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(A) :: Mais de 400 milhões investidos, uma Aranha que caiu na teia e os "choques" Real-Barça: como a chegada de Mourinho mudou o mercado da La Liga

Mais de 400 milhões investidos, uma Aranha que caiu na teia e os "choques" Real-Barça: como a chegada de Mourinho mudou o mercado da La Liga

Florentino sentiu-se visado, forçou eleições, ganhou – mas "vitória" passa por quebrar recente hegemonia catalã. Foi por isso que chamou Mourinho, como fizera em 2010. E foi assim que a La Liga mexeu.

Bruno Roseiro
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No meio de tudo, sobrou uma “vítima”. Esteve em quase todo o lado, acabou por não ir para lado nenhum. E pior – fez tudo para sair esquecendo-se do dia em que entrou e agora complicou a entrada na equipa por não ter encontrado uma saída. Julián Álvarez já ganhou praticamente tudo o que havia para ganhar no futebol aos 26 anos mas queria mais. Arriscou um “golpe” como o compatriota Enzo Fernández, deixando cair uma bomba em relação a uma venda mas sem nunca fechar as próprias portas. Falhou um capítulo, ao contrário do médio: não conseguiu impedir que o clima de hostilidade por parte dos adeptos do Atl. Madrid escalasse para uma dimensão como há muito não se via. No final, acabou com uma mão cheia de nada e tem ainda mais a perder, tendo em contas as dificuldades que está a atravessar para ser apenas um jogador de futebol.

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O Barcelona parecia disposto a cometer uma loucura de três dígitos, nada. O Real Madrid chegou a falar de um investimento de 150 milhões de euros, nada. Pelo meio, o Arsenal tentava perceber para que lado ia com Viktor Gyökeres como potencial moeda de troca, nada. Os principais mercados fecharam e, como acontece desde 2024, quando se tornou a transferência mais cara de um verão bem mais comedido (os colchoneros pagaram 75 milhões ao Manchester City pelo argentino), Julián Álvarez faz parte do plantel do Atl. Madrid – se vai jogar muito ou pouco, ainda é um caminho que faltava desbravar para se saber. É por isso que o clube estará mais ou menos forte do que os adversários diretos? Em parte sim, mas nem mesmo a melhor versão da Aranha deverá ser suficiente para impedir mais uma época em que existe Barcelona, Real e os outros.

Hoje, fruto da campanha demasiado agressiva que toda a entourage à volta do dianteiro foi usando para ir forçando uma saída, o argentino é assobiado pelos adeptos. A receção ao Villarreal, que terminou com um empate a dois, mostrou todo o filme: Álvarez começou como suplente, foi vaiado quando entrou e tocava na bola, saiu logo para os balneários quando os restantes companheiros cumprimentavam todos aqueles que tinham apoiado nas bancadas. Existe uma ferida aberta no Metropolitano, agora sem a possibilidade de ter esse curativo que seria uma saída, com a guerra entre responsáveis do clube e do jogador a chegar mesmo a acusações que criações de bots nas redes sociais para fazer do Atlético um clube opressor. Dois anos depois de ter visto uma janela de oportunidade para voltar a ser campeão, a figura desse projeto “faliu”.

Esse ano de 2024 teve o Atl. Madrid como principal protagonistas no verão mas ajuda a explicar aquilo que tem acontecido em 2026. Aí, apesar de ser um período marcado pelo Campeonato da Europa na Alemanha, o Atl. Madrid apostou todas as fichas por considerar que estava em contraciclo em comparação com os rivais diretos na luta pela La Liga. Resolvida a questão Diego Simeone, que tremeu (tremeu mesmo muito) mas ficou como todo poderoso do Metropolitano, os colchoneros investiram quase 200 milhões de euros num mercado que, além de Álvarez, trouxe Gallagher, Le Normand ou Sörloth para o clube, que conseguiu “cortar” a ligação falhada com João Félix e ainda vendeu Samu e Morata para equilibrar as contas. Do outro lado, imperou a contenção: sem dinheiro e em risco de não poder sequer inscrever novos jogadores, o Barça assegurou Dani Olmo e Paul Vítor, fazendo mais com vendas de excedentários com Vítor Roque à cabeça; com o investimento no Bernabéu a pesar nas contas, o Real assegurou Kylian Mbappé, Endrick e pouco mais.

