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De Braga Gonçalves a uma "doula da morte": o paço minhoto que vai acolher um retiro islâmico de Rama Duwaji, a primeira-dama de Nova Iorque

A primeira-dama de Nova Iorque viaja para Arcos de Valdevez para uma "jornada pela história do Islão em Portugal". Experiência ocorre no Paço da Glória, onde também são organizados retiros de luto.

Larissa Faria
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“Ao longo dos anos, foi propriedade de um conde, de um esteta, de um bon vivant, de um erudito e, finalmente, de uma família”: assim é descrito o Paço da Glória pela sua herdeira, Rebecca Illing, que cresceu em Londres. Mas era na propriedade numa colina no Alto Minho que passava as férias na infância com o pai (o diplomata norte-americano Robert Frederick Illing), a mãe e o irmão. A família é a mais recente dona deste solar no município de Arcos de Valdevez, a cerca de 90 quilómetros do Porto. Ao longo dos séculos, entre mudanças de proprietários, foram vários os usos dados àquela morada — por onde este mês deverá passar Rama Duwaji, a primeira-dama de Nova Iorque.

Classificado como Monumento de Interesse Público em 2012, o solar em estilo Barroco situado numa quinta foi construído no século XVIII por Francisco de Araújo e Amorim, que havia acumulado uma grande fortuna no Brasil. Em 1909, a propriedade foi adquirida pelo conde de Santa Eulália, que a manteve no seu espólio até morrer em 1917. A sua esposa e filho não demonstraram interesse pelo imóvel, que passou então para a posse do Estado português. Um leilão realizado em 1937 fez com que o lorde inglês Peter Pitt Millward arrematasse o terreno para si, realizando remodelações e adições como uma piscina e uma galeria decorada por bustos inspirados nos de Versalhes — que lá permanecem até aos dias de hoje.

Em 1978, o Paço da Glória mudaria mais uma vez de dono: Peter deixou o paço como herança para o seu amigo Collin Clark (protagonista de My Week with Marilyn), que decidiu abrir as portas de seis quartos como alojamento turístico. Dez anos depois, vendeu o empreendimento ao empresário Maurício Macedo, que incluiu aquecimento central e uma sala de pequeno-almoço para dar continuidade à exploração do espaço. Após mais uma década, surge um novo interessado: José Braga Gonçalves, um dos fundadores da Universidade Moderna. Maurício Macedo recusou a proposta direta de compra, mas fechou negócio com Braga Gonçalves para a remodelação do imóvel e um contrato de arrendamento de três anos — que foi posteriormente estendido para mais três anos.

O objetivo de Braga Gonçalves era comprar o imóvel de Maurício Macedo após o fim dos contratos. Tal não ocorreu: sem dinheiro para pagar a renda após sair da Dinensino (empresa proprietária da Universidade Moderna), teve de rescindir o contrato vigente. Em fevereiro de 1999, o Público noticiou o vaivém da suposta compra muito falada naquela terra — mas nunca consolidada. Maurício Macedo só se viu livre da propriedade em 2002, quando a vendeu para Robert Frederick Illing, que dividiu o espaço entre pousada e casa de veraneio para a sua família.

Robert morreu no passado mês de dezembro, sendo a sua filha Rebecca Illing a atual responsável pelo paço. Rebecca, cuja mãe e irmão também morreram na última década, deixou a carreira no setor das artes para trabalhar como “doula da morte”, organizando experiências individuais e coletivas para superar a perda de entes queridos. Na casa da sua família em Arcos de Valdevez, Rebecca viveu o luto durante a pandemia de Covid-19. “Os meus filhos e eu percorremos esses espaços cheios de memórias. Ensinei-lhes o que era a morte. E, de repente, a casa começou a servir-nos de uma forma que era, na verdade, exatamente aquilo que queríamos”, disse à revista The World of Interiors, um dos vários meios internacionais dedicados a lifestyle que fizeram eco desta experiência nos últimos anos.

