Tinha 12 anos quando lhe pediram para ser a duplo de corpo de Serena Williams. Não para imitar o estilo, não para a homenagear – para ser a sua duplo, literalmente, nas cenas de ténis do filme “King Richard”, de 2021. Thea Frodin era então uma criança de Los Angeles, filha de pais suecos, que já se destacava nos circuitos júnior de ténis da Califórnia. Cinco anos depois, a norte-americana de 17 anos entrou em Flushing Meadows para estrear-se no US Open – o mesmo torneio onde a sua ídola ganhou seis títulos de singulares – já como ela própria. Classificada no 580.º lugar do ranking WTA, Frodin chegou a Nova Iorque com um wild card conquistado da forma mais legítima possível: o título de singulares no USTA Billie Jean King Girls’ 18s National Championships, em San Diego, duas semanas antes.
A ligação ao cinema não foi planeada. Com dez anos, ganhou os títulos de singulares, pares e pares mistos nos campeonatos regionais da sua categoria na Califórnia – foi esse currículo que chamou a atenção dos produtores de “King Richard”, o filme sobre Richard Williams e a ascensão das filhas Venus e Serena, com Will Smith no papel principal. Convidaram-na a fazer um teste. Passou. E durante seis meses, foi ela quem apareceu em campo nas cenas de ténis – a ser o duplo de Demi Singleton, a atriz que interpretava a jovem Serena, sempre que a câmara apanhava o jogo.
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“Estar nas filmagens foi uma experiência incrível. Consegui estar ao lado de atores fantásticos e, obviamente, do Will Smith. O facto de poder ser o duplo de alguém que admiro desde sempre foi muito especial para mim. Fiquei honrada”, disse Frodin ao portal oficial da WTA. Smith ficou conhecido nas rodagens por trazer água quente para os treinos nos dias frios e chuvosos das filmagens ao ar livre – um gesto que a jovem ainda recorda com carinho.
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Mas seis meses a imitar os movimentos de uma das tenistas mais dominantes de sempre tiveram um custo inesperado. Frodin saiu das rodagens a jogar como Serena. “Depois de terminar as filmagens, habituei-me um pouco aos seus movimentos. Os meus treinadores ficaram um bocado frustrados comigo porque comecei a bater naturalmente como ela. Absorvi o seu batimento de esquerda, a sua técnica – mas tentei tanto quanto possível voltar aos meus próprios movimentos”, admitiu. Foi um processo. A Frodin que entrou no US Open não era a Frodin que saiu das rodagens – era uma versão mais refinada, que teve de aprender, depois de imitar a melhor, a ser ela própria.
O palco para essa apresentação não podia ser mais exigente. O wild card que a levou a Flushing Meadows foi conquistado da forma mais legítima possível: em agosto, ganhou o título de singulares do USTA Billie Jean King Girls’ 18s National Championships, em San Diego. A recompensa foi um cheque de 140 mil dólares – e uma primeira ronda com Elena Rybakina, número dois do mundo e campeã do Open da Austrália em título. Uma entrada no torneio que podia intimidar qualquer jovem de 17 anos. Frodin não pareceu intimidada. “Não diria que são nervos. É mais entusiasmo. Esta é uma oportunidade enorme para eu desfrutar do momento e ver o que consigo fazer“, disse na antevisão do jogo.
O currículo júnior que a levou até aqui é sólido. Além do título em San Diego, Frodin chegou às meias-finais do quadro de juniores do Open da Austrália em 2026 e foi finalista de pares no Open da Austrália de juniores. No WTA, está classificada no 580.º lugar do mundo – um número que não conta a história completa de uma jogadora que, como ela própria diz, sempre sonhou com este momento. “O facto de estar aqui agora e poder vivê-lo na realidade é ainda algo que estou a processar“, admitiu.
Apesar dos seis meses a ser a Serena Williams que o público viu em campo, as duas nunca se cruzaram pessoalmente. Foi duplo, estudou-a, absorveu os seus movimentos ao ponto de os seus treinadores terem de intervir – mas cara a cara, nunca. Serena está em Flushing Meadows este ano, a jogar pares femininos com a irmã Venus – e também pares mistos com Carlos Alcaraz, numa prova que antecedeu o arranque dos quadros principais de singulares e pares. “Espero que, se tiver oportunidade de bater com elas ou simplesmente de as conhecer, qualquer coisa, vou aproveitar. Seria incrível, seria um sonho”, disse Frodin.
Dentro do court e para iniciar-se no US Open, o desafio não podia ser maior. Esta terça-feira, no Arthur Ashe Stadium, Frodin estreia-se num Grand Slam frente a Rybakina. Uma primeira ronda que, em condições normais, seria um resultado anunciado. Mas Rybakina chega a Nova Iorque condicionada por uma lesão no tornozelo esquerdo sofrida em Cincinnati, há dez dias – e Frodin, com 140 mil dólares já garantidos pelo acesso ao torneio, entra em court sem nada a perder.