Estavam lançados os dados para uma temporada de confirmação, sucessão ou viragem. Os merengues, que tinham sido campeões europeus e nacionais, viveram o annus horribilis de Carlo Ancelotti, vencendo apenas a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental entre várias desilusões em Espanha e na Champions. Já os colchoneros, que partiam com sonhos e ambições revigoradas, foram uma desilusão ainda maior numa Liga que acabaram a 12 pontos do topo. Por seu turno, os catalães, com Joan Laporta a assumir uma rutura difícil em termos históricos e nostálgicos com Xavi Hernández, ganharam tudo em Espanha com Hansi Flick entre Liga, Taça e Supertaça, chegando às meias da Champions. Havia um vencedor e não era conjuntural.

Com o técnico alemão a viver sempre com pouco ou nada em termos de entradas (em 2025 o Barcelona só contratou Joan García para a baliza, assegurando por empréstimo João Cancelo e Marcus Rashford entre algumas vendas menores ou saídas a custo zero), a aposta na La Masia acentuou-se e, mesmo sem ter uma figura como Lionel Messi no epicentro de todo o projeto – que até pode ser mas ainda não é Lamine Yamal –, a equipa foi conseguindo criar uma identidade que lhe permitia dominar o futebol espanhol como há muito não se via. Em Madrid, era mais do mesmo: o Real entrava num ano onde a veia autofágica esteve mais latente que nunca entre trocas de treinadores, gestão de egos, confrontos no balneário e falta de resultados, ao passo que o Atlético não evitava mais um ano de quase nas provas a eliminar entre o terramoto interno na La Liga, onde terminou na quarta posição também atrás do Villarreal a 25 pontos do campeão Barça.

Foi por isso que, este ano, Simeone voltou a ter carta branca para reforçar de forma cirúrgica o plantel com quatro potenciais titulares: Alejandro Grimaldo, Cristiano Romero, Morten Hjulmand e Kang-in Lee, num total de quase 120 milhões de euros. Problema? As regras de jogo mudaram – e muito. E o regresso de José Mourinho ao Real foi a peça que faltava para outra volta a um passado não muito longínquo onde a equipa de Madrid tem como principal objetivo mitigar as bases de um potencial período hegemónico que os catalães foram conseguindo construir entre paciência, talento e necessidade. Hoje, o Barça ainda pode andar a contar tostões em algumas operações mas teve o músculo suficiente para investir mais de 180 milhões de euros no plantel sem problemas em torno dos limites salariais. Hoje, o Real sabe que precisa iniciar um novo ciclo “a sério”, colocando cerca de 225 milhões de euros no mercado para contratações. Hoje, o Atlético, com ou sem aquele Julián Álvarez que marcou 49 golos e fez 17 assistências em 106 jogos, voltou a “sair” da luta.

Quer isto dizer que não pode haver uma surpresa na La Liga, entre um colapso de Barcelona e Real e um reaparecimento do Atlético? Não. Ainda assim, os colchoneros perderam o timing de 2024, quando fizeram uma temporada de investimento em contraponto com os adversários diretos. Agora, a narrativa desta Liga espanhola não vai ser contada pelos milagres que Diego Simeone ainda consegue ou não fazer no banco dos rojiblancos mas sim na capacidade que um renovado Mourinho terá para colocar os merengues de novo a serem uma real oposição aos catalães em termos internos e na Europa. Agora, a narrativa desta Liga terá pontos de contacto com aquilo que aconteceu entre 2010 e 2013, na primeira passagem do português.

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Os títulos do Barcelona pesaram nessa decisão, a incapacidade do Real lutar por títulos na era pós-Ancelotti também, mas a principal convulsão que levou à viragem de paradigma entroncou num outro fenómeno: pela primeira vez em largos anos, o “poder” de Florentino Pérez foi colocado em causa. Isso mudou tudo.

A conferência de imprensa em que anunciou eleições antecipadas no Real Madrid mostrou o outro lado de um dos homens mais poderosos do futebol mundial. Florentino, que desde que voltou à liderança do clube da capital espanhola em 2009 após um período marcado pela era dos galácticos que acabou da pior forma em 2006 (quando se percebeu que ter só Zidanes e Pavones não chegava para ganhar) se tornou o presidente mais titulado de todos os tempos no plano internacional, era acusado de tudo e mais alguma coisa por uma imprensa que deixou de estar rendida, por uma franja de adeptos que apontava para uma viragem de rumo e por uma crítica que falava em fim de ciclo. Contra isso, o número 1 do Real respondeu. Foi apontando o dedo um a um a todos aqueles que o criticavam, chamou à luta a figura que se posicionava para avançar com uma candidatura, quis ser legitimado. Pelo meio, nunca esqueceu o caso Negreira e o rival Barcelona.

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No contexto que enfrentava este verão, Florentino Pérez tinha uma enorme margem para apontar a quase todos os treinadores do mundo – depois da saída de Xabi Alonso, Álvaro Arbeloa era alguém a prazo e o Real tinha quatro/cinco meses para traçar o perfil do que queria para 2026/27. Falou-se em Jürgen Klopp, que se afastou sempre desse ruído para chegar onde queria: a seleção alemã. Falou-se no regresso de Zinedine Zidane, uma figura com toque de Midas que estava destinado a assumir a seleção francesa. Falou-se em Enzo Maresca, campeão mundial pelo Chelsea que se tornaria o sucessor de Pep Guardiola no Manchester City. Opções não faltavam, longe disso. No entanto, o presidente do Real sabia bem o que queria. Para isso, havia um e só um nome: José Mourinho. E nem as recentes passagens com menos sucesso pela Turquia (Fenerbahçe) e por Portugal (Benfica) colocaram em causa essa possibilidade de imediato aceite de regressar.

Mourinho conhece bem Florentino Pérez, conhece bem o Real Madrid e conhece ainda melhor a realidade em que volta ao Santiago Bernabéu – afinal, com as devidas diferenças, tem pontos de contacto com aquilo que enfrentou a partir de 2010 numa luta fraticida com o Barça de Pep Guardiola, treinador eleito para assumir o comando dos blaugrana dois anos antes depois de contactos exploratórios com… Mourinho. Tudo o que aconteceu a partir daí mais não foi do que uma contagem de espingardas para uma reedição desse duelo, seja na La Liga, seja na Champions. E a conta final de ambos acabou acima dos 400 milhões de euros, a que se juntam 120 milhões de um Atl. Madrid que quis tanto marcar uma posição de força que se perdeu.

Uma La Liga mais sustentável, as amortizações do estádio e a influência da nova era Mou

Houve um momento chave no mercado de transferências espanhol e inglês que acabou por ditar tudo o resto: quando parecia estar com pé e meio no Arsenal, naquela que poderia ser a contratação mais cara de sempre de uma formação britânica e a segunda maior apenas atrás dos 222 milhões de euros quando Neymar trocou o Barcelona pelo PSG, Vinícius Jr. decidiu aceitar a proposta de renovação que tinha nas mãos de Florentino Pérez e “impediu” que as peças de dominó continuassem a cair à custa de muitos milhões. Aqui, e quase de forma isolada, Espanha levou a melhor sobre Inglaterra. Em tudo o resto, não há comparação.

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Resumo: a Premier League gastou cinco vezes mais em contratações do que a La Liga, num mercado que teve o condão de colocar Inglaterra como um mundo à parte dos outros (tanto que duplicou os investimentos em relação ao período da pandemia). Existem críticas ao modelo que é adotado, inclusivamente com a ideia de que as constantes perdas nos exercícios das equipas sem uma consequência inflaciona o resto do mercado sem capacidade de resposta, ninguém duvida de que a Premier está a anos luz da concorrência direta. O exemplo é o do costume: o Ipswich, que subiu esta temporada do Championship, teve gastos que andam perto daquilo que Real Madrid e Barcelona apostaram (mais de 180 milhões). Mais: o Ipswich, esse mesmo Ipswich que em quatro épocas subiu do terceiro para o primeiro escalão, gastou mais sozinho do que as 17 equipas da La Liga que não Real, Barça e Atl. Madrid. Contra estes factos, não restam muitos argumentos.

De acordo com os dados do Transfermarkt, a La Liga teve investimentos a rondar os 750 milhões de euros este verão, muito inflacionados pelo que fizeram Real Madrid e Barcelona, contra 4.000 milhões de euros dos clubes da Premier League – ou seja, cinco vezes menos do que os ingleses. Até a italiana Serie A e a alemã Bundesliga gastaram mais do que as formações espanholas, com a particularidade de a Ligue 1 não ter uma vantagem muito grande nesse ranking sobre a sexta prova com mais dinheiro envolvido em contratações que foi… o segundo escalão inglês, a Championship (600-435 milhões). Tudo tem uma explicação: em Inglaterra, o modelo de negócio entre transmissões televisivas, direitos e patrocínios – mesmo sofrendo um revés como a proibição de casas de apostas nas camisolas – gera tanto dinheiro que há com fartura para gastar; em Itália, os principais clubes encontram-se numa fase de renovação; na Alemanha, a competitividade interna com exceção do Bayern está a crescer; em França, o problema da venda dos direitos obriga a cautelas.

Voltando a Espanha, só mesmo as movimentações dos dois eternos candidatos ao título impediram que a La Liga descesse à quinta posição entre as provas com maior investimento no mercado. Em tudo o resto, existe “ordem” para estabilizar – pelo equilíbrio financeiro, pelo cumprimento das regras da competição a nível de receitas e custos, pela aposta nos jovens jogadores espanhóis. O Betis conseguiu também chegar à Liga dos Campeões, o que lhe assegura grande parte do orçamento, Real Sociedad e Celta de Vigo estarão na Liga Europa, o Getafe tem a Liga Conferência. A par disso, com a atual chave da venda centralizada dos direitos audiovisuais (50% igual para todos, 25% por rendimento desportivo e 25% por implantação social), as equipas mais modestas não costumam ter direito a menos de 40 milhões de euros por época.

Apesar de não ser uma realidade estabilizada a 100%, e mesmo não mostrando aquele fulgor dos tempos de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi (também pelo peso que os dois Bolas de Ouro tinham nas suas equipas e na própria La Liga), a principal competição de Espanha tem conseguido revitalizar-se no plano financeiro, com a últimas temporada a fechar com 14 equipas com exercícios positivos e apenas cinco com prejuízos. O valor total de receitas bateu recordes, os montantes recebidos por vendas de jogadores também foram aumentando e existe também um fenómeno de “classe média sustentável” que ajudou a equilibrar as contas. Real Madrid e Barcelona estão numa liga à parte. E se o volume de negócio tem aumentando, 2026/27 transformou-se sobretudo numa temporada de “recomeço”, para continuar ou para mudar, com prioridade ao futebol.

No caso do Real Madrid, assim se confirme na prática todo o business plan criado para a remodelação total do Santiago Bernabéu, os encargos financeiros anuais contraídos junto da J.P. Morgan e do Bank of America (com envolvimento inicial do Santander e da Société Générale) estão de tal forma diluídos no tempo, em alguns casos para a frente de 2050, que não têm impacto com os exercícios anuais. Um exemplo prático: enquanto os encargos das principais equipas portuguesas podem levar à venda de um jogador apenas para fazer essa amortização anual, os cerca de 200 milhões anuais de receita que os merengues apontam tendo o atual recinto pagam esses custos e sobra mais de 65%. O novo Bernabéu paga-se, o novo Bernabéu também ajuda a pagar outras coisas. É aqui que entra a necessidade de ser competitivo no futebol.

Depois de Dumfries e Konaté, que funcionaram quase como triunfos eleitorais de Florentino Pérez, Real Madrid assegurou contratações de Marc Cucurella, Bernardo Silva, Yan Diomande e Carlos Espí por um total acima dos 200 milhões de euros, a que se juntam prémios de assinatura... e a renovação de Vinícius Jr.

Quando Kylian Mbappé foi contratado em 2024 a um custo que foi tudo menos zero apesar de ter o passe na mão por terminar contrato com o PSG, Florentino Pérez encontrou a figura que tanto procurava desde que Cristiano Ronaldo saiu para a Juventus, em 2018. Problema: a partir daí, deixou de ganhar, com o mercado do último verão a ficar sobretudo marcado pelos tiros menos certeiros. Mesmo tendo jogadores, o Real não era uma equipa e nem aquele espírito que faz com que os jogos no Bernabéu tenham mais do que 90 minutos serviu para que a equipa fugisse a nova temporada sem títulos. Os merengues estavam estagnados e perdiam, ao mesmo tempo que os blaugrana evoluíam e ganhavam. Em vez de um problema, Florentino tinha dois problemas – e Mourinho foi a resposta para ambos para este início de era no Santiago Bernabéu.

A contratação de Dumfries ao Inter por 20 milhões, a par da chegada de Konaté a custo zero do Liverpool, funcionaram quase como trunfos eleitorais na corrida a novo sufrágio. A seguir, Marc Cucurella também ficou fechado com o Chelsea, neste caso por 55 milhões, ao passo que Bernardo Silva, que parecia inclinado para o Barcelona e esteve a um passo do Atl. Madrid, reforçou também os blancos a custo zero. Sobrava assim margem para um grande investimento, com a taluda da sorte a sorrir a Yan Diomande, jovem ala costa-marfinense do RB Leipzig que foi contratado por 125 milhões de euros, e para um reforço com um perfil diferente para o ataque, Carlos Espí (ex-Levante), por 25 milhões – o que fez neste caso com que a “sombra” de Mbappé na última temporada, Gonzalo García, acabasse por ser vendido ao Fulham de Arbeloa. A par de tudo isso houve ainda outra operação já supracitada: a renovação com o brasileiro Vinícius Jr.

O mercado fechou com algumas lacunas ou potenciais debilidades ainda apontadas, entre a ausência de um líder no meio-campo desde que terminou a era Toni Kroos-Luka Modric e a dificuldade em gerir tantos egos num balneário que já foi foco de problemas. Para José Mourinho, tudo bem. Tudo correto. Tudo perfeito à espera que os resultados demonstrem isso mesmo (como tem acontecido). “O plantel está fechado e estou satisfeito. Egos? O mais complicado é quando não se tem jogadores de alto nível ou quando se tem problemas com lesões ou suspensões e não se tem jogadores para manter o nível. Tive esse problema nos últimos anos porque não estive nas melhores equipas. Agora, já não vou ter esse problema”, comentou.

https://observador.pt/2026/08/26/o-hat-trick-de-mbappe-acabou-com-canticos-por-jose-mourinho-real-madrid-goleia-no-regresso-do-portugues-ao-bernabeu/

Pode gostar-se mais ou menos dos jogadores em causa, pode considerar-se que ligam melhor ou pior, mas o Real Madrid ficou com o plantel mais completo da La Liga e até da Liga dos Campeões. Vejamos: Courtois e Lunin na baliza; Dumfries, Alexander-Arnold, Cucurella e Álvaro Carreras para as laterais; Dean Huijsen, Konaté, Rüdiger, Raúl Asensio e Éder Militão para o eixo central recuado; Fede Valverde, Tchouaméni, Camavinga e Bernardo Silva para o meio-campo, com Jude Bellingham mais à frente e o jovem Thiago Pitarch à procura de mais oportunidades; Arda Güler, Brahim Díaz, Diomande e Vinícius Jr. no apoio a Kylian Mbappé e/ou Carlos Espí, havendo ainda Endrick e Rodrigo que recuperam de lesão. Com uma ideia de jogo e uma identidade que começam a aparecer, o complicado é escolher o 11 inicial, mesmo sem chegar aquele 6 que chegou a ser ponderado entre Zubimendi e Rodri, que seguiu para o Barça.

Não deixa de ser estranho ver o conjunto catalão a chegar ao final do mercado com um investimento total de quase 185 milhões de euros, mesmo em parte equilibrados com vendas como a de Ferran Torres ou saídas a custo zero ou por empréstimo de jogadores com peso na folha salarial como Lewandowski, Ronald Araújo ou Marc ter Stegen. Afinal, e como explicava o The New York Times num artigo de fundo, era difícil perceber-se como o clube com a maior dívida do mundo poderia recuperar as suas finanças – ou, no mínimo, ter alguma solvabilidade para atacar o mercado. Foi isso que aconteceu, também por culpa dessa ideia de que Hansi Flick precisava de outras “armas” contra um Real de Mourinho que vinha com tudo em 2026/27.

Depois de Anthony Gordon e Adeyemi, Barcelona conseguiu assegurar as duas pedras-chave em falta: um médio defensivo, Rodri, e um avançado, Gabriel Jesus, que surgiu como plano B a Julián Álvarez

Por partes: o Barcelona tem nesta altura uma dívida acumulada de quase 2,5 mil milhões de euros, entre a dívida corrente de 1,35 mil milhões que foi ficando adensada com o passar dos anos (e das más gestões) e o recente empréstimo de 1,5 mil milhões para a remodelação total do Camp Nou. Neste caso, a amortização desse valor será diluída no tempo como o Santiago Bernabéu, sobrando a dúvida da capacidade do novo recinto poder “pagar-se” a sia próprio como acontece no Real Madrid. O resto… resolve-se com o tempo: o último exercício terminou com o Barça a bater o recorde de receitas, que passou pela primeira vez na sua história mil milhões de euros com a renovação com a Nike e o aumento dos encaixes comerciais, o que não evitou que o saldo final tivesse um prejuízo de 17 milhões. Os gastos tiveram um enorme corte, todos os encargos financeiros que foram antes contraídos acabaram por pesar muito na hora de fazer as contas. A notícia chegou no Orçamento apresentado para 2026/27: apesar do investimento, prevê chegar ao lucro.

A par disso, houve uma série de negócios que só o tempo poderá avaliar envolvendo algumas das empresas do universo empresarial do Barça, com vendas minoritárias de sociedades entre 24,5% e 49,9% – e não são sociedades sem peso, tendo em conta que envolvem as produções audiovisuais, parte dos direitos televisivos que advém do bolo total da La Liga e a empresa que gere todo o merchandising e marca. Entre tudo isso, e também com eleições antecipadas pedidas pelo próprio Joan Laporta pelo meio, Hansi Flick foi fazendo “milagres”, com vários jogadores formados no clube a servirem para esconder a pouca margem de investimento como Pau Cubarsí, Álex Baldé, Fermín López ou Marc Bernal. Agora, pelo visível aumento de competitividade em termos internos e pela vontade de ir mais longe na Champions, isso mudou.

Numa contratação que envolve alguma dose de risco (pelos valores em causa, não pela qualidade do jogador), Anthony Gordon chegou a Camp Nou por 80 milhões de euros, ocupando a vaga que tinha sido de Marcus Rashford na temporada anterior por empréstimo do Manchester United. Em paralelo, Adeyemi reforçou as opções do meio-campo para a frente pela sua polivalência (22 milhões ao B. Dortmund). Faltavam as duas pedras-chave para tudo o resto: um médio defensivo e um avançado. No primeiro, o Barça ganhou: apesar do interesse que terá sido demonstrado também pelo Real, os catalães conseguiram convencer o internacional espanhol e o Manchester City para uma venda por 60 milhões de euros aos 30 anos. No segundo, perante a resistência do Atl. Madrid, Gabriel Jesus surgiu como plano B para haver um elemento com características mais semelhantes a um número 9 no plantel custando apenas dez milhões vindo do Arsenal.

Com maior investimento do que nas últimas épocas, de uma ou de outra forma, Real e Barcelona ficaram com os plantéis desejados para todos os desafios até janeiro, altura em que poderá haver margem para os habituais retoques nas equipas. O efeito Mourinho fez-se sentir, os catalães perceberam que os merengues apostavam tudo esta temporada, as peças de dominó começaram a cair. No meio de tudo isso, o Atl. Madrid reforçou-se para tentar evitar o que aparenta ser inevitável – e quem ficou a perder foi Julián Álvarez…