Em 2024, em conversa com a arquiteta e amiga de infância Joana Azevedo, recebeu sugestões sobre como poderia transformar os interiores daquele sítio num espaço acolhedor para os enlutados. “As pessoas que vão a um retiro precisam de um lugar relaxante e calmo. Não querem uma casa agitada, cheia de padrões e papéis de parede”, explicou na mesma entrevista. As pedras escuras das paredes externas, cercadas por um bosque de sobreiros, ajudam a compor o sóbrio cenário.

A herdeira do Paço da Glória passou então a organizar naquela quinta os encontros entre enlutados, mas não só: em julho de 2024, o The New York Times publicou os registos de um jantar organizado por Rebecca para os seus amigos próximos, com o tema “nostalgia”. À luz de mais de cem velas, estavam convidadas como Zoe Graham, cofundadora da vinícola Churchill’s que ofereceu as bebidas para o brinde daquela noite. No outono daquele mesmo ano, em parceria com uma psicoterapeuta, organizou um retiro para famílias, com “terapeutas formados” a orientar as sessões e “atividades para as crianças compreenderem e expressarem o luto“.

Na agenda de Rebecca para os dias 2 a 5 de outubro, está um “retiro para famílias enlutadas no acampamento Alex” (Camp Alex Family Bereavement Retreat, em inglês), uma experiência de três noites no Paço da Glória para oito famílias. Alex é o nome do seu falecido irmão, o surfista Alexander Illing, que vivia no Porto e morreu repentinamente em 2020 numa viagem com os amigos nas Maldivas. O evento é realizado todo em inglês e custa 500 euros por pessoa. O valor inclui “acomodação num incrível castelo histórico, todas as refeições, atividades e sessões de apoio ao luto durante todo o período do retiro”. Na descrição, a proposta afirma ter sido concebida para “apoiar um dos pais sobreviventes e seus filhos menores de 19 anos, após a morte de um dos pais”.

Arcos de Valdevez: o destino do terceiro retiro de Rama Duwaji

Para além dos eventos para enlutados organizados pela própria Rebecca — que vive entre Portugal e Londres com o marido, o músico inglês Richie Culver — o paço é também arrendado para outras experiências. Em setembro de 2026, será o palco de um retiro espiritual para mulheres, com bilhetes de entrada que custam entre 3.700 e 4.200 euros. Um dos nomes inscritos é Rama Duwaji, a primeira-dama de Nova Iorque, avançou o The New York Post.

A mulher de Mamdani ter-se-á inscrito numa “jornada pela caligrafia islâmica” (journey through islamic calligraphy, em inglês), que decorre dos dias 16 a 21 de setembro e 25 a 30 do mesmo mês no Paço da Glória, na freguesia de Jolda Madalena. A animadora, ilustradora e ceramista casada com o autarca Zohran Mamdani desde fevereiro de 2025 participa como artista residente e deve orientar um workshop de desenho, segundo o mesmo jornal. “As tardes serão dedicadas ao descanso, à contemplação e a absorver a beleza ao nosso redor, enquanto os nossos dias nos levarão numa jornada pela rica história do Islão em Portugal”, diz o anúncio no site da The Women Sanctuary.

Na passada terça-feira, o Observador contactou a empresa no sentido de apurar se a presença de Rama está confirmada e em que moldes, questionando sobre se a primeira-dama vai dar o workshop; e questionou o Paço da Glória sobre a estrutura preparada para o evento. Até agora, não foi possível obter feedback.

Entre as atividades em que Rama poderá participar, estão esculpir a própria caneta de junco para as aulas de caligrafia islâmica com o mestre calígrafo Pablo Casado. Só há mais uma vaga disponível para reservas na experiência marcada em Portugal, no valor de 3.700 euros para a estada em quarto partilhado com casa de banho privativa. Já está esgotada a opção em quarto individual com casa de banho privativa, pelo valor de 4.200 euros. As refeições halal com “os produtos mais frescos cultivados na quinta” e as atividades do programa estão incluídas neste valor, mas a deslocação até ao Alto Minho fica por conta de cada participante. Como manda a tradição halal, bebidas alcoólicas são proibidas.

