal o pai da sua filha (Jorge/Hugo Bentes), ora a confrontar a directora da escola secundária (Leonor Silveira) que não dispõe dos recursos de educação especial que Orysia necessita.
No seu âmago, Bruna é uma mulher tão indignada como a Ana Rocha de Sousa com quem conversámos ao telefone. “Há sempre algo de mim, de alguma forma, nas personagens que entrego à Lúcia [Moniz]. Não é no sentido de eu desejar estar no ecrã. Não quero ser aquela realizadora que está simultaneamente fora e dentro de tudo. Mas há personagens que são como uma extensão de mim. E esta é uma delas.”

E Odessa, como vem aqui parar? Asas podia certamente ter escolhido outro palco para se dar a conhecer ao mundo mas Odessa, contou a realizadora, “é o lugar necessário. Ainda mais nos dias que correm. É extremamente importante não ficarmos a meio-caminho. Por isso faço questão de estar presente e de ir lá agora, num momento ainda mais perigoso do que antes.”
Para Ana Rocha de Sousa, há um forte lado simbólico em levar esta co-produção à Ucrânia. “Quero que este filme possa ser reconhecido e abraçado por aquelas pessoas. Apesar de todos os incentivos, de tudo aquilo que se diz e de tudo o que foi feito, Há um abandono na forma como a Europa está a olhar para a Ucrânia. Só que esta não é a ‘guerra dos outros’. É um dos maiores erros humanos: acreditar que as guerras são sempre longe e que pertencem sempre aos outros. Há um poema de Martin Niemöller [a realizadora refere-se a Primeiro Eles Vieram…] que exprime muito bem aquilo que eu penso: primeiro vieram buscar uns, depois outros, e ninguém fez nada nem era nada comigo. Até ao momento em que também me vieram buscar, e já não havia ninguém para me defender…”
“Não percebo como podemos ficar de braços cruzados a ver o que acontece. Quando me perguntam por que razão vou novamente à Ucrânia, a resposta é simples: se todas as pessoas deixarem que o medo as impeça de fazer alguma coisa, a vida acaba e o mundo pára. Não estou a pedir às pessoas que não tenham medo. Todos temos medo. Mas acho importante não pensarmos que uma guerra só nos diz respeito quando começam a bombardear o nosso telhado.”
Asas foi produzido por Maria João Mayer, que aponta para Janeiro de 2027 a provável data de chegada do filme às salas portuguesas, com distribuição a cargo da NOS. Para já, aguarda-o a estreia mundial desta noite. E essa é ucraniana.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.