O “retiro liderado por mulheres no coração do Mediterrâneo, enraizado na tradição islâmica, na atenção plena (mindfulness) e no sagrado. Uma ode a Alá”, é o mote das atividades em grupo organizadas pela empresa da designer parisiense Rym Nur. A opinião pública norte-americana deu conta das viagens de Rama ao notar a ausência da primeira-dama de Nova Iorque em julho deste ano por ocasião das celebrações do 250º aniversário dos Estados Unidos e os eventos do Dia da Independência daquele país.

Rama não participou ao lado de Mamdani: terá embarcado no fim do mês de junho para atuar como artista residente num retiro em Maiorca, em Espanha, com o tema “plantas do Alcorão”. Em seguida, no mês de julho, participou em mais uma experiência com a mesma empresa: uma viagem para explorar “a vida e o legado de Maria sob uma perspetiva islâmica e multirreligiosa” na ilha francesa de Córsega. Rama esteve entre as participantes que ficaram alojadas num mosteiro histórico do século XV — a edição anterior deste mesmo percurso foi destacada na edição de outubro de 2025 da Vogue Arabia.

Os opositores de Mamdani não demoraram a opinar sobre o caso. “Ser mulher de Zohran Mamdani deve ser muito stressante, porque esta primeira-dama está mais interessada em férias do que em assuntos que afetam os nova-iorquinos”, disse a vereadora do conselho municipal de Queens, Joann Ariola, ao The New York Post. “As antigas primeiras-damas passavam o seu tempo a visitar escolas e a fazer trabalho de caridade”. O antecessor no cargo de Joann corroborou a crítica. “Estão a agir como jet-setters quando era suposto estarem ao serviço dos nova-iorquinos, mas são tudo menos isso. Ela é um bom exemplo da hipocrisia desta administração”, afirmou Bob Holden ao mesmo jornal. “Como a esposa de Mamdani celebrou a solidariedade palestiniana em vez da solidariedade norte-americana” é o título de um artigo do The Times com ainda mais críticas de políticos daquele país à viagem de Rama.

Em Portugal, a distrital do Chega em Ponte de Lima manifestou-se sobre a experiência no Paço da Glória. “Chamam retiros espirituais, mas não passam de cerimónias e rituais que atentam contra a nossa cristandade”, refere o partido numa publicação no Facebook, em que fizeram também uma referência a Mamdani: “Não vamos aceitar mais mesquitas em Portugal, muito menos presidentes de câmara muçulmanos”.

Os pais de Rama Duwaji, que tem 29 anos e nasceu no Texas, são de Damasco, na Síria. As origens da sua família inspiram os seus trabalhos artísticos em temas como direitos das mulheres, genocídio em Gaza e justiça social no Médio Oriente. No seu portfólio, afirma já ter realizado trabalhos para a The New Yorker, The Washington Post, Vogue e BBC. Rama e Mamdani, ambos muçulmanos, conheceram-se em 2021 através da aplicação de relacionamentos Hinge. Noivaram em outubro de 2024 e casaram-se em fevereiro de 2025. Em novembro daquele ano, Mamdani venceu a disputa eleitoral em Nova Iorque, assumindo a autarquia em janeiro de 2026.

Antes de se mudarem para a residência oficial Gracie Mansion, de cerca de mil metros quadrados, o casal vivia num apartamento pequeno de um quarto em Astoria, no bairro do Queens. Rama não cumpre funções oficiais na câmara de Nova Iorque nem é considerada funcionária pública. Na mais recente declaração de impostos do casal, realizada em 2025, constam 1.600 dólares que o autarca recebeu por direitos autorais (Mamdani teve uma breve atuação como rapper) e 131 mil dólares do seu trabalho na política. Rama declarou cerca de 10 mil dólares que terá recebido pelos seus trabalhos como animadora e ilustradora. O conteúdo do documento fiscal foi divulgado pelo The New York